Variedades 5 meses atrás | Redação

Conheça Lázaro Roberto dos Santos e o Zumvi Arquivo Fotográfico

Seu desejo, mais para frente, é poder inaugurar o primeiro museu da memória do povo negro

por Revista FHOX

Foi em 1990, no casarão da Igreja Nossa Senhora da Penha, na Ribeira, que Lázaro Roberto dos Santos começou a revelar e ampliar as duas mil fotos que fez das festas populares, como Senhor do Bonfim e Carnaval, e manifestações do Movimento Negro de Salvador. Dessa maneira, ele criou o primeiro laboratório de fotografia do Zumvi Arquivo Fotográfico.

Hoje, o fotógrafo tem 60 anos, mas descobriu a fotografia aos 20 em um festival de artes anual, que era organizado pelo Grupo Experimental de Artes de Fazenda Grande do Retiro, onde ele nasceu, cresceu e vive até hoje.

Ele passou a fotografar os festejos da cidade com uma Minolta ganhada de presente. Ninguém o ensinou, ele foi aprendendo sozinho em meio a sua curiosidade e força de vontade.

Como fotografar era “uma arte cara, mais uma profissão de branco”, Lázaro trabalhava em uma gráfica com o padre Paulo Maria Tonucci, “um padre progressista”, que panfletava contra a ditadura militar. Foi nessa mesma época que ele conheceu o Movimento Negro – e o jeito que via o mundo mudou.

Zumvi Arquivo Fotográfico

O início

Em uma entrevista ao jornal A Tarde, ele lembra que seu primeiro grande trabalho foi na Feira de São Joaquim, nos anos 1990, ao lado do amigo pesquisador Jorge Batista.

No evento, Lázaro fotografou detalhes: o rosto cansado dos trabalhadores braçais, toda a gente que passava apressada entre as barracas e os feirantes. “Ele fez uma pesquisa para livro, para jornal, e eu com a câmera. Tomava café lá, passava o dia”. O título do projeto foi: O trabalho do negro de Água de Meninos e São Joaquim.

Zumvi Arquivo Fotográfico

Lázaro conta que, no início, era recebido com muita desconfiança. As pessoas o questionavam sobre a finalidade das fotos e tinham receio das imagens serem vendidas para brancos.

“Mas fui fazendo amizade, dia de domingo ia lá, tomava uma cerveja com eles. Descobri que  tinham vergonha de se ver naquela posição, trabalhando, sujos. Até hoje continuo a ir lá”. Dois anos mais tarde, em 1992, Lázaro participou pela primeira vez de uma exposição, na Casa do Benin, com suas fotos da feira expostas ao lado das do francês Pierre Verger. Depois, a mostra foi para Recife.

Zumvi Arquivo Fotográfico

Ainda em 1990, enquanto produzia e organizava as imagens da feira, Lázaro se deu conta de que já tinha um acervo considerável. “Muitas eu nunca nem tinha visto, porque não tinha dinheiro para revelar”. No mesmo ano, depois de concluir um curso de fotografia, chamou os fotógrafos Raimundo Monteiro e Ademar Marques e, com eles, fundou o Zumvi Arquivo Fotográfico.

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Contribuições importantes para o acervo

Das 30 mil fotos do acervo, cerca de 20 mil são de Lázaro. As outras vieram dos parceiros do Zumvi e da doação de acervos pessoais de figuras como Jônatas Conceição (1952-2009), diretor do Ilê Aiyê e um dos fundadores Movimento Negro Unificado na Bahia. Além de Luiz Orlando (1945-2006), militante e estudioso do cinema negro.

Zumvi Arquivo Fotográfico

Desde meados dos anos 1990, Lázaro cuida do arquivo sozinho. Nunca teve financiamento de instituições. “Construí isso porque sei da importância de ser um fotógrafo negro e cuidar dessa memória. Mesmo com o desestímulo e abandono”.

Zumvi Arquivo Fotográfico

Digitalizar as fotos, armazenadas em gavetas e envelopes numa salinha de dois metros quadrados na casa de Lázaro, não é só um desejo, mas uma urgência. Junto com o sobrinho José Carlos Ferreira ele organiza, digitaliza e cataloga as imagens.

“Imagine se a gente perde todo esse arquivo? É apagar a memória da população negra da cidade”, diz Carlos. Mais para a frente, querem inaugurar o primeiro museu da memória do povo negro. Não deixar escondida a história da negritude da Bahia.