Variedades 2 semanas atrás | Flávio A. Priori

Renato Rocha Miranda e seu Criadouro Carioca

Sempre em busca de inovações, fotógrafo fala sobre seu estúdio, aprendizado e ensino de iluminação

por Revista FHOX

Fotos: Renato Rocha Miranda

Existem algumas pessoas que mesmo já tendo alcançado marcas importantes, não conseguem simplesmente se acomodar. Estão sempre pensando em novas formas de fazer as coisas acontecerem. Essa é a impressão que temos ao entrevistar Renato Rocha Miranda, fotógrafo e responsável pelo Criadouro Carioca, um dos espaços mais proeminentes para profissionais da imagem na capital fluminense.

Renato Rocha Miranda.
FOTO ARQUIVO PESSOAL _Renato Miranda em sua viagem para o Nepal.

Mas para entender o conceito do Criadouro, antes é preciso conhecer a história de Miranda. Após sair do colégio, Miranda iniciou seus estudos na engenharia, buscando um lugar que o ajudasse a desenvolver seu pensamento crítico. Trabalhou por 10 anos na construção civil e, apesar dos negócios irem bem, algo o incomodava.

“Começou a ficar uma coisa muito comum, batida. Era a mesma coisa o tempo todo, não me satisfazia mais. Ainda tinha 20 e poucos anos e já sentia fisicamente esses efeitos: ganhei peso, fiquei ranzinza, irritado a todo instante. Mais a pressão do futuro perfeito. Para aliviar esse stress, resolvi começar a estudar fotografia”, conta.

O ponto chave de mudança foi no ano 2000, quando surgiu a oportunidade de fazer uma expedição fotográfica para o Nepal. Faltando um mês para a viagem, suas duas câmeras da Minolta quebraram. Ele foi obrigado a viajar só um com uma Nikon FM10 sem lente. O que poderia ter sido um desastre acabou se tornando um episódio que definiu bastante o estilo da fotografia de Miranda.

“Comprei uma lente no Nepal quando eu cheguei, uma 50 mm. Na época eu não sabia, mas hoje eu tenho certeza que ela foi uma professora de fotografia. Eu precisava chegar até as pessoas, conversar, me aproximar ou afastar. O enquadramento era dado pela minha caminhada. A interação com as pessoas foi muito grande, pois eu não tinha várias lentes como os outros membros da expedição,” diz Miranda. Ao voltar para o Brasil, largou de vez a construção para tentar a vida como fotógrafo e desfez a sociedade que tinha na época.

Renato Rocha Miranda
Registros do fotógrafo durante sua viagem ao Nepal.
Renato Rocha Miranda
Registros do fotógrafo durante sua viagem ao Nepal.
Renato Rocha Miranda
Registros do fotógrafo durante sua viagem ao Nepal.

Plim Plim de Renato Rocha Miranda

Graças às fotos clicadas nesta excursão, Miranda foi convidado para um trabalho freelancer na Rede Globo. Iria fazer a cobertura fotográfica para o reality show No Limite 3, gravado na Ilha de Marajó (PA). O resultado foi super elogiado. Boninho, até então diretor do programa, fez um novo convite, dessa vez para fotografar o novo programa da emissora, o Big Brother Brasil.

Renato Rocha Miranda
No Limite 3 foi o primeiro trabalho de Miranda na Rede Globo

Miranda conta que cobriu os cinco primeiros BBBs, primeiro como freelancer e depois como fotógrafo fixo. Ao todo foram 16 anos fotografando novelas, séries, jornais, programas de auditório e demais produções, o que, na visão dele, era um espetáculo. “Eu trabalhava na CGCOM, que hoje é a Globo Comunicação. Desse trabalho saíram mais de 20 livros publicados com as minhas imagens, alguns com outros artistas, outros só com fotos minhas”. Segundo o fotógrafo, foram tempos intensos de trabalho.

“Também tive a possibilidade de trocar experiências com pessoas que sabiam tanto ou mais do que eu. Era difícil ver alguém que não entendesse de imagem ali. Mas, principalmente, não havia pessoal só de criação de imagem, mas de toda a parte de acessórios, figurino, narrativa visual, edição de imagem, interpretação, maquiagem, locação. Então, aos poucos, eu fui entendendo também como era um ensaio profissional, com a excelência e rapidez que a Rede Globo exigia”.

Ensino da Luz

Em determinado ponto da carreira, Miranda começou a olhar com mais atenção à questão da iluminação na sua fotografia. Buscava uma forma de melhorar o uso da luz nas fotos, de como o flash poderia ser manipulado. “Notei que havia pessoas usando um tipo de flash e fazendo fotos ruins e outras, com o mesmo equipamento, gerando trabalhos fantásticos. Comecei a pensar que não era o flash em si o problema, pois quem fazia as fotos incríveis mantinha a excelência no trabalho, independente de locação, tempo ou outro fator”.

Foi assim que começou a estudar mais a fundo o assunto. Graças ao seu passado na engenharia, tinha facilidade para entender números e aspectos técnicos de iluminação. Quando começou a aplicar isso na prática, resultados expressivos apareceram, com trabalhos em diversos jornais e revista. Não demorou muito para que começasse a receber vários e-mails com questionamentos sobre como tinha feito foto X ou Y.

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Na época, final dos anos 2000, os blogs estavam em alta na internet e Miranda resolveu se aventurar nessa onda criando seu próprio blog. Inicialmente o fotógrafo achava que ninguém iria ler aquele conteúdo e pensava no site mais como um acervo de ideias e trabalhos. Para sua surpresa, o blog cresceu bastante. Seu modo de explicar iluminação, mais informal e auxiliado por seus conhecimentos técnicos da engenharia, teve uma ótima aceitação. E como uma evolução natural, Miranda passou a ensinar esse conteúdo por meio de workshops.

“Eu passei dois anos viajando, todo final de semana, para dar workshops aqui no Rio, São Paulo ou em outros lugares do Brasil. Cheguei a levar o conteúdo até para o Japão, passei 15 dias lá por conta dessas aulas”, afirma o fotógrafo. Segundo ele, além do Brasil, possui um público fiel vindo do Japão e de Portugal.

Nasce o Criadouro de Renato Rocha Miranda

Essa rotina de viagens aconteceu entre 2011/2012. Miranda mantinha o emprego na Globo enquanto ministrava suas palestras. Foram 108 finais de semanas seguidos viajando. E uma rotina de trabalho intensa não vem sem cobrar um preço. Os sinais de cansaço e problemas físicos voltaram.

Renato Rocha Ribeiro
O Criadouro se tornou um espaço para as pessoas estudarem, praticarem, promoverem debates, expor e vender fotografia.
Renato Rocha Ribeiro
Ensaio no Criadouro.
Renato Rocha Ribeiro
Ensaio Newborn no Criadouro.
Renato Rocha Ribeiro
Ensaio e aprendizado no Criadouro.

Assim surgiu a ideia de montar um local próprio para suas atividades. “Meu plano era criar um espaço onde as pessoas tivessem acesso para estudar, praticar, debater, expor e vender fotografia. Todo o processo fotográfico estaria contemplado nesse local. Em um golpe de sorte danado eu descobri, em uma nota de classificados, uma casa de mil metros quadrados super bem posicionada e com uma iluminação fantástica, realmente um achado. Neste local surgiu o Criadouro Carioca”.

Os trabalhos com o Criadouro começaram em 2012. Com área de mil metros quadrados, Miranda afirma que é possível fazer ensaios de qualquer tipo, com qualquer forma de iluminação. A estrutura ainda conta com estacionamento e parcerias com restaurantes e hotéis, além de um ambiente com segurança.

Renato Rocha Miranda
Espaço interno do Criadouro.
Espaço interno do Criadouro.
Espaço Criadouro.

“Estamos indo para o oitavo ano do Criadouro e vem dado muito certo. Fizemos aqui o primeiro evento newborn do Rio de Janeiro. Comecei a ministrar meus cursos aqui e realizar debates mensais, no evento chamado Lua Cheia. Já trouxe a Getty Images, Buda Mendes, fotógrafo da Copa do Mundo e das Olimpíadas, a Shutterstock, Márcio Scavone, Léo Aversa, todos os maiores fotógrafos de seus segmentos passaram e passam por aqui”.

Futuro em vídeo

Com o espaço próprio, por volta de 2013, Miranda começou a investir no Youtube. Na época em que a plataforma começava a ganhar relevância. Usava os vídeos para falar de fotografia, tal como fazia em seu antigo blog. Com isso, começou a reparar que havia um interesse crescente das pessoas em cursos a distância.

“Eu acredito muito na ideia do encontro presencial entre professor e aluno, entre o fotógrafo e o modelo. A fotografia demanda um contato mais íntimo. Mas o ensino a distância, pela tela, tem uma facilidade muito grande em alcançar milhões de pessoas que concordam com você, com a sua mensagem”.

Em 2016, devido ao grande fluxo de atividades que começou a gerar com a criação de conteúdo, Miranda se desligou da emissora. Além das aulas por vídeo, está constantemente presente em várias mídias: Instagram, Pinterest, Lives (Facebook), Youtube, Telegram e no novo blog Imagem, Números e Vísceras.

O fotógrafo se preocupa em responder comentários e tirar todas as dúvidas das pessoas que o procuram. “É uma preocupação que eu tenho. Não posso abrir um canal de comunicação e não me comunicar com as pessoas, né?”.

A resposta sempre fiel de seu público o ajudou a criar uma comunidade forte em volta do Criadouro. “Aquele sonho de ser financiado pela internet, hoje está acontecendo, de forma muito bonita, empreendedora e inovadora”, explica. “Consigo tirar não só o meu sustento da internet, mas como o de projetos fotográficos dessa pequena comunidade”. Ele relata que, só em um grupo do Telegram, são cerca de 900 pessoas.

“Estamos completamente abertos a parcerias estratégicas tanto para fomento do fotógrafo, como no desenvolvimento de produtos, que usem a vitrine que é o Criadouro. Hoje não somos só uma referência física, como eu sonhava antigamente, mas uma referência na internet”, conclui.

Novo desafio

A nova empreitada de Miranda será um projeto bastante único. O fotógrafo irá viajar até a Antártica para dar início ao Projeto Desertos. “O objetivo é documentar como a tecnologia permite manter a vida humana nos cinco maiores desertos da Terra. E o maior de todos é a Antártica com 14 milhões de km², bem à frente do Saara, segundo maior com 9 milhões de km². É um dos ambientes mais inóspitos da Terra, se não for o maior.”.

A missão de Renato Rocha Miranda lá será documentar o fim da reconstrução da Base Comandante Ferraz, que foi destruída por um incêndio em 2012 e deverá ser entregue em fevereiro de 2020.

“A ideia é mostrar como os militares, cientistas e construtores permaneceram na ilha esse tempo. Como a dinâmica de todas essas pessoas se deu através da tecnologia e de quebra também documentar a natureza e a fauna local”. O fotógrafo ainda complementa que após o Projeto Desertos, depois de passar pela Antártica, passará pelos desertos do Saara, Arábia, Gobi e Kalahari, fechando os cinco maiores do planeta.

Para isso, foi criada uma uma campanha no Kickante. Para apoiá-lo, clique aqui.