Variedades 3 anos atrás | Diogo Amorim

Cinefilia e Utopia

Denis Vysomirskis compartilha sobre sua paixão pelo cinema, que o ajudou a formá-lo como profissional e pessoa.

por Revista FHOX

Artigo de Denis Vysomirskis

Em 2010, fui para Manaus para gravar um casamento e percebi que não estava levando nada para ler. Como a viagem para lá não é das mais curtas, resolvi comprar algo. Deparei-me com um livro que não conhecia e que chamou minha atenção: “O Clube do Filme” de David Gilmour.

Nesse livro, de não ficção, o autor canadense narra a solução que ele encontrou para se aproximar e dar um caminho para seu filho que, com 15 anos, colecionava reprovações no ensino médio e problemas de convívio e adaptação ao sistema escolar. David  decidiu tirar seu filho da escola se ele aceitasse apenas uma condição: assistir 3 filmes por semana, escolhidos por David, e posteriormente discuti-los.

Essa situação e esse  livro me fazem um pouco nostálgico e me transportam ao início da minha paixão pelo cinema. Quando garoto passava boa parte do meu tempo livre nas locadoras do bairro lendo as fichas técnicas e sinopses dos filmes, pedindo os cartazes para encher as paredes do quarto, conversando com o dono da locadora sobre diretores e filmes.

Como seria um mundo com mais Davids Gilmours entre nós? É claro que é somente um mero exercício retórico, afinal, só com a educação formal podemos formar médicos, engenheiros e advogados. Isso não se discute. Mas, se pudesse ser um pouco mais interligado, acho que teríamos muito a ganhar. Ser moldado e instigado pelo olhar do  Kubrick, do Haneke, do Malick e tantos outros é um privilégio que não deveríamos abrir mão.

O quão rico seria, por exemplo, se além de aprender sobre a Segunda Guerra Mundial da maneira formal que estamos acostumados, pudéssemos ter acesso à visão de Ingmar Bergman com o seu “O Ovo da Serpente” para discutir as condições que levaram a ascensão do Nazismo? Ver “Ladrões de Bicicleta” de Vitorio de Sicca, filmado logo após a guerra com “atuação” de não atores e em locais ainda marcados pelo combate, com sua mensagem de esperança e reflexão dentro do caos? Será que estou sonhando alto?

O cinema é tão plural e democrático que até dois de seus principais alicerces evidenciam isso. “O Encouraçado Potenkim” de Serguei Eisentein, produzido como propaganda política para o Regime Comunista e realizado um pouco depois da Revolução Bolchevique, e “O Nascimento de uma Nação” de D. W. Griffith, que coloca o Ku Klux Klan como um grupo heroico, película com um discurso racista desprezível, são exemplos disso. Filmes tão distintos, controversos, mas inegavelmente cruciais por suas contribuições cinematográficas.

Um bom filme é capaz de suscitar tantas questões relevantes para ser apresentadas e discutidas, que não tenho dúvida em dizer que ajudaram a formar o que sou, o que acredito e muito do que faço. Consciente da ingenuidade e com receio de flertar com o maniqueismo, ainda mais em tempos em que a sensatez é pálida e a razão, que já foi absoluta, parece ser um conceito abstrato, ouso dizer que se tivéssemos mais “Gilmours” por aí, no mínimo não estaríamos fechando exposições em museus e recebendo petições online para calar pessoas que dizem algo que uma parte da sociedade não concorda. E não é pelo fato de haver um lado certo ou errado, mas como no bom cinema, é importante estar aberto para refletir sobre tudo e qualquer coisa.

Quanto a mim, a paixão pelo cinema me tirou de um emprego que eu não gostava numa instituição bancária, e me trouxe a oportunidade de ir a diversos lugares e conhecer historias incríveis para contar. Me deixou mais perto do que sempre gostei: o audiovisual.

Mas como a vida é a vida e a insatisfação é combustível para quem não é acomodado, trabalho prioritariamente com casamento e adoro o que faço. Ainda mais quando tenho liberdade e consigo usar minhas referências de mundo nos  vídeos que produzo.

E como não poderia deixar de ser, uma parte das coisas que faço não necessariamente me deixam totalmente realizado, pois acima das minhas ambições artísticas está o cliente e o que ele espera, o que ele contrata. Sim, sou um fornecedor de serviços e estou aqui para oferecer o melhor para o meu cliente. E sempre que possível, claro, produzir um “filme” a cada trabalho realizado.

Denis Vysomirskis trabalha com audiovisual desde 2005, impulsionado por sua grande paixão pelo cinema. É responsável pela 4GP Wedding Cinema.

www.4gp.com.br
Instagram: @quatrogp