Variedades 2 anos atrás | Diogo Amorim

“Sem medo do escuro”

Projeto de Anna Kahn vence a 15ª edição do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia

por Revista FHOX
açai-webAnna Kahn

A fotógrafa carioca Anna Kahn escolheu as cidades de Belém do Pará e Diamantina (MG) para desenvolver seu projeto de “Sem medo do escuro” em que tem o objetivo de retratar o contemporâneo que para ela equivale a fotografar com os olhos fechados. Ao me afastar do modelo clássico da representação documental, enfrento o desafio da fotografia contemporânea quando afirmo que a descoberta é o trabalho em si. É como contar um história no momento de sua invenção, uma narrativa visual em processo de construção”, comenta.

Em Belém, Anna teve a experiência de uma viagem sem roteiro. “Hoje vejo que não pré-determinar um tema para o trabalho foi um grande acerto. A liberdade era meu ponto de partida, mas foi decisivo ter acesso a pessoas da área cultural no primeiro contato com a cidade para buscar um caminho.” Ela ficou hospedada na Residência São Jerônimo, do artista Alexandre Sequeira, foi recebida por Miguel Chikaoka e pela associação FotoAtiva.

O curador do projeto Diógenes Moura fez o contato do “Sem medo do escuro” com a cena cultural paraense, em especial o fotógrafo Wagner Almeida, companheiro nas madrugadas violentas de Belém, e o escritor Edyr Proença, autor do livro Pssyca, que se tornou inspiração fundamental para Anna. A trajetória da personagem Janalice conduz sua fotografia: imagens dos bailes de música brega, bares de prostituição e corpos assassinados nas ruas da cidade. O projeto fala de tráfico de seres humanos, especialmente meninas que são sequestradas e vendidas como prostitutas, crime que é considerado o terceiro mais lucrativo no mundo, atrás do tráfico de armas e de drogas.

Em Diamantina o fotógrafo Eustáquio Neves, da residência artística ENA, recebeu o projeto “Sem medo do escuro”em novembro de 2016. A situação geográfica da cidade, longe do circuito turístico das cidade mineiras, fez com que Dimantina fosse preservada numa espécie de “esquecimento”, mas que também é seu grande trunfo porque muitos filmes encontram ali um perfeito cenário de época. É uma cidade que vive no passado e do passado. “Para compreender esse esquecimento mergulhei no clássico Minha vida de menina, um livro em forma de diário que relata o dia a dia da jovem Alice que nos conta com inocência e sinceridade as relações entre os negros recém-libertos e a conservadora socidade mineira. O livro fala de dois momentos do País: um Brasil colonial construído com o trabalho de africanos escravizados e um Brasil atual onde o tráfico de seres humanos para prostituição é chamado de ‘escravidão contemporânea’.”

 

O livro estará disponível para o público pela página https://www.facebook.com/semmedodoescuro/, bem como em diversas instituições culturais e de ensino de fotografia, tais como Atelier da Imagem, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Sociedade Fluminense de Fotografia, FAAP, Biblioteca Nacional, entre outras. A edição também será distribuída gratuitamente para residências artísticas parceiras, como FotoAtiva e Residência São Jeronimo, em Belém e ENA, em Diamantina.