Wedding 12 meses atrás | Colaboradores

Tati Pinho: “Tive uma experiência incrível na 475 Kent Avenue”

Fotógrafa do Rio de Janeiro, foi para Nova York fazer um workshop com David Alan Harvey, fotógrafo da mítica agência Magnum e um dos maiores nomes da fotografia mundial.

por Revista FHOX

Por Tati Pinho

Eu não sabia, quando planejei essa viagem a NY, a dimensão que esse endereço, uma avenida
larga, calma e às margens do rio em Williamsburgh, Brooklyn, significava e faria com a minha
vida.

Não foi meu primeiro encontro nem a primeira vez que decidi fazer um curso com o David Alan
Harvey, uma lenda viva da fotografia. Conheci o David há 2 anos e meio, quando ele veio ao Rio de Janeiro fotografar seu livro “Beach Games” e abriu vagas para um workshop por aqui.

Sobre a experiência no Rio, posso dizer que foram 2 semanas que me transformaram numa outra fotógrafa. Na verdade, foram dias que me lembraram a fotógrafa que sempre quis ser e tinha me esquecido há anos. E talvez nunca mais me lembraria se não fosse esse encontro.

Ainda vou precisar de alguns meses, talvez anos, para processar o impacto que foram esses 15
dias em NY e o quanto isso mexeu e sacudiu profundamente aqui dentro. Mas uma coisa sei:
foi uma experiência completamente diferente dos dias cariocas.

Por quê fazer dpos workshops iguais, com a mesma pessoa? Eu me fiz essa pergunta várias vezes.
Ir de novo? Por quê? Pra quê? Não sabia responder. Mas atendi um chamado interno, estava
questionando muito a minha fotografia e a forma que vinha conduzindo o trabalho comercial e
os projetos autorais, um pouco cansada de tudo que via aqui, e sabia que precisava ir… pelo
bem da minha fotografia. E por mim.

“Se você for realmente bom, muito bom, você vai se destacar, não importa de onde você vem. Eu
não conheço nenhum bom fotógrafo que não tenha chegado lá”. David solta essa frase em uma
das nossas conversas despretensiosas, como todas as conversas dele, e completa “a menos
que você não queira. Porque tem gente que não quer.”

Quanto mais conheço pessoas que admiro profissionalmente, mais isso se torna verdadeiro. E
constato que ele tem razão. O que torna as coisas mais difíceis, porque a responsabilidade é
totalmente nossa. Não é culpa do mercado, da cidade que você mora, das pessoas que não
entendem seu trabalho. Você está fazendo algo errado. Ou simplesmente não é bom. E é preciso
encarar a verdade de frente. Eu viajei disposta a colocar meu trabalho autoral em cheque, a
entender melhor o que vinha produzindo nos últimos dois anos e estava preparada até pra talvez
ver que, de repente, não era boa no que fazia. E tudo bem. Seria uma realidade que estava
disposta a encarar.

Woody Allen diz uma coisa que adoro: “apenas trabalhe bem, não perca tempo pensando em
mais nada, não leia a seu respeito, não tenha grandes discussões a respeito do seu próprio
trabalho, não se junte ao circo do show business, não preste atenção nas distrações e tudo mais
se encaixa no seu devido lugar. Se não gostarem do seu trabalho, continue fazendo seu negócio,
e, ou eles ficam mais espertos ou você vai se ver sem trabalho, merecidamente. Se detestarem
seu trabalho, deixe – podem ter razão. E se as pessoas te chamarem de gênio, é muito
importante você sair correndo.”

Eu não fui pra NY com nenhuma missão, na verdade mal sabia se viveria algo extraordinário
ou o que eu iria encontrar, mas lá no meio do curso, entre choros internos madrugada a dentro,
questionamentos e muitas risadas com os amigos, eu ainda sem saber como, sentia que
precisava me testar. Um teste a novas experiências, a me abrir mais, e a ousar todos os limites
da minha fotografia. Sem medo do feedback que tivesse. Foi logo no primeiro dia que percebi que eu estava ali por mim.

“When you got nothing, you got nothing to lose”, diz uma frase da música Like a Rolling Stone, do
Bob Dylan. Meses antes dessa viagem, eu estava com meu cunhado na República Dominicana,
numa viagem em família, e comentei com ele sobre a ideia de fazer esse workshop e ir passar um
tempo sozinha em NY.

Falei que a grana estava muito curta, que a viagem seria bem cara, que o curso eram alguns mil dólares e eu tinha que pesar. Rinaldo, meu amigo e cunhado, disse que eu não tinha nada a perder além do dinheiro e que grana nunca deve ser o fator que nos separa de algum sonho. Meu pai, ouvindo a conversa me lembrou dessa música do Dylan e cantou o trecho, enrolando calmante sua toalha pelo corpo após a saída do mar. Naquele minuto, de frente às águas cristalinas do mar caribenho e de um enclausurado resort, eu decidi que iria.

Ano passado um amigo americano, que mora aqui no Brasil, e trabalha com fotografia, me
perguntou: ‘Por quê todo bom fotógrafo de casamento que eu conheço está deixando a profissão
ou está desanimado? O que acontece com vocês, pessoal?”

Essa pergunta não sai da minha cabeça há um ano e tentei respondê-la todas as vezes que quis
parar com a fotografia de casamento. Continuo sem resposta e não parei de fotografar casamentos.
E a falta de respostas me levou a NY.

Chego dez minutos atrasada na tarde de domingo, o workshop começa na segunda, mas no dia
anterior o David sempre gosta de reunir os alunos na casa dele para uma “festinha de
apresentação” como gosta de chamar. Um welcome drink a la Mr. Harvey. E ele é um party
man.

Entro já pedindo desculpas, sei que a única coisa que ele odeia é que as pessoas cheguem
atrasadas, mas é um belo domingo de sol nova iorquino, um clima atípico para meados de
outubro como eles me disseram, e o bom humor impera quando entro no loft do Kubbitz. Abro a porta e após um longo abraço sou introduzida à turma: “Pessoal, essa é a Tati, uma
grande fotógrafa, que eu adoro o trabalho. Seja bem-vinda”.

Naquele minuto pensei “estou arruinada.” As expectativas de uma pessoa que você admira e
já produziu certa vez um trabalho são grandes e ali, naquele momento, vi que talvez eu fosse
desapontá-lo. Na turma, e bem na minha frente, uma aluna que é uma grande fotógrafa neozelandesa, a Niki Boom, uma das maiores referências da fotografia de família mundial, com seu trabalho recentemente publicado no Lens Culture, e da qual sou fã, me olhava com complacência.

Um certo olhar de “estamos no mesmo barco” vindo dela, apesar dela ser um navio bem grande perto de mim. Apresentações feitas, rapidamente David pediu que saíssemos para aproveitar esse lindo fim de tarde. Saiam e voltem em 2 horas com 10 imagens. Fotografem.

Mal trocamos nossos “olás” e já estávamos cada um por si, nas ruas, fotografando a cidade. Eu, que fui para continuar meu trabalho e projetos autorais, disse: “David, dessa vez não quero ir
pra rua. Dessa vez sei qual fotografia quero produzir e ela não é fotojornalismo.” Só ouvi um claro, faça o que quiser, mas fotografe e volte. Com fotografias boas, não importa sobre o quê.

Ele faz uma distinção entre foto e fotografia que acho maravilhosa. “Essa é só uma foto, boa, mas
é uma foto. Quero ver fotografias” e por fotografia, falamos de punch, algo que produza questionamento ou a sensação que for: paixão, aversão, tesão, dor. Uma boa foto faz com que a
imagem fique na cabeça e você fique pensando nela por horas.

Uma das coisas maravilhosas de você conviver, conhecer ou estudar com fotógrafos dessa
magnitude é o fato deles não te enquadrarem em nenhuma fotografia. David Alan Harvey é fotojornalista. Trabalhou a vida inteira para National Geographic e Magnum Photos. O workshop não
é sobre fotojornalismo. É sobre fotografia. Liberdade é a palavra que impera, do início ao fim.

Liberdade de temas, escolhas, de ir e vir na casa dele, liberdade na fotografia. A única regra é
chegar em ponto todas as manhãs às 09h30. Nem antes, nem depois. Regra fácil, única e
cumprida por todos. Aprender que existe fotojornalismo e fotografia de arte, e todas suas variações, é algo que parece simples. Mas não é.

Vi trabalhos que pensei: “nossa, nunca vi nada assim na vida”, e não sei onde se encaixavam,
mas isso não importa. Classificações não importam. Boa fotografia é boa fotografia. Ponto. E essa é uma das primeiras e grandes diferenças que observo aqui no Brasil e no nosso meio de casamentos, principalmente. Parece que aqui só se fala em foto jornalismo. São as fotos que
as associações premiam, as que os fotógrafos querem fazer, o estilo que vende (para os outros
fotógrafos), onde vemos mais cursos, mas poucos, muito poucos fotógrafos de casamento
conhecem outras fotografias, nomes dos grandes fotógrafos de moda, de arte, de retrato. Ficam
só nos fotojornalistas, falam os mesmos nomes, citam fotógrafos de guerra à exaustão, e
obviamente, não há de se espantar porque a fotografia de casamento anda tão igual.

O discurso é sempre lindo: “Vocês têm que ir a museus, à exposições, ao cinema” mas quase
nunca consigo um amigo fotógrafo de casamento disposto a parar a edição e ir numa exposição comigo. Somos quase sempre eu e o Tiago, meu marido, e amigos que não são da área do casamento.

William Egglestone fez uma exposição marcante no Moreira Sales, que foi seguida por outra do
Otto Stupakoff, esplendorosa. Quase ninguém lá na noite em que o Bob Wolfenson contava dos
encontros e desencontros da vida do Otto, a irregularidade da sua carreira, os diversos seguimentos dentro da fotografia que o Otto passeou… e lá estava a mais incrível reunião de fotos de família que já vi na vida. Lembro que avisei a dois amigos que tinham acabado de chegar ao Rio “não percam a exposição do Otto”, e ninguém foi.

Mas esse não é um relato de desencanto ou desânimo. É somente pra mostrar como ficamos
tão absorvidos com os compromissos diários e não nos abastecemos do que faz a fotografia de
verdade, que na realidade não está nos museus, nem nos livros, está nas experiências e em viver.

Com tempo. E longe das mesas de trabalho e das frentes dos computadores. Esse papo é romântico, eu sei. Talvez idealista, pensava. Mas não tem um fotógrafo dos que conheci e conversei em Nova Iorque, os maiores nomes da fotografia americana e mundial, que estão atrás das telas de seus computadores, ou fazendo review de monitor, câmera, pdf, cursos, vlogs, falando de equipamentos, mercado ou sucesso. Eles estão fotografando. O tempo todo. De todas as formas, até sem câmeras.

Conversar, doar tempo, estar com pessoas, beber, dançar, caminhar, ouvir as notícias da sua cidade, país e do mundo, ter opinião, sentar para um café improvisado, encontrar os amigos. Só isso pode fazer a sua fotografia ter frescor e refletir nela e com o tempo, é o que te faz não perder o tesão em fotografar.

Aqui me parece que estamos deixando de ser fotógrafos. Viramos empreendedores. E, vamos ser
sinceros, você precisa saber de negócios, marketing, tudo isso… mas isso não pode tomar seu
tempo mais que a fotografia. Mais que fotografar. Se hoje é isso que acontece com você, das duas uma: ou você é mais empresário que fotógrafo, o que não haveria problema algum, se você estiver feliz assim; ou você vai se cansar da fotografia. E vai querer fazer outra coisa. Vai achar que no fundo não gosta tanto assim da fotografia, que é melhor dando cursos, sendo curador, etc. Pode até ser que você seja bom nisso. Mas você está cansado e desanimado com a sua fotografia, acredite em mim.

Você deixou acontecer, o que mais cedo ou mais tarde, invariavelmente acontece com todos os
fotógrafos que estudam muito, questionam suas fotos e passam a dedicar tempo a funções
paralelas: você perde o tesão em fotografar. Porque você se cansou do mercado.

Aconteceu comigo e acontece hoje com vários amigos e amigas. Eu conheci muitos amigos do David nesses dias, alguns que foram lá pra dividir suas histórias e experiências com a gente. O Ruddy Roye, um dos mais celebrados fotojornalistas de Nova Iorque, fotógrafo do ano da revista Time e da agência VII Photos, uma das maiores do mundo, foi o primeiro a chegar, na terça-feira.

Foi passar a manhã na casa do David, falar pra gente como é ser fotojornalista em NY, e de
repente conheço alguém que não fala de si. Todas as apresentações que fiz dele aqui, foi o
David que me contou e pesquisei depois. Naquele momento não sabia a dimensão e a
importância do fotógrafo que estava diante de nós. E isso foi ótimo. Nos encantamos todos por
ele. A paixão que contava pela história de cada foto.. ele só falava das pessoas. De pessoas.
Para pessoas. Sobre pessoas. Nada de como eu fiz, eu sou assim, eu…

Difícil vermos isso por aqui, não? Essa foi a característica que mais me marcou a princípio e para meu espanto, meus amigos de várias partes do mundo nem notaram. O que me fez pensar que andamos falando demais de nós mesmos por aqui, dos nossos prêmios, trabalhos. É sempre muito eu, eu, eu. Vê-lo falar era um deleite, e ali estávamos 12 alunos maravilhados. Eu só pensava: “em que momento perdi isso? Quando foi que abri mão das histórias e dos projetos e me tornei uma máquina e uma empresária?” Boom! Como ele diz. Outra ficha que caiu. Como pode, após 20 anos fotografando, o encanto estar todo ali? Os olhos ainda brilharem, como pode um fotógrafo não
falar uma palavra sobre mercado e sucesso, apenas contar histórias de outras pessoas e nos
deixar assim, boquiabertos?

Não só com as histórias, estávamos encantados por ele. A forma calma e serena de falar sobre cada um dos seus retratados, a curiosidade genuína em saber sobre cada aluno, as perguntas que fazia para nós… Era uma manhã e David nos disse: “ele é muito ocupado, vai passar aqui às 11h e vai às 13h”. Eram mais de 15h e estávamos comendo pizza enquanto o Ruddy olhava as fotos dos alunos e seguia com suas perguntas: “Por que você fotografou esse tema? O que você pensou quando fez essa foto? “Uma curiosidade genuína, pura e real. Tão latente que não queríamos que ele fosse embora. E ele não ia.

Não estava ali para vender workshops ou mentorias, uma vez que não dá, e não criticou uma foto sequer, de nenhum aluno. Ele só perguntava porquê e ouvia com o interesse de um iniciante as respostas. O fotógrafo é um ser curioso, você sabe. Eu tenho interesse pelas pessoas, ele me disse quando perguntei porque ele estava tão interessado nos nossos projetos. “O dia que eu perder a
curiosidade, eu cheguei ao fim como fotógrafo.”

O Chirstopher Anderson e a Bieke depoorter seguiram como os convidados e foram na festa da
nossa apresentação final e que também foi a festa de despedida do David de NY. De repente,
vários dos fotógrafos que admiro estão ali, na minha frente, conversando. O apartamento vivia cheio. Às tardes eram dedicadas aos amigos que passavam, subidas ao telhado pra fotografar “a névoa mais linda dos últimos tempos”, o pôr do sol no outono, e qualquer luz que chamasse a atenção do David e que nos fazia ir direto para o rooftop do décimo segundo andar do Kubbitz, munidos de cerveja e expulsos quando o frio já nos incomodava, assim que o sol se despedia.

As tardes eram dedicadas a fotografar nossos próprios trabalhos e voltávamos às noites para um
bate-papo informal, para editar, beber qualquer coisa ou se apenas não conseguíssemos ficar
muito longe dali, como era meu caso. As portas sempre abertas, e nos amontoávamos no tapete,
às luzinhas fracas de natal penduradas, o que criava uma penumbra e uma atmosfera propícia
aos papos informais e seguíamos conversando, ouvindo e aprendendo.

Todos os dias e noites. Qualquer tentativa minha de surpreender o professor com um trabalho excepcional se foi logo na segunda-feira. Fui rendida. Os encontros, as conversas, as ruas, o rooftop, os papos intermináveis nas noites na sala do apartamento, me pareciam mais interessantes. Decidi, ali, intuitivamente, que dessa vez meu aprendizado de fotografia seria outro: observar as pessoas, escutar, falar, interagir, fazer amizades, curtir, viver. E isso, meus caros, é fotografia. E foi um dos maiores aprendizados que tive.

Na madrugada do segundo dia , de volta ao estúdio/garagem que aluguei, comecei a produzir o meu material e dessa vez, decidi que a história que ia contar era a minha. Há dois anos venho produzindo uma série autoral de fotografia ficcional, iniciada com o David, e esse meu trabalho é o responsável pelo resgate e o amor recuperado pela fotografia. São oito histórias já fotografadas sobre o tema que é meu objeto de estudo nesses dois anos: casamento, paixão, desejo e sexo. A ligação entre esses temas, a mistura de tudo e o que chamamos de amor é o meu estudo e obsessão.

E a história que os outros representavam sobre a minha vida, ali em NY, foi representada por mim.
Passei a me fotografar, pela primeira vez na vida. A produzir e a contar as minhas histórias. E foi e
está sendo a tarefa mais árdua que já tive como fotógrafa. E nunca planejei que fosse assim.

Na segunda-feira, entre uma conversa e provavelmente umas taças de vinho, voltei para o estúdio e comecei. Sem pensar em nada. Apenas fotografando o que precisava dizer. No dia seguinte, andando pelas ruas do Brooklyn que iam do meu estúdio à casa do David, fui pensando e a vergonha tomando conta de mim. Não vou mostrar essas fotos! Nossa, o que eu
fiz? Já era, eu ria sozinha enquanto andava apressada para esquentar o frio matinal.

Só tenho essas fotos no pen drive, foi tudo que fotografei, agora tenho que mostrar.
Primeira vergonha vencida. Me mostrar vivendo as histórias que contava no meu projeto. Me
senti nua, como se não tivesse nada que me separasse do meu próprio julgamento. Meu rosto
queimava, eu sentia que todos podiam ler os meus pensamentos mais íntimos, a forma que
estou questionando o amor e o desejo, as minhas questões pessoais.

No caminho liguei para o meu marido e contei: “Vou levar fotos minhas hoje, em algumas estou realmente nua, são retratos meus do projeto que resolvi desenvolver aqui. Estou morrendo de vergonha e não quero mais mostrar.” E ele me disse: “Mostra. Você está aí. Não tem nada a perder.”


De novo Dylan me ajudando, com um empurrão do Tiago. Passado o rubor das bochechas, hora de ouvir as críticas. Uma coisa é ouvir críticas sobre fotojornalismo e fotografias que você faz de outras pessoas. Outra, bem diferente, é ouvir quando você é a foto. Não há como não tornar pessoal. E eu só me repetia “foca na fotografia, esquece você.” E assim, ouvi o primeiro dia de criticas, e ali naquele momento senti que nada mais poderia me dar medo. Passou. Mostrar algo que você nunca fez, de um jeito que você nunca fez, testando todos os seus limites, ousando em todas as formas e expor esse resultado ainda bruto, e sem contexto para 15 pessoas, 15 fotógrafos absurdamente bons e que você admira. Sem perceber, mais uma barreira que se foi, mais um passo adiante no caminho do encontro com a fotografia que eu sempre quis fazer. E agora, eu poderia fazer qualquer coisa. Fotografar qualquer coisa. Nada mais me daria vergonha.

Essas fotos me aproximaram mais dos meus amigos, era algo muito pessoal, muito íntimo, e o
que percebi é que toca as pessoas quando você faz algo que é você. É inspirador, novo,
aproxima. Desperta curiosidade. Contar a minha história foi a parte fácil. Depois das fotos, não
existiam mais barreiras. Assim fomos almoçar, a algumas quadras do loft, num restaurante de
comida brasileira, bebendo caipirinhas, e de repente, 12 alunos viraram 12 amigos.

São as histórias, percebi. As histórias tocam as pessoas. “Make it personal.” Torne isso
pessoal. Eu falava pra mim. Uma das maiores dificuldades que alguns fotógrafos têm e me
perguntam é: “Como começar um projeto autoral? Como ter a sua identidade na fotografia?”
Eu sempre respondi: “Torne isso pessoal”. Mas eu nunca entendi de verdade o conceito disso até
essa terça feira, 21 de outubro.

Um dos alunos, Florent, um francês apaixonado pelo Brasil e muito, muito gente boa, queria
fotografar as quadras de basquete de rua do Brooklyn. Ruddy perguntou se ele tinha contato
com a cultura negra. “Sabe o que significa o basquete nesses bairros? Sabe o que fazemos aos
domingos?” Ele não sabia responder essas perguntas. Ruddy não disse nada após o silêncio de
Florent e com toda calma começou a contar a história de como ele escolheu seus temas, como a
sua fotografia surgiu.

Era o ambiente dele, as pessoas que ele registrava tinham a ver com a história de vida dele, ninguém mais poderia contar aquelas histórias como ele. Eu não poderia falar sobre o preconceito que os negros sofrem nos EUA. Eu não poderia dar voz aos que não têm, como ele faz, não são as minhas experiências pessoais.

Florent não conseguiria contar bem a história das quadras de basquete onde a população negra
se reúne nos fins de tarde. Florent, um francês branquelo e franzino, sem qualquer vivência e
experiência com esse ambiente. Suas fotos estavam sem vida. Até essa conversa com Ruddy.

Na quarta feira, Florent conheceu Butterz, um menino branco de 12 anos, italiano, que jogava
numa quadra de um bairro negro, e era dos “dudes”. Butterz é o apelido que os caras deram para
aquele menino franzino que amava seus amigos de quadra. A história de Florent foi o Butterz, e
foi uma das mais incríveis que já vi.

Eu precisava me lembrar: torne pessoal. Cada vida é única e tenho propriedade para falar
sobre o que conheço bem. Por isso, às vezes pensamos, elaboramos projetos autorais e eles
não têm vida, não seguem adiante ou simplesmente nunca os começamos. Porque procuramos
fora. Fora de nós. Pensamos em fotografar a pobreza, alguma tragédia, coisas aleatórias e não
olhamos para dentro. O tempo todo nosso tema está ali do lado, olhando para nós, mas requer
muita coragem pra olhar e mexer naquilo que nos dá desconforto e desenterra nossas emoções
internas.

Mas assim nascem os projetos autorias e é assim que você descobre sua voz na fotografia: parando de olhar para fora, para o que os outros fotógrafos estão fazendo, e passando a olhar pra dentro. Os dias passavam, e cada novo fotógrafo que conhecia só confirmava isso. Cada um falava das suas experiências pessoais. Da sua vida. Dos seus traumas, dos seus amores, dos seus medos.

Os melhores ensinamentos vêm assim: sem fórmulas, sem as 10 dicas escritas do que você deve
fazer, sem ninguém escolher um tema para você, sem nada escrito, preparado, sem ninguém
querendo ser seu mentor. As coisas acontecem naturalmente. Com fluidez. Entre um cigarro e
outro, um pensamento solto que pode fazer você repensar sua vida. Fotografia é sobre conversar
sentados na escada, olhando para uma vista incrível de uma parede toda de vidro que exibe
Manhattan, e alguém te faz repensar em como você vem fazendo tudo. Sem pedir que você faça
isso. É conhecer alguém ou ouvir uma história que pode te transformar. Às vezes basta uma frase
aos ouvidos atentos.

Cada coisa que ouvi entrou profundamente em mim, e pela segunda vez, sei que vai demorar um
pouco para que eu absorva tudo. Para que as coisas se encaixem. Nem todos estão preparados
para cursos assim, em que o professor te dá a coisa mais importante e ao mesmo tempo mais
amedrontadora do mundo: a liberdade. Sempre buscamos liberdade, a queremos, mas quando
alguém nos dá, quando nos sentimos totalmente livres para fazer o que quisermos, nunca sabemos
o que fazer com ela.

Eu posso dizer que é assustador e encantador. É libertador e aterrorizante ao mesmo tempo.
Os melhores professores, com o tempo percebi, são os que te dão liberdade. Não te mostram
caminho nenhum, te dão apenas as ferramentas para que você experimente uma liberdade que
eu garanto, vai te deixar fascinado. E você vai achar seu caminho. Se não em 15 dias, em alguns
meses.

O que os professores fotógrafos aqui no Brasil estão fazendo é ditar e mostrar caminhos já percorridos, receitas de sucesso já trilhadas por eles e que não podem te levar a nenhuma estrada que já não seja conhecida. Talvez seja uma estrada mais confortável, mas certamente essa trilha não vai te levar onde você deveria estar: no lugar que só você conhece.

Talvez isso explique a falta de frescor e de novidade na fotografia de casamento brasileira hoje.
Talvez estejamos todos trilhando os mesmos caminhos, pisando em estradas conhecidas, por medo e acomodação. É hora de repensar. E momento melhor para isso, não existe. É na crise, é quando tudo está difícil e sem perspectivas que não temos nada a perder. “When you got nothing, you got nothing to lose”. Viva Dylan.