Portfólio 3 dias atrás | Amanda M. P. Leite

Spencer Tunick: o fotógrafo das multidões

por Revista FHOX

Amanda M. P. Leite

Fotografia1 – Mexico City 4 (Zócalo, MUCA/UNAM), 2007
[Pigment print h: 71 x w: 89.25 in / h: 180.34 x w: 226.7 cm]
Famoso por fotografar grandes quantidades de pessoas nuas em diferentes lugares do mundo, a marca de Tunick é usar o corpo humano para criar instalações, “esculturas vivas” e transformar paisagens conhecidas. Sua obra soma mais de 80 instalações em espaços públicos. Haja espírito coletivo! Além do registro fotográfico, Tunick trabalha com a produção de vídeos. Por ser este tipo de captura bastante inusitado, o fotógrafo já foi preso algumas vezes. Para Tunick, não importam as características físicas dos corpos que “posam” para suas lentes mas, sim, o volume, a aglomeração de gente que modifica a paisagem.

Spencer Tunick circula o mundo modificando cenários de grandes cidades. O fotógrafo conta com a participação de voluntários para compor suas cenas. Ao eleger um tema, lança o convite ao público para que integre (e modifique) a paisagem. É o agrupamento do público nu que faz com que a cena cause impacto. Sua estética fotográfica toma o corpo para reapresentar a nudez e a fragilidade humana. Um corpo despido de vaidade, de pudor, de valores que se transforma, a partir do gesto do fotógrafo, na marca de um espaço, no desejo de reconfigurar panoramas e questões cotidianas. O ato fotográfico é um híbrido em que, ao mesmo tempo, cria uma instalação urbana humana e uma composição artística. 

O corpo-objeto torna-se arte. Paisagem modificada que não volta ao estado original. Corpos, convertidos em história – história narrada (e reapresentada) –, que assinalam as vias por onde passam. É enquadrando a multidão de corpos nus que o fotógrafo cunha sua arte, expressa seu gesto. Seria essa uma parceria entre o desejo coletivo e a assinatura de um fotógrafo? O que anunciam os corpos massificados pela nudez? A justaposição do nu seria um tipo de maquiagem que forja outro tipo de beleza aos corpos?

Fotografia2 – Big Color 7 (Herefordshire, England), 2010
[Pigment printh: 48 x w: 60 in / h: 121.92 x w: 152.4 cm Edition of 6]
A carne humana é alinhada, colocada em pose e modelada. Estamos diante de uma imagem que provoca o nosso modo de olhar. Na obra de Tunick coexiste a instalação – presente desde o roteiro de criação da imagem – e a captura – instante de fotografar a cena e/ou o resultado dos corpos com um fim artístico.

Pelos meios de comunicação, sobretudo pelo meio digital, a fotografia, em uma velocidade impressionante, consegue percorrer as redes sociais e propagar a arte fotográfica. As fronteiras entre o público e o particular, a ética e a perversão, o tabu e a tolerância são postas lado a lado. Ao mesmo tempo em que o indivíduo cobiça passar do anonimato para um grau de reconhecimento, Spencer Tunick, em suas fotografias, consegue escrever a história momentânea dessas personagens. Um tipo de morte coletiva inscrita numa determinada paisagem. Corpo-arte-espetáculo. 

Para aqueles que acompanham o trabalho e o processo criativo de Tunick há algum tempo, é possível identificar mudanças ao longo dos anos. Inicialmente, o artista fotografava aglomerados e multidões. Hoje, sua pesquisa também contempla retratos individuais. A nudez aparece pintada, interagindo com acessórios na intenção de compor a cena desejada e transformar o nu em obra de arte. 

Fotografia3 – Netherlands 8 (Dream Amsterdam Foundation), 2007
[Pigment printh: 40 x w: 50 in / h: 101.6 x w: 127 cm Edition of 20]
Nas fotografias de Tunick, é a repetição que apreende o olhar. É a proliferação da repetição em um mesmo espaço que nos faz voltar à fotografia muitas vezes. Percorremos os detalhes em busca de algo que não sabemos bem o que é. Buscamos a identidade ou a falta de identidade? A igualdade estampada nas diferenças? Um rosto conhecido? Quem sabe nossa parte narcísica? Abstração da paisagem. O entrecruzar de histórias e personagens. 

Fotografia4 – Desert Spirits 1, 2013
[Pigment printh: 48 x w: 60 in / h: 121.92 x w: 152.4 cm]
Nas fotografias de Spencer Tunick, as formas dos corpos nus captam nosso olhar. Não estamos à procura do sexo exposto, mas pensantes sobre um fato que ocorreu. Em algum momento, naquele lugar, naquela cidade, aquelas pessoas e aquele fotógrafo produziram uma cena. Voltamos, talvez, ao “isto existiu” barthesiano (1984) ou a uma fotografia presente de um instante passado.

Barthes (1984, p. 67) diz: “isso foi” porque o lugar desse objeto é no passado. Desconsiderando a ação dos códigos, a fotografia diz pouco, aponta para algo de modo silencioso, mas o faz intensamente. Com isso, dá a esse passado uma permanência que só pode ser entendida através de uma concepção mítica de tempo: “isso foi”; é o que Barthes chama de “esmagamento do tempo”, um tempo que morre e ao mesmo tempo vive na imagem. O “isso-foi” corresponde a um tempo vivido (sentido) e não a um tempo cronológico, linear, físico e empírico.

Retomando o trabalho de Spencer Tunick, o que o artista faz é um tipo de valoração do corpo nu, que, independente de sua cor, desenho, identidades de gênero, sexuais e outras, é tomado como dispositivo potencial de arte. Através da fotografia-artística, o público deixa de ser figurante para atuar como personagem central de um evento performático para espectadores curiosos. O acúmulo dos corpos compõe novos cenários e a nudez torna-se matéria-prima para um novo tipo de imagem.

A fotografia produz novas subjetividades, sintomas decorrentes da relação espectador-imagem, imagem-espectador. Que efeitos essas experimentações provocam? O trabalho de Tunick é um dispositivo oportuno e potente para discutir as relações entre Fotografia e Arte Contemporânea, especialmente em tempos de extremismos radicais e sociedades conservadoras.

As fotografias de Tunick, ao contrário de afirmações, são questionamentos. Lançam perguntas sobre nós mesmos. “É o segredo dos bons mestres: com suas perguntas, eles guiam discretamente a inteligência do aluno [eu acrescentaria, do espectador] – tão discretamente que a fazem trabalhar” (RANCIÈRE, 2013, p. 51). A Arte é política, é educativa e também subversiva, já que pode transformar sujeitos e culturas. Não se trata de representar determinado tema, mas de dar condições ao espectador de explorar de forma sensível a imagem.

REFERÊNCIAS

 

BARTHES, Roland. A Câmara Clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: Martins Fontes, 2012 e 2013.

O artigo completo está disponível em: www.amandaleite.com.br/publicacoes 

Pós-Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Fotografa e Professora na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Site: www.amandaleite.com.br ; Instagram: @amandampleite

 Fotógrafo estadunidentes. Conheça mais o seu trabalho em: http://www.spencerTunick.com