Fotojornalismo 2 anos atrás | Colaboradores

Um sonho distante, não impossível!

O fotógrafo Cezar Magalhães, do interior do Pará, relata o drama de uma mãe que trabalha em um lixão

por Revista FHOX

Com a crise que o País se encontra e a incerteza de um futuro melhor, mais e mais pessoas, procuram meios para se sustentar. Muitas, sem condições para ter um trabalho registrado ou que lhes renda o suficiente para alimentar suas famílias, procuram nos lixões das capitais e municípios do interior como solução para sua sobrevivência.

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Achar o que comer e o que pode ser reaproveitado para vender é a solução para estas famílias, em sua maioria, pobres e semianalfabetos, que veem nesta atividade, mesmo que degradante, a solução para manterem-se vivos. A história que vamos ver a seguir é apenas uma dos milhares espalhadas pelo País.

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“Meu sonho é conseguir uma casa para abrigar melhor meus filhos. Isso é o que eu mais quero na vida.” Assim começa a história de Silvane da Silva Araújo, que aos 37 anos, é mãe de nove filhos, três meninos e seis meninas, moradora de Tracuateua, nordeste do Pará, distante 215,1 km da capital, Belém.

Silvane Araújo, uma mulher negra, magra, maltratada e debilitada pelo tempo, não mede esforços e nem tem vergonha de catar lixo ou pedir ajuda aos outros para manter os filhos ao seu lado.

Como muitas, faz do sofrimento força para criar suas crianças. Logo cedo pela manhã, ela e dois dos noves filhos caminham cerca de três quilômetros até chegarem a uma área, no meio da mata, onde é despejado o lixo da cidade de Tracuateua, para catar algo que lhe sirva para vestir, calçar, e, às vezes, alimentar-se.

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Com uma varinha na mão, para espantar animais peçonhentos, como aranhas e cobras, pois, por ser o caminho no meio do mato, estão sujeitos a estas surpresas, ela enfrenta as dificuldades para chegar aonde ela chama de “lixeiro”, para reaproveitar o que é descartado pelos moradores do município e que, para ela, serve para arrumar sua vida.

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Silvane conta que sua vida como catadora de lixo começou ainda pequena, no município de Benevides, no lixão localizado no bairro das Flores, onde ajudava os pais a procurar o que pudesse ser reutilizado. E onde conheceu seu primeiro marido. Com o passar dos anos, foi tendo os filhos e as dificuldades aumentaram mais ainda. Nas idas e vindas da vida de catadora, ela fez muita besteira, e, sem ter vergonha, conta que era viciada em drogas (maconha), mas que, pelo pedido das filhas, o amor que tem por elas e o medo de ser abandonada por elas, conseguiu se livrar dessa doença que acomete e leva à morte muitos pais e mães de família.

“Eu não tenho vergonha de dizer, fumei maconha, era viciada, mas, graças às minhas filhas, que me pediram para parar, senão iam embora, consegui me livrar deste vício, hoje, graças a Deus e meus filhos, não fumo mais, o meu amor por eles é muito maior”, dizia com lágrimas nos olhos.

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Veio para Tracuateua há cerca de seis anos, para cuidar do pai, que ali morava. Quando ele morreu, devido a problemas de saúde, resolveu ficar com os filhos na cidade. Sua maior tristeza, diz ela, é não ter uma casa para abrigar melhor seus filhos, mas que continua esperançosa de que, antes de partir, conseguirá um teto melhor para abrigar suas crianças.

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O drama de Silvane na cidade de Tracuateua é muito grande, pois, de acordo com ela, funcionários do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) a proibiram de voltar com os filhos para catar material reciclável. Ela conta que morava na área do lixão, mas que as pessoas do órgão a proibiram de voltar ou entrar novamente nas dependências do lixão, mas que sem ter onde morar, pois ninguém do CRAS lhe deu um local mesmo provisório para morar, ela continuava lá.

Depois de ser muito pressionada, uma liderança de um terreno invadido nas proximidades da cidade procurou-a e resolveu ajudá-la, mesmo que provisoriamente (a ocupação não é definitiva), dando um pedaço de terreno, medindo aproximadamente 4 por 4 metros para morar com os filhos, enquanto não se resolve a vida dela.

Silvane conta ainda que já se inscreveu três vezes no programa “Minha Casa Minha Vida” e nunca teve a sorte de ser contemplada. Neste pequeno espaço, ela se amontoa com os filhos em um colchão velho e redes usadas. No almoço, presenciamos Silvane dividindo com os filhos uma lata de salsichas, um pirão de farinha e uma garrafa com água, doada por um vizinho.

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“Eu já me inscrevi três vezes nesse programa das casas, mais ainda não fui sorteada, mas o que me dói mais é saber que tem pessoas morando nessas casas, que têm casa na cidade e conseguiram ganhar e eu, que preciso, nunca ganhei, isso é que me deixa mais triste”. Novamente lágrimas.

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Mas o sofrimento dela vai muito além do sonho de ter uma casa própria. Ela também lamenta as pessoas falarem mal dela, discriminando-a por ser catadora de lixo. “Eu fico muito triste com algumas pessoas aqui, que falam mal de mim, dizendo que isso é vergonha, catar as coisas no lixeiro, e que quem come e trabalha no lixeiro é urubu. Eu fico muito triste por causa disso, às vezes só comemos uma vez no dia, se almoçar a gente não janta, se jantar, no outro dia não tem o que comer. Mas eu quero ser bem clara, se estou lá trabalhando, é porque eu preciso, se eu não precisasse, eu jamais iria trabalhar lá. O que eu quero dizer para vocês, meus amigos e minhas amigas, é que isso é serviço digno, e peço para vocês que pelo menos me ajudem a fechar minha casa. Mesmo do jeito que está, eu sou sempre assim, sorridente, feliz. Não sei o que é tristeza e, digo mais, eu creio que em nome de Jesus, eu vou conseguir dar um lugar melhor para os meus filhos”, finaliza ela, sorrindo.