Fotojornalismo 7 meses atrás | Jucelene Oliveira

Tragédia em Brumadinho é registrada em trabalho fotográfico de Darlan Helder

O resultado produzido pelo jornalista está muito longe de ser algo esquecível ou datado. Servirá para contar parte da história do Brasil.

por Revista FHOX

Texto e Entrevista: Jucelene Oliveira / Fotos: Darlan Helder

Há exatos dez meses os olhos dos brasileiros e também do mundo inteiro se voltaram, de maneira estarrecida, à tragédia da Vale, em Brumadinho (MG) – responsável por devastar as famílias de 270 vítimas que perderam a vida no rompimento da barragem B1.

Entre o dia 25 de janeiro (data da tragédia) e esta segunda-feira, 25/11, 256 pessoas foram localizadas pelo Corpo de Bombeiros e identificadas pela Polícia Civil. O último corpo encontrado até o momento, ocorrido na última sexta-feira, 22, é de Elis Marina Costa. A jovem era de Cachoeira do Campo, Distrito de Ouro Preto. O corpo foi localizado a cerca de 3 metros de profundidade, aproximadamente 2 km de distância da Barragem B1. Elis prestava serviços à Vale por uma empresa terceirizada.

Os dados atuais são: 256 vítimas foram encontradas; 14 pessoas ainda seguem desaparecidas.

Em razão dos dez meses da tragédia, Brumadinho recebeu diversas homenagens e o assunto, que nunca saiu de pauta, novamente ganhou destaque nos meios de comunicação. Além do fato de completar 10 meses, há também incertezas sobre o futuro dos pagamentos emergenciais mensais. O acordo que estabeleceu esses repasses só está garantindo até 25 de janeiro de 2020 (quando um ano da tragédia será completado).

Tragédia em Brumadinho
Histórias interrompidas pela joia brasileira

Darlan Helder
Trabalho de fotojornalismo produzido por Darlan Helder. Capa do livro.

É interessante pensar que da coragem, sensibilidade e ousadia de um jovem jornalista de 23 anos, natural de São Paulo, a tragédia de Brumadinho surgiu como inspiração para o tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). O resultado fotográfico registrado e as histórias que compõem o trabalho de Darlan Helder está muito longe de ser algo esquecível ou datado. Ele servirá para ajudar a contar parte da história do Brasil, de Minas Gerais, de famílias inteiras.

Durante oito meses o jornalista entrevistou, fotografou, conversou e ouviu pessoas que perderam familiares, casas, memórias, trabalho. Perderam suas histórias. Dessa apuração nasceu um registro de fotojornalismo chamado Tragédia em Brumadinho – Histórias interrompidas pela joia brasileira, o qual será lançado ainda em dezembro deste ano (data a ser confirmada). Suas fotos podem ser conferidas também em suas redes sociais: Instagram e Facebook.

Por meio de um responsável e atento trabalho de campo, Darlan Helder capturou, checou e vivenciou momentos e situações em Brumadinho. O livro de fotojornalismo revela, ainda, as condições da cidade nos dias atuais e os desafios encontrados pelos moradores. O jovem disse que teve acesso à mineradora para ver a barragem e que tudo isso foi registrado.

Darlan Helder.
Jornalista e fotógrafo Darlan Helder.

Darlan Helder conversou com Fhox e contou como foi realizar esse trabalho: os desafios, as motivações, o convívio próximo às famílias, as viagens, o sentimento das pessoas em relação à Vale e à tragédia. E a tudo que restou dela.

Confira no álbum abaixo algumas das imagens registradas no primeiro dia de visita do jornalista à cidade, em 15 de junho. Algumas delas irão compor o trabalho final no livro:

Acompanhe abaixo a entrevista que Fhox fez com Darlan Helder para conhecer seu trabalho e motivações.

Fhox: Como surgiu seu interesse por fotografar e/ou contar a história da tragédia em Brumadinho?

Darlan Helder: O interesse surgiu da necessidade de dar visibilidade ao acontecimento. Após o rompimento da Samarco em Mariana (MG), quem imaginava que isso pudesse ocorrer novamente? Percebi que havia muita coisa errada por trás desses rompimentos. Para o desenvolvimento do trabalho, resolvi unir duas paixões: o jornalismo e a fotografia.

Fhox: Você já conhecia a cidade ou a barragem?

Darlan Helder: Não. Eu não tinha nenhuma relação com Minas Gerais, tampouco com a mineração. Nunca tinha ido a Brumadinho, não conhecia ninguém na cidade, não tenho familiares em Minas e mal sabia como chegar lá (risos). Para ter uma ideia, eu nem sabia o que era uma barragem. Após Mariana (MG), fiquei mais curioso para saber do que se tratava.Tudo isso mudou depois que resolvi desenvolver o livro sobre Brumadinho.

Fhox: Como foi a organização e o preparo para a execução do trabalho?

Darlan Helder: Passei oito meses trabalhando intensamente. Estudando, lendo notícias, assistindo documentários, lendo pesquisas recentes, reportagens e tive acesso ao laudo que atestava problemas na barragem. Mas antes disso tudo, resolvi voltar no tempo. Comecei em fevereiro de 2019 a estudar a tragédia de Mariana. Fiz isso porque ambos os acontecimentos são muito semelhantes, além, é claro, de ser praticamente de responsabilidade da mesma empresa.

Passei a buscar inspirações também no fotojornalismo. Meu desafio era colocar a informação na imagem. Uma das minhas principais referências na fotografia foi o Lalo de Almeida, fotojornalista do jornal Folha de S.Paulo e o Araquém Alcântara, com a obra “Sertão Sem Fim”.

No mês de maio, comecei a buscar fontes em Brumadinho. Encontrei no Facebook a página “EU LUTO – Brumadinho Vive”. Apresentei meu projeto e eles pediram para eu procurar a psicóloga Cândida Vianna. Ela mora em Brumadinho, não foi afetada diretamente, mas estava ajudando os afetados desde as 19h do dia 25 de janeiro de 2019.

No dia 15 de junho, saí de São Paulo e fui para Brumadinho (sozinho e pela primeira vez). No mesmo dia entrevistei e fotografei a comunidade indígena Pataxó-hã-hã-hãe e o seu Hélio Murta (foto mais adiante), um dos moradores mais antigos de Alberto Flores, na zona rural de Brumadinho.

Depois, voltei a Brumadinho no dia 31 de agosto e no dia 12 de outubro para finalizar as fotos. Nessas ocasiões, tive o apoio da minha irmã na produção. Durante essas visitas, entrevistei mais duas pessoas e tive acesso à mineradora. Também conversei com muitas pessoas em “off”: comerciantes, taxistas, profissionais da Prefeitura, pessoas que atuam na limpeza da cidade e até a dona do hostel que fiquei hospedado. Consegui fazer muito contato e até amizades.

Fhox: Quantas fotos e histórias serão encontradas no livro? O que pretende conseguir com esse trabalho?

Darlan Helder: O livro tem 90 páginas, 73 imagens e é dividido em 5 capítulos. A obra começa com a minha experiência na cidade, as imagens vão revelando o clima do município, dentre outros detalhes. Em seguida, vem os capítulos com as histórias das vítimas que eu entrevistei.

Meu objetivo sempre foi e continuará sendo dar visibilidade ao ocorrido, por meio da fotografia e do jornalismo. O rompimento da barragem atingiu a cidade toda. Atingiu os 40 mil habitantes. É muito assustador.

Fhox: Quanto tempo demorou a realização do trabalho de pesquisa, produção das fotos, entrevista com pessoas e autoridades? 

Darlan Helder: No total, oito meses, considerando pesquisa, entrevistas/ensaios e três idas a Brumadinho. Durante esse tempo, minha cabeça só estava em Brumadinho. Eu estava trabalhando e fazendo freela, tudo ao mesmo tempo. Passei todos os fins de semana trabalhando no livro e madrugada também. Foi muito cansativo, mas no final valeu muito a pena. Eu tinha um objetivo e fiz de tudo para concluir.

Fhox: Como foi o diálogo com as pessoas vítimas da tragédia? Como elas encararam seu trabalho ali?

Darlan Helder: Por incrível que pareça, foi muito tranquilo. Brumadinho é uma cidade que depende muito da mineração e eles têm muito orgulho da Vale. É uma relação de amor. Sei que parece exagero falar assim, mas é a verdade. A empresa é importante para a cidade. Com o rompimento da barragem, eles ficaram muito machucados e se sentem traídos pela Vale. Após o acontecimento, eles querem falar, querem dizer tudo, dizer para o mundo o quanto isso afetou.

Eu entrevistei pessoas que conversaram com a Globo, Bandeirantes, The New York Times, The Guardian, dentre outros veículos nacionais e internacionais. Eles foram pacientes, entenderam que o trabalho era importante para mostrar ao mundo o que eles estão passando agora.

Eu também precisava criar uma conexão com os entrevistados, afinal, a câmera gera um certo “medo” nas pessoas. Por isso, conversei bastante com eles. É por isso que acabei até fazendo amizades.

Fhox: Emocionalmente falando, até porque ainda existem vítimas desaparecidas e o trabalho de resgate permanece, como foi para você lidar com o resultado da tragédia tão de perto?

Darlan Helder: É uma mistura de sentimentos. É algo muito forte e completamente fora da minha realidade. A emoção veio até mesmo quando li o laudo que atestava que a barragem estava segura. Fui pesquisar sobre o profissional que assinou esse documento e, de repente, descubro que ele também morreu na tragédia.

Entrevistei um funcionário da mineradora que trabalhava na frente da barragem e perdeu 37 amigos. Conversei com uma moça que perdeu o filho e a irmã; esse filho morreu no dia do aniversário (25 de janeiro). Acompanhei a história de outra mulher que perdeu três filhos: um foi assassinado, outro morreu de câncer e o terceiro morreu na lama da Vale. É surreal. Imagina como está a cabeça dela agora? É muito forte.

Já nas áreas afetadas é tudo muito impressionante. Você não consegue imaginar como havia casas, ruas e plantações ali. Agora é um silêncio diferente. Eu nem consigo explicar direito.

Fhox: Como foi tratar com as autoridades locais para conseguir acesso à mineradora e às barragens?

Darlan Helder: Passei dois meses negociando com a equipe da Defesa Civil para ter acesso às áreas afetadas. Não foi um processo fácil, porque a equipe é muito enxuta e eles tinham muito trabalho na época. Em Brumadinho, a área urbana não foi afetada pela lama, apenas a parte rural da cidade. O acesso às áreas atingidas só é possível de carro e eu estava sem veículo. Resolvi recorrer aos taxistas.

Ficamos cerca de 1h30 visitando às áreas e perto do horário de voltar para o centro, o rapaz que me acompanhou resolveu, de repente, entrar na mineradora. O mais engraçado é que ele não falou nada. Foi no susto mesmo. Fiquei cerca de 15 minutos fotografando a mineradora e a barragem rompida. Esse momento foi muito marcante. Praticamente nenhum veículo de comunicação teve acesso após o rompimento da barragem.

Fhox: Durante o tempo em que transitou por entre as famílias, comunidade, mídia, bombeiros e autoridades locais, observou situações que não apareceram nos veículos de imprensa? 

Darlan Helder: Muitas coisas não estão sendo divulgadas. Por exemplo, além da admiração e orgulho que as pessoas têm da Vale, o município depende muito da mineração. A economia gira, em primeiro lugar, através da Vale e depois da cultura. Isso significa que sem a mineração, Brumadinho pode entrar num caos em poucos meses. Quando eu descobri isso, fiquei impressionado, pois não há divulgação. O salário que a Vale paga para todos os moradores acaba agora no próximo mês (dezembro). E depois? O que vai acontecer com tanta gente sem emprego?

Fhox: Alguma história em especial te tocou?

Darlan Helder: É até difícil responder essa pergunta. Eu me emocionei em todas as entrevistas. Você começa a ver que sonhos foram interrompidos, vidas, amizades, lugares históricos. Por exemplo, em escolas, há salas de aulas com mais de 30 crianças órfãs. Isso mexeu muito comigo. É impressionante.

Fhox: Poderia compartilhar um pouco da história de algumas pessoas que fotografou?

Darlan Helder: Sim, claro.

brumadinhoHélio Murta é o morador mais antigo de Alberto Flores, no Parque da Cachoeira, na zona rural de Brumadinho. Foto: Darlan Helder.

Hélio Murta (foto acima): é o morador mais antigo de Alberto Flores, no Parque da Cachoeira, na zona rural de Brumadinho. Ele nasceu e cresceu em uma casa que foi da Estrada de Ferro Central do Brasil, de 1918. É uma casa centenária. Na residência histórica, ele morava e prepara o mel (ele é apicultor). A criação de abelhas não foi afetada porque ela fica em Sarzedo, município vizinho a Brumadinho. Mas com o rompimento, ele teve um prejuízo de R$ 50 mil, pois atingiu essa casa. Infelizmente, a Vale comprou a residência e toda a história foi encerrada ali. Essa foi a perda dele que eu apresentei no livro.

Brumadinho
Luiz Sávio trabalhava como armador na Mina Córrego do Feijão. Ele é um dos sobreviventes. Foto: Darlan Helder.

Luiz Sávio (imagem acima): ele trabalhava como armador na Mina Córrego do Feijão, por intermédio de uma empresa terceirizada. Luiz é um dos sobreviventes. Ele trabalhava em frente à barragem e escapou por pouco. Ainda assim, acabou se machucando bastante. Relembrar o acontecimento ainda é muito delicado, uma vez que acabou perdendo 37 amigos que trabalhavam na mesma empresa terceirizada. Essa foi a maior perda dele. Atualmente, está muito revoltado com a Vale. O armador perdeu a vontade de morar em Brumadinho, perdeu também a vontade de cuidar de sua horta (ele mora na zona rural).

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Cacique Arakuã Pataxó é um líder indígena da tribo Pataxó Hã-Hã-Hãe. Foto: Darlan Helder.

 

Cacique Arakuã Pataxó (foto acima): Arakuã é um líder indígena da tribo Pataxó Hã-Hã-Hãe. Faz dois anos que eles vivem na divisa de Brumadinho com São Joaquim de Bicas (MG). A comunidade indígena tem sofrido muito com a contaminação do Rio Paraopeba. Eles usavam o rio para pescar, tomar banho e até faziam ritual sagrado para agradecer o “Deus do rio”, que eles chamam de Txopai. Fiquei impressionado em ver como eles tratam a natureza. A árvore é sagrada, o rio, o solo e até o sol é um “Deus”. As crianças são ensinadas a cuidarem da natureza. É uma relação de amor e proteção. Com a morte do Paraopeba, os Pataxós estão tristes. Não conseguem pescar para comer e nem beber da água, que antes era limpa. No momento, eles recebem um auxílio financeiro, carne e água da Vale, mas a comunidade não quer isso. Para eles, o rio é bem mais importante do que dinheiro. Eles falam muito de amor. Amor entre as pessoas e a natureza.

Fhox: O que a comunidade local diz sobre a tragédia de Brumadinho?

Darlan Helder: Novamente eu entro na questão do “amor pela Vale”. As pessoas estão divididas. Muitos querem que ela continue lá, porque eles entendem a importância da mineração para o município, além de ser a maior empresa da região, gera empregos, os avós trabalharam lá, os jovens querem estar lá, etc.

O dinheiro que a Vale paga também gera uma certa euforia e isso alimenta o discurso de proteção, de “ela tem que continuar”. Mas uma parte perdeu a confiança na empresa. Hoje, estão revoltados. Eles dizem: “como pode uma empresa que exigia tanta segurança e falhar justamente nisso?”.

Confira mais fotos do morador Luiz Sávio produzidas por Darlan Helder:

Fhox: Eles têm recebido assistência da Vale?

Darlan Helder: A mineradora está fornecendo “salário” emergencial para todos os moradores de Brumadinho. Todos, sem exceção. De bebê a idosos, de afetados a não afetados. Todos recebem. Além desse dinheiro, ela está acertando algumas indenizações. A Vale divulgou alguns programas que tem realizado na cidade, como assistência psicológica, mas não cheguei a ver isso durante as minhas viagens.

Fhox: Existem outras forma de sustento na cidade para estas famílias?

Darlan Helder: Não existe. Quem está trabalhando, ok. Essa pessoa está empregada e recebe o seu salário. Quem perdeu tudo, apenas vive do salário da Vale. Ainda há casos de pessoas que pediram demissão, após a Vale anunciar o pagamento mensal para todos os moradores.

Fhox: O que as famílias que perderam seus familiares amados e também seu sustento contaram sobre a tragédia e a pós-tragédia? 

Darlan Helder: As pessoas com quem eu conversei estão vivendo um caos, assim como a cidade, mas disseram que a mineração precisa continuar para a cidade não parar. A maioria defende a volta dela. Atualmente, elas vivem do salário emergencial da Vale. Uma hora esse dinheiro vai acabar e essa é a preocupação de todos. Eu vejo que a cidade precisa de ajuda para lidar com toda essa situação. As pessoas precisam de assistência para lidar com esse dinheiro e recomeçar a vida.

Mais fotos do trabalho produzido que estarão no livro:

No programa “Conversa Franca com Júlia Epifânia” no Youtube uma entrevista também pode ser conferida com Darlan Helder sobre o trabalho realizado em Brumadinho. Confira abaixo: