Autoral 6 meses atrás | Colaboradores

Um mar de silêncios

A fotografia em comum passou a ser uma conexão forte que me uniu ao meu falecido e desconhecido avô Elias

por Revista FHOX

Colaboração de Valéria Mendonça (texto e fotos)

O escritor Milton Hatoum uma vez me disse que história de família é um baú sem fundo, não acaba, se não fosse assim, seria tedioso. Minha busca por essa história começou pelo meu percurso escolhido. Queria saber mais sobre minha mãe e sua cidade natal, sua infância e seu pai ausente.

Andei atrás dos rastros deixados por eles e acabei desvendando um passado desconhecido. Meu avô se chamava Elias, era libanês, migrou para o Brasil no início do século passado. Foi para o interior do Rio de Janeiro, onde minha mãe nasceu. Criada pelo padrasto, nunca deixou de lamentar, mesmo que em silêncio, a falta que o afeto do pai verdadeiro lhe fazia. E isso reverberou em mim.

mar de silêncios

Quando comecei a fazer esse trabalho, minha ideia era fotografar a casa da infância, a igreja, a escola, os jardins, onde minha mãe tinha vivido. Mas conversando com um senhor na praça principal da cidade, sobre seu Elias, ele me disse: ‘Seu Elias era fotógrafo!”.

Descobri que esse avô que até então eu pensava ser só um comerciante, era poeta e também fotógrafo, abriu seu estúdio dentro de sua venda em 1925. A fotografia em comum passou a ser uma conexão forte que me uniu ao meu falecido e desconhecido avô Elias.

mar de silêncios
Um avô imaginário que, mesmo sem ter contato algum, me influenciou. Comecei a pensar
que muitas das coincidências das nossas escolhas vão além das influências da convivência.

Achei na Casa de Cultura local vários negativos de vidro e um guardião que trabalhava
lá me passou muitas imagens digitalizadas. Achei um amontoado de imagens, um tesouro,
em um emaranhado de tempo, com imigrantes de muitos mundos, descendentes de escravos, mulheres, homens, crianças, casamentos, Carnaval.

Todos com seus olhares sérios feitos numa época em que ser fotografado era um ritual, quase uma cerimônia. Uma quantidade grande de libaneses foi para essa região serrana do Rio de Janeiro no começo do século passado. Um amigo de minha mãe, seu Geraldo, me disse, que nas tardes quentes de verão eles se reuniam do lado de fora das casas para conversar em árabe.

Se apropriavam desse novo mundo para se sentirem em casa. Fotos de fazendeiros ricos e suas esposas, comerciantes, descendentes de escravos, imigrantes italianos, portugueses, etc, fazem parte desse acervo que sobreviveu ao tempo. Todos foram fotografados por Elias em suas andanças pela cidade.

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Apesar de ter um estúdio, foram as praças e os quintais percorridos por ele que trouxe significados
às suas fotos. Descobrindo esse tesouro guardado, enxerguei o mundo que Elias viu e através de
suas fotos, tentei adentrar e seguir seus rastros.

Ver o que ele viu. Assim, numa fusão de olhares resolvi abraçá-lo. Nossos tempos estavam unidos agora. Comecei as fusões com minhas fotos coloridas e seus personagens preto e branco. Fiz muitos estudos de fusões, mas queria ir mais adiante, queria falar de abraços, mas também de abandono e de silêncios.

Participo dos grupos de estudos do Ateliê Fotô, em São Paulo, há alguns anos. As aulas de Fabiana Bruno e Eder Chiodetto e de todos que passam por lá me ajudam a trilhar e a dar significado a esse percurso. Ano passado, lá mesmo, a artista Pinky Wainer deu uma oficina chamada Estratégias para Machucar.

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A ideia era perder todo o pudor e o apego com as imagens. E aí comecei a cortar as fotos de Elias, a furar, bordar, a cobrir com papéis japoneses, tecidos africanos, etc. Achei mais um caminho de comunicação com Elias através das colagens, e sigo conversando com ele até que se esgote esse diálogo.

Como sabia que as fusões não eram o final da história, resolvi marcar essa primeira etapa colocando as imagens para passear. Fiz bolsas com as fusões impressas. Imprimi com algumas imagens e inventei uma galeria nômade. Vendi as bolsas e já vejo eu e seu Elias passeando por aí de vez em quando no ombro de alguém.

Agora, uma nova leva de bolsas vai sair. Serão as colagens? As fusões? Não sei ainda. Enquanto ainda tenho histórias para contar, de alguma maneira vou mostrando para o mundo essa conexão
de tempos.