Autoral 5 dias atrás | Jucelene Oliveira

Dani Sandrini conta sobre seu projeto fotográfico autoral com indígenas de São Paulo

Intitulado “terra terreno território”, o projeto utiliza duas técnicas fotográficas, a fitotipia e a antotipia, para discutir o que é ser indígena em São Paulo.

por Revista FHOX

Você já ouviu falar de fitotipia e antotipia na fotografia? E da fotógrafa Dani Sandini? Os leitores de Fhox sabem bem o quanto gostamos de contar histórias boas e inspiradoras. Não à toa, estamos sempre em busca de pautas que tragam conteúdos relevantes e/ou exclusivos.

Partindo dessa premissa realizamos uma entrevista presencial em vídeo (em breve disponível no FhoxPlay), com a fotógrafa, artista visual e educadora, Dani Sandrini. Ela recebeu a equipe da Fhox em sua casa/ateliê, no bairro da Saúde em São Paulo, para um bate-papo muito espontâneo e atual.

Formada em Comunicação (Radio e TV) pela Eca-USP, Dani Sandrini é uma daquelas fotógrafas de olhar raro e coração esperançoso. Ela contou ainda que fez muitas aulas na Usp nos cursos de cinema, artes cênicas e arquitetura, além de alguns outros na faculdade de Letras e Psicologia.

Dani Sandrini
Fotógrafa e educadora, Dani Sandrini. Foto: Joana Senger.

Responsável por projetos autorais sensíveis, seu mais recente trabalho é justamente sobre uma parte da sociedade que merece todo nosso respeito e gratidão: os indígenas (moradores das aldeias de Parelheiros e Jaraguá, bem como em contexto urbano em diversos outros bairros da cidade).

O projeto “terra terreno território” utiliza duas técnicas fotográficas do século XIX (fitotipia e da antotipia) para discutir de forma orgânica o que é ser indígena numa grande cidade como São Paulo. Acompanhe no Instagram: @dani.sandrini
@terraterrenoterritorio

Dani Sandrini
Projeto “terra terreno território – parte do projeto Darueira de Dani Sandrini.

Vamos à entrevista?

Fhox: Como foi sua trajetória como fotógrafa nestes mais de 20 anos de estrada?

Dani Sandrini: Eu agreguei à minha formação de Radio e TV diversas matérias do curso de cinema, artes cênicas e arquitetura. Assim que comecei a trabalhar com cinema – nas equipes de fotografia e arte, essa experiência me ajudou muito e tem reflexos na minha fotografia. Então, no final da década de 90 até o início dos anos 2000 eu trabalhava com cinema, e paralelamente fotografava espetáculos – teatro, dança, shows – o que nunca parei de fazer, e comecei a trabalhar também para algumas empresas na área de eventos.

Nos anos 2000 tive algumas fases. Fotografei casamentos por 7 ou 8 anos, trabalhei em revistas, fiz bastante estúdio (principalmente retratos), gastronomia, arquitetura e interiores e eventos particulares. Mas eu sempre atuei em duas ou três frentes ao mesmo tempo, porque eu achava que a luz que eu criava em estúdio me ajudava muito para eu pensar na luz na foto de casamento, por exemplo. Há fotógrafos que só fazem um tipo de fotografia. Eu sempre preferi complementar uma atuação com outra, acho que isso ampliava o meu repertório e as minhas ideias.

Também em 2000 comecei a dar cursos (tanto mais técnicos quanto de linguagem fotográfica) e a trabalhar em projetos sociais utilizando a fotografia como ferramenta de reflexão, atuação e comunicação. Na virada da década fui morar na Jordânia, onde trabalhei como fotógrafa para uma revista de arquitetura e decoração, além de fazer ensaios em estúdio e a ministrar aulas em escola e também particulares.

Quando retornei ao Brasil, comecei uma pesquisa sobre a passagem do tempo, a impermanência, a transformação, inclusive da memória. E isso me levou a mergulhar nos processos fotográficos artesanais e em suportes não convencionais para a imagem fotográfica.

Hoje eu me divido entre a continuidade das pesquisas, os cursos (tanto de fotografia artesanal, quanto documental, linguagem e as diversas ramificações) e a atuação mais comercial na área de palco, gastronomia e retratos.

Dani Sandrini
Foto pertencente a exposição NÓS, de Dani Sandrini.
Dani Sandrini
Foto pertencente a exposição NÓS, de Dani Sandrini.

Fhox: Como a fotografia, as artes visuais e a educação conversam na prática diária de seu trabalho?

Dani Sandrini: Olha, eu acho que elas estão muito interligadas, porque acredito que a fotografia é uma forma de ver e de se relacionar com o mundo. De dizer algo que é do campo do indizível… Nos projetos de educação, o que eu pretendo é que os participantes reflitam sobre como é que eles se expressam e querem expressar o que estão vendo. Como é que eles vão se relacionar com aquilo que estão fotografando. Em relação às artes visuais, acho que vou cada vez mais trabalhando com diversos sentidos para dar forma àquilo que quero dizer. Mas até agora, exceto por dois projetos, todos eles envolvem a fotografia de algum jeito.

Fhox: Como surgiu a ideia para seus projetos autorais? 

Dani Sandrini: Em algum momento senti a necessidade de que as imagens construíssem uma narrativa do que eu queria dizer. Minhas imagens autorais soltas contam uma história mais curta – as narrativas têm possibilidades ampliadas. O meu primeiro projeto autoral foi durante quase o ano todo de 1998 para o meu TCC. Se chama “Salve o divino”. É um projeto sobre festas tradicionais no Estado de São Paulo que tem fotografias, vídeo sem som, som sem imagem, quase como que explicitando os recortes que me chamavam a atenção. Foi muito importante ter feito esse trabalho – e ter orientação para isso, porque me abriu todo um universo que reverbera até hoje.

Fhox: Quais foram ou quais são os principais desafios encontrados pelo caminho?

Dani Sandrini: Acho que pra mim, sinceramente, o desafio maior é ter disponibilidade emocional para mergulhar num projeto autoral, sabendo das contas a pagar e que o autoral pode ou não ter um retorno financeiro – e que esse não é o foco principal – e esse retorno tem uma lógica e um tempo muito próprio para acontecer, se acontecer. É diferente de um trabalho comercial que você realiza e pouco tempo depois recebe por isso.

Isso faz com que seja necessário ter bastante disciplina e foco para dar conta dessa produção, mas também das demandas do dia-a-dia. O restante, para mim, é inerente ao trabalho. Não seria um desafio propriamente dito. O cuidado com as pessoas que eu me proponho a fotografar, o respeito ao tempo das relações e das coisas.

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Fhox: Como se deu se projeto/vivência na Jordânia?

Dani Sandrini: Eu frequentei o Oriente Médio por muitos anos, entre idas e vindas. Morei lá em duas ocasiões diferentes. No ano 2000, morei em Israel e Jordânia, e de 2010 a 2012 morei novamente na Jordânia. E nesse meio tempo fui para lá diversas vezes. Claro que sempre fotografei estando lá – e ainda tenho edições pendentes a fazer, não tenho quase nada editado de Israel, por exemplo.

Mas em 2014 ganhei um prêmio no Festival da imagem de Amã, que é um festival bem bacana. O projeto premiado é o “Two cities”, que foi uma reedição de um projeto feito anteriormente. Foi exposto durante o festival no mesmo ano, numa parede ao lado do trabalho do Koudelka (risos), que foi uma coincidência – ou não! – mas que é um dos fotógrafos que eu mais gosto na vida!

Como parte do prêmio, fui até lá novamente em 2015 e desenvolvi “Fragments of a return” que fala da passagem do tempo e da transformação da memória. Esse trabalho foi exposto no mesmo festival em 2015, e também em São Paulo na Paperboxlab Instituto e também em alguns festivais de fotografia no Brasil.

Dani Sandrini
Fragments of a return – Dani Sandrini.
Dani Sandrini
Fragments of a return – Dani Sandrini.

Nesta mesma ida, eu propus fazer um outro projeto, chamado “Souvenir poético”, no qual convidei algumas pessoas de meu convívio a me dizerem uma palavra ou frase sobre algo que gostariam de saber sobre a Jordânia. Eu devolveria em forma poética. Este trabalho demorou para ser editado pelas contingências da vida, mas estou trabalhando nessa edição no momento.

Fhox: E sobre seu projeto autoral com os indígenas de São Paulo, usando as técnicas da fitotipia e da antotipia?

Dani Sandrini: O projeto se chama “terra terreno território” e utiliza essas duas técnicas fotográficas do século XIX para discutir de forma orgânica o que é ser indígena numa grande cidade como São Paulo. A impressão é feita em papéis sensibilizados com o pigmento extraído do fruto jenipapo – o mesmo que muitos indígenas usam nas suas pinturas corporais – e diretamente em folhas de plantas. Ambos os processos se dão através da luz solar, num tempo que varia de 3 dias a 3 semanas de exposição.

A escolha dos pigmentos naturais – e de como a exposição foi pensada e montada – também tem ligação com a terra, a mata e o fazer natural. A maioria com quem conversei, mesmo vivendo de forma mais urbana, tem uma ligação muito forte com a natureza e o que se pode extrair dela, e também com os rituais, por isso o uso da planta como suporte nesse processo quase ritualístico.

Dani Sandrini
“terra terreno território – parte do projeto Darueira – Dani Sandrini

dani sandrini
“terra terreno território” – parte do projeto Darueira – Dani Sandrini

As imagens, gravadas instantaneamente no aparato fotográfico digital, mas impressas de forma lenta e artesanal, propõe um olhar mais desacelerado para a vida, para as pessoas e para o entorno. Assim como na natureza, esses processos produzem imagens impermanentes – que vão sofrendo interferências com a passagem do tempo e o recebimento de luz.

A proposta favorece a discussão acerca da fotografia e de seu caráter de memória e documento como algo imutável. Além disso, fala de forma bem orgânica sobre o apagamento que a cultura indígena sofre e sofreu, e da ideia que é uma cultura congelada no tempo. É preciso discutir que a cultura indígena, como qualquer outra, é viva e se transforma com o tempo – não está congelada no tempo de 500 anos atrás.

Dani Sandrini
Projeto Darueira – “terra, terreno território” – Foto Dani Sandrini.
Dani Sandrini
Projeto Darueira – “terra, terreno território” – Foto Dani Sandrini.
Dani Sandrini
Projeto Darueira – “terra, terreno território” – Foto Dani Sandrini.
Dani Sandrini
Projeto Darueira – “terra, terreno território” – Foto Dani Sandrini.

Fhox: Os projetos subsidiados por editais oferecem algum retorno financeiro, especificamente?

Dani Sandrini: Depende. Até hoje eu tive financiamento prévio somente de 3 projetos: “Glicério”, “Fragments of a return” e o “terra terreno território”. Os outros, eu vou fazendo porque me interessa, porque eu quero falar disso, quero levantar a discussão. Sem saber se vou efetivamente ter algum retorno financeiro.

A diferença óbvia é que com algum financiamento, esse é o trabalho oficial por um tempo. Eu consigo realmente me dedicar ao projeto pelo tempo dele, não tenho que fazer isso “nas horas vagas”. E aí, isso muda muito no quesito atenção, dedicação, desenvolvimento do projeto. E resultado, claro.

O projeto “terra terreno território”, por exemplo, foi selecionado num edital de apoio à exposição fotográfica da Secretaria de Cultura de São Paulo, em 2018 (o nome original era darueira), e assim eu uma tive uma verba para poder fazer o projeto durante 11 meses.

Mas se engana quem acha que as pessoas ganham dinheiro com isso. Eu tinha que continuar trabalhando nas aulas e projetos comerciais para conseguir fechar a conta do mês. Passei 4 meses inteiros quase sem ter um dia de folga.

Fhox: E como foi experiência vivida de perto com as comunidades indígenas em relação a costumes, pré-conceitos, cultura?

Dani Sandrini: Eu sempre tive uma ligação muito forte com a terra e com a natureza. E sempre me recusei a estar em lugares onde eu pudesse ser a “turista” vendo os indígenas. É outro tipo de relação que eu busco. E por isso, procurei muito chegar com bastante respeito e lidar com o tempo deles, o tempo necessário para que eles pudessem me conhecer também – é sempre uma via de mão dupla. Eu os vejo, eles me vêem, eu os conheço, eles me conhecem. Por isso, a chegada foi bem lenta, com muitos encontros onde a câmera nem saiu da bolsa. Muitos mesmo.

E o projeto fala de indígenas que vivem, trabalham ou circulam na cidade de São Paulo – e destes, uma parte está nas aldeias (a maioria deles guaranis), outra parte (oriunda de diversas regiões do Brasil e diversas etnias) está em contexto urbano. E isso é muito importante para o projeto, porque com certeza ao redor de qualquer pessoa em São Paulo, existem indígenas – eles estão nos trabalhos da padaria, da construção civil, nas universidades, e também sendo assistentes sociais, educadores, advogados, artistas.

A gente precisa desconstruir essa ideia equivocada de que o indígena está só na aldeia – porque essas pessoas saíram de suas aldeias por muitos motivos diferentes, mas inclusive por invasão de terras, por medo, por fome, por perderem a possibilidade de estarem lá. Mas ninguém deixa de ser indígena porque saiu de sua terra.

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Fhox: Em quais lugares seu projeto autoral “terra terreno território” foi exposto e quais são as próximas paradas?

Dani Sandrini: “terra terreno território” ficou em exposição de outubro a dezembro de 2019 na Biblioteca Mario de Andrade em São Paulo. Agora estou trabalhando para que a exposição circule, mas com pouco apoio à cultura atual, muitos lugares interessados em levar essa discussão para as suas cidades não têm nem verba para transportar as obras. Uma tristeza. Mas continuo trabalhando nisso. Por enquanto está acertado (ainda sem data) para ela ser exposta em Palmas e Chapecó.

Fhox: Como a comunidade indígena recebeu seu trabalho?

Dani Sandrini: O retorno que tive deles foi muito positivo; alguns verbalizaram que estamos juntos pela causa, e é o que eu quero mesmo, poder agregar nas pautas, na discussão e na luta pelos direitos dos indígenas. Se apenas um deles já achar que estou somando, sei que o trabalho valeu a pena. No dia da abertura da exposição alguns deles estiveram presentes e puderam falar um pouco sobre a experiência pelo lado deles. Foi emocionante.

Fhox: Quem são suas referências ou inspirações na fotografia, na arte, na vida?

Dani Sandrini: Conecto-me muito com a simplicidade profunda do Manoel de Barros, e com a profundeza (nem tão simples) do Rainer Maria Rilke. Sempre me faz pensar na existência – e transponho muito para o meu trabalho essas reflexões. Talvez seja clichê dizer isso, mas adoro Wim Wenders e Saramago. Na fotografia, eu gosto muito do Elliot Erwitt, Koudelka, do German Lorca e da controversa Sally Mann, assim como Lalla Essaydi, Claudia Andujar, Eustaquio Neves, Gal Oppido, Klaus Mitteldorf e do Pedro David.

Cursos e trabalhos

Dani Sandrini estava com um calendário bem cheio a partir de março, mas por hora tudo foi cancelado por conta da pandemia causava pelo Covid-19. Eram cursos de fotografia artesanal, fotografia e memória, fotografia documental. Em breve, tudo se normalizará. Enquanto isso, vamos aproveitar bem o que a internet tem a nos oferecer, como conhecer belos trabalhos autorais. Por que não?

Para saber mais sobre o trabalho da artista, acesse o site: www.danisandrini.com.br