Autoral 3 anos atrás | Redação

Banca de revista

A fotógrafa e professora Amanda Leite fala de uma incrível fotografia de Vivian Maier e de seu enigmático legado fotográfico

por Revista FHOX
March 1954. New York, NY
Foto de Vivian Maier. Março de 1954. New York, NY

De Amanda M. P. Leite*

Março, 1954, Nova York. Um senhor toma conta de uma banca de revista. Suspende-se o tempo. A banca apertada parece exalar o cheiro dos jornais empilhados, dos plásticos que embalam as revistas, da poeira que repousa sobre os velhos cartões-postais da cidade. Será que hoje aparecerá algum freguês? Alguém interessado em revistas de moda, histórias em quadrinho, jornais ou pôster de artista? Alguém que deseje saber sobre o horóscopo, o resumo da novela ou a meteorologia? Num quadrado 4×4 prendedores de madeira seguram as manchetes (sempre as mesmas): crise política, relações internacionais, economia, saúde, catástrofes… O assunto que parece ter mais saída ainda é o caderno de esportes. Pouco se vê (e lê) sobre educação, arte e cultura. Tédio (do vendedor e do freguês). O que teria atravessado o olhar de Vivian Maier? Um detalhe da banca? Alguma notícia específica? Aquele senhor? Embora a fotografia não venha acompanha por uma legenda, trata-se de uma banca de revista. Hoje ainda restam algumas espalhadas pelas cidades. Poucas, na verdade. É que com a atualização dos meios de comunicação, as revistarias se tornaram vintage. Como pode o antigo dizer do atual? As bancas já foram mais populares. A figura do vendedor parece uma metáfora para simbolizar o desinteresse pela leitura de material impresso, do tipo que mancha a ponta dos dedos, como a tinta de um jornal. Terno preto, gravata alinhada, chapéu, dão ao homem um ar elegante de sujeito moderno. Só por curiosidade, haveria nesta revistaria algum exemplar de boas notícias? Parece que estamos sonolentos diante dos acontecimentos da vida, assim como aquele senhor. Mas, não desanime! Há sempre alguém interessado em livros de receita, romances e filosofia. Cruzadinhas e almanaques também tem bastante saída para trabalhadores que usam o transporte público. Outra curiosidade: quem ainda compra saquinhos de figurinhas em 2017? A questão não é a imagem, mas o que ela provoca. A fotografia de Vivian Maier expõe o acaso, o percurso, a descoberta. Diante do clichê de uma banca de revista buscamos algo, experimentamos projeções, somos afetados pelo que vemos. Talvez o convite seja que o espectador se aventure por outras leituras e transforme o “faz de conta” fotográfico em outra coisa – pensamento, criação.

©Vivian Maier – March 1954. New York, NY (http://www.vivianmaier.com)

Vivian Maier, inspiração!

Descobri a obra de Vivian Maier há pouco tempo, foi um encontro desses que fisgam a gente, que atravessam, inquietam e fazem pensar. Desde então tenho vasculhado suas capturas na tentativa de deixar-me conduzir por elas. São fotografias peculiares, bem humoradas, enigmáticas, tão excêntricas como a própria personagem Vivian Maier.

Chamo de personagem por não conseguir dizer mais sobre quem foi a mulher Vivian Maier. Até onde sabemos a fotógrafa adotava muitos nomes, produzia diferentes narrativas sobre si e fazia com que essas criações se camuflassem nas funções que exercia como babá nas cidades onde morou. Embora fosse americana insistia em afirmar que sua origem era francesa.

Vivian Dorothea Maier capturou a vida nas ruas de Chicago, Los Angeles e Nova York. Um olhar singular para a cidade e seus habitantes. Crianças, adultos, idosos, pessoas em situações cotidianas, artistas, policiais, trabalhadores, vitrines, espelhos, linhas e sombras foram alguns dos temas capturados, na maioria das vezes em preto e branco, usando uma Rolleiflex. Ao que tudo indica Vivian era uma fotógrafa autodidata. Enquanto viveu seus registros nunca foram exibidos a ninguém, aliás, hoje conhecemos as suas fotografias pelo trabalho do historiador John Maloof que em 2007 adquiriu milhares de rolos de filmes em uma espécie de leilão e, desde então, tem se debruçado a pesquisar sobre quem foi Vivian Maier e revelar suas fotos em livros e filme².

Vivian era uma observadora da figura humana. Fotografava enquanto cuidava de crianças, duas funções que exigiam bastante atenção. Percorria trajetos cotidianos e conseguia ver neles algo diferente, especial, coisas que me fazem questionar sobre como percebemos os caminhos que cursamos habitualmente. O que eles nos pedem a ver? É possível (re)inventar o cotidiano e ficcionalizar a vida? Olhar o mesmo e fazê-lo vibrar diante dos olhos é um desafio que inquieta e que pode encontrar nas capturas de Vivian muita inspiração!

Não sei dizer ainda se o que torna a obra de Vivian interessante é a sua personalidade ou o jogo de cada imagem. Vivian fotografava para si mesma. Inventava um modo de existir com e pela fotografia. Sua personalidade timidamente aparecia nos autorretratos. Vivian não sorria, mantinha o rosto levemente torcido, o olhar profundo, as mãos firmes enquanto se duplicava entre vitrines e espelhos. Ao encarar a câmera acabava revelando-nos pedaços de si. Muito diferente da compulsão das selfies tão desgastadas nos dias atuais, os autorretratos de Vivian indagavam sobre a mulher atrás da câmera… O que o quebra-cabeça de si mostrava quando mirava o espelho?

De certa forma as fotografias de Vivian Maier me fazem lembrar as produções da norte-americana Diane Arbus. Ambas se concentraram na busca pelo humano, o grotesco, o altivo, o frágil, o protegido, o engraçado, o glorioso, o derrotado. Gente na rua, gente da rua, gestos cotidianos, pessoas (in)comuns. Vivian capturava a cidade e sua pulsão de vida num exercício espontâneo a la Cartier-Bresson ou Robert Doisneau, fotógrafos franceses que também fotografaram a rua. Não era um simples hobbie, a fotografia era a conexão diária com a própria humanidade. Vivian narrava à cidade e seus paradoxos. O jogo com espelhos pode até ter sido uma influência das fotografias do americano Duane Michels, quem saberia dizer? Tantos cruzamentos são possíveis…

Uma mulher tímida e corajosa, diferente dos padrões de feminilidade de seu tempo. Sustentava-se com o emprego de babá para poder estar nas ruas, com a câmera pendurada no peito, fotografando aquilo que capturasse o seu olhar. Vivian Maier faleceu em 2009, aos 83 anos e, embora sua obra tenha sido descoberta tardiamente, seguirá sendo inspiração para muitos fotógrafos de rua.

*Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do curso de Pedagogia na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

2. Veja o documentário: A fotografia oculta de Vivian Maier, direção de John Maloof e Charlie Siskel, 2014, também os livros: Vivian Maier uma fotógrafa de rua, Autentica Editora, 2015 e Vivian Maier: Self-Portraits, 2013, ambos editados por Jonh Maloof. Há ainda o livro intitulado Vivian Maier de autoria de Greenberg, Howard, Editora: Harper USA, 2014.