News 2 meses atrás | Redação

Sobre o isolamento

Diante de um inimigo invisível, o mundo se fechou. Ruas vazias, pessoas em casa. A edição de abril da revista Casa Vogue, revela o olhar e o pensamento de alguns dos principais fotógrafos de arquitetura do mundo

por Revista FHOX

Como vêem a quarentena os profissionais acostumados a registrar espaços normalmente tão cheios de vida?  Casa Vogue conversou com Giorgio Possenti (Milão, Itália), Montse Garriga (Centelles, Espanha), Beppe Brancato (Milão, Itália), Ricardo La Bougle (Punta del Este, Uruguai), Rui Teixeira (São Paulo, Brasil), Gaëlle Le Boulicaut e Jeremy Callaghan (Vannes, França), Fran Parente (Indaiatuba, Brasil), Filippo Bamberghi (Milão, Itália), Ilana Bessller (Ubatuba, Brasil), que documentaram seus respectivos confinamentos e compartilham as incertezas que os acompanham.

Giorgio Possenti (Milão, Itália)

O bairro onde o fotógrafo vive, Lambrate-Città Studi, é uma área cotidianamente cheia de vida, movimentada, rica de energia e repleta de jovens estudantes. Agora está tudo fechado, apagado, um deserto que faz pensar que não existe um futuro…  Mas sairemos dessa, e com uma ideia de futuro diferente.

 

Montse Garriga (Centelles, Espanha)

 Nossa principal arma contra a pandemia é a própria casa. Aqui, calma e confiança trazem uma resiliência sustentável. Todo ritual doméstico pode aplacar a ansiedade. Redescobri coisas que auxiliam a domar o medo. Enquanto meu marido trabalha em seu livro, eu reviso arquivos fotográficos e cuido do jardim. São dias silenciosos, com ruas desertas e pessoas solitárias passeando com seus cães por alguns minutos. Toda manhã, creio que voltaremos a viver como antes, talvez com um pouco mais de sabedoria e tolerância. Apesar da distância, encontramos meios de nos comunicar e estreitar os laços. Com as devidas precauções, fazemos trocas com os vizinhos: mantimentos, livros, CDs e DVDs, toda a ajuda possível. Compartilhar é uma maneira de resistir.

 

Beppe Brancato (Milão, Itália)

No silêncio da cidade tão imóvel, há uma única comunicação com o mundo externo, como uma mão que consegue alcançar o lado de fora. Esta mesma mão – que hoje é quase uma arma que contamina – não coloca o interfone no lugar: hoje o deixa assim, pendurado, pedindo para que leve os pensamentos para passear, na esperança de falar por acaso com um pedestre que passa na rua, ou somente escutar o som dos passos que ecoam. Ficar em casa e deixar entrar aquilo que está lá fora.

 

Ricardo La Bougle ( Punta del Este, Uruguai)

 Há um mês cheguei ao Uruguai vindo de Londres, onde moro no resto do ano. Quando saí da Europa, já se falava sobre a Covid-19, mas a epidemia ainda estava restrita a alguns países. Quando o avanço da doença ficou evidente, me pareceu melhor estar perto da família. Seguindo as recomendações, estamos em quarentena e só saímos de casa para o essencial, mantendo contato com familiares e amigos por todos os meios de comunicação que temos à mão. Continuo trabalhando na medida do possível. No momento, faço a edição final do meu último projeto, um livro sobre Buenos Aires. As espreguiçadeiras vazias, que convidam a meditar em meio à natureza, ficam de frente para minha casa. É um momento de reflexão e de perguntas. Quando tudo terminar, as coisas voltarão ao ritmo que estavam até então? Ou teremos aprendido uma nova maneira de desfrutar a vida?

 

 

Rui Teixeira, (São Paulo, Brasil)

 Estar confinado nos inspira a rever o nosso mundinho, abrir as gavetas e descobrir o que realmente importa. A casa se torna um barco no qual fazemos uma longa travessia. Só não sabemos onde termina. Tempestades e calmarias permearão a rota, e o ânimo da tripulação é tão importante quanto a integridade das velas. O temor de transpor águas desconhecidas vive lado a lado com o prazer de imaginar. No destino, o novo mundo. Sinto-me privilegiado que na tripulação esteja Eva, de 5 anos. Toda a disponibilidade de nós, pais e irmã, a deixa feliz e serena. Cada ação do dia – escovar os dentes, o preparo das refeições e a história antes de dormir – tem um novo sabor. Somos envolvidos na construção do seu constante e mutável mundo da imaginação. O confinamento tem de virar diversão. Bonecas, unicórnios, sofás, almofadas, guarda-chuvas, confetes e serpentinas são companhias durante o distanciamento social. Com este espírito, crio uma lista infindável de afazeres – o que me faz pensar que a quarentena não será suficiente para colocar tudo em dia. Assim, cada segundo assume vital importância. Arrumar, ler, recompor, criar, recriar, brincar, brincar, brincar e, principalmente cantar, porque quem canta seus males espanta.

 

 

Gaëlle Le Boulicaut e Jeremy Callaghan (Vannes, França)

 O foco deste confinamento, para nós, tem sido manter nossos filhos motivados. Um deles, que faz medicina e mora a duas horas daqui, voltou para casa. Ao final da quarentena, passará por um exame importante que aprova para o segundo ano do curso apenas 200 alunos, entre os 1,4 mil que prestarão o teste. Cedemos nosso escritório para que estude – e ele tem feito isso das 7h às 20h todos os dias. Para nossa filha, modificamos a configuração dos ambientes, de modo que ela tenha espaços diferentes para o estudo e o descanso. A escrivaninha foi deslocada do quarto dela para a sala de leitura. Atualmente, sua escola fica a apenas 10 m de distância do dormitório. Ela é uma paciente suspeita de ter Covid-19, então tem usado máscara em casa. Na atual situação, percebemos o privilégio de viver em uma sociedade onde há sistemas públicos de educação e saúde. Esta pode ser uma lição importante, um ensaio para o futuro. Também nos vem à mente que, profissionalmente, vivemos de contar histórias sobre uma das melhores expressões da vida – como as pessoas escolhem morar. Nosso trabalho é sobre casas, o lugar onde nos refugiamos e esquecemos do mundo.

Gaelle Le Boulicaut Photographer – LUTETIA 

Fran Parente (Indaiatuba, Brasil)

 Na incerteza dos dias que estavam por vir, com uma filha pequena sem aulas, clubes e parques fechados, resolvi, com minha mulher, passar uns dias em Indaiatuba, no interior de São Paulo, em um condomínio que sempre foi refúgio de férias. Árvores, muita grama, piso em bloquetes dos anos 70 e uma boa conexão de internet. Montei meu QG. Aqui estamos há uma semana. Dias calmos. Melhor oportunidade para romper os ligamentos do pé e precisar ficar imobilizado não poderia haver. Céu azul. Os pássaros parecem cantar mais alto. Apesar de passar boa parte do tempo em frente à tela do computador tratando fotos e colocando o trabalho em dia, têm sido dias de paz. A ansiedade que chega junto às tristes informações ao redor do mundo se dissipa quando eu me sento na rede e sinto a brisa que faz ecoar as folhagens e os pássaros. As horas estão passando diferente. A tela do meu celular quebrou. Minha filha está sendo criança à moda antiga. Um salve à tecnologia!

 

Filippo Bamberghi (Milão, Itália)

 “A natureza está cansada.” Com estas palavras, Oscar Niemeyer se despediu do nosso encontro, no verão de 2014. Naquele ano, visitei seu estúdio com Adriana Frattini [diretora de estilo da Casa Vogue] para fazer uma reportagem. Esta pandemia, que tem  origem na exploração dos recursos naturais da Terra e no comércio de animais silvestres, nos assusta, nos coloca em uma encruzilhada. Mas poderá, talvez, representar um momento crucial para mudanças na nossa relação com o planeta. Passo os dias fechado em casa, observando os objetos acumulados durante uma vida, que falam sobretudo das maravilhas do mundo externo. Uma vitrine com borboletas chinesas provenientes da coleção de um entomólogo ancião francês sintetiza tudo.

 

Ilana Bessler (Ubatuba, Brasil)

 Estou em uma quarentena privilegiada. Daqui, vejo o planeta se acalmando, as fábricas fechando, os carros parados, os aviões que já não passam. Vejo a Mata Atlântica se recuperando, o mar superlimpo. O planeta precisa voltar a respirar. Ele está, de certa forma, nos fazendo sentir sua dor, sua falta de ar. Um tempo de contemplação. De corpo quieto. De angústia. Tempo de se livrar do falso controle. De entender o coletivo. De fazer parte, pela primeira vez, de um mundo obrigatoriamente colaborativo. Mas ficar aqui, vendo tudo isso… ficar. E ficar. É tão difícil.

 

Sobre a Casa Vogue

Casa Vogue é a revista de maior prestígio do Brasil em decoração, design, arquitetura e lifestyle. Autoridade máxima em comportamento e tendências, todos os meses ela encanta e inspira os amantes do bom viver.