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Sergio Jorge: um mestre da Imagem e da generosidade

Lembro muito bem de em algum momento no meio dos anos 90, ligar para Sergio Jorge e pedir uma entrevista para uma série que estávamos produzido na FHOX sobre Grandes Mestres da fotografia brasileira. Não lembro todos os fotógrafos com que falei, mas German Lorca, Nair Benedito e Sergio Jorge sano lembranças quentes de encontros marcantes. Talvez guarde melhor memória dos três pelo simples fato de que foram muitos generosos comigo. Eu era um repórter autodidata, que havia abandonado a faculdade de administração em Curitiba e a capital paranaense para desbravar novas áreas na paulicéia. Estava deslumbrado com a efervescência de São Paulo e, profundamente encantado pelas oportunidades que o trabalho na FHOX me ofertava: conhecendo fotógrafos incríveis, empreendedores seriais, cidades e manifestantes culturais. Devo muito da minha formação a esse período. E estou lembrando dele hoje, por que acordei com a noticia de mais um perda chocante desse ano, a de Sergio Jorge. Nunca esquecerei com fui recebido por ele em seu estúdio na rua Afonso de Freitas (senão me engano) no bairro do Paraíso. Era um momento delicado na carreira dele, o digital vinha de forma avassaladora atropelando exatamente o perfil dele de fotógrafos mais experientes ainda analógicos. Mas Sergio não tinha o perfil de se lamentar, era um entusiasta da arte fotográfico, do fotojornalismo, do oficio publicitário e dos causos que uma vida dedicada a isso permitia contar para figuras mais jovens como eu. Me apaixonei pela figura dele logo de cara e quando me contou que subia a serra vindo do Santos, após retratar os gols de Pelé, revelando os filmes no carro, ele virou um super herói para mim. Ouvi atentamente inúmeras passagens dele com o Rei do Futebol e com a diversidade que suas lentes lamberam em 60 anos de carreira, fotografou do menino que quer salvar o cachorro da carrocinha (que lhe valeu um prêmio Esso em 1960)  até os movimentos dos donos do poder que comandavam sempre ditaram os destinos do país. Um gentleman, um doce de pessoa e um profissional impecável. Lembro de uma ultima ação que fizemos juntos em que ele lançou um livro numa Feira Fotografar, sem nenhum preconceito com o aspecto comercial de tudo aquilo que gira em torno de uma Feira, que costuma fazer muitos fotógrafos e curadores torcerem o nariz, ele se dispôs generosamente a falar das suas fotos e da sua trajetória para os mais jovens.  Ao final, assinou carinhosamente alguns livros e me puxou de lado para dizer que estava muito feliz e sempre disponível para ações como aquela. Uma pena não ter feito muitas outras. Espero que a fotografia brasileira cuide do seu acervo e produza exposições e livros a altura da sua grandeza. Descanse em paz Grande Mestre!

Sergio Jorge, ícone da fotografia brasileira, morre aos 83 anos, vítima de Covid-19 | Pop & Arte | G1 (globo.com)