News 1 mês atrás | Leo Saldanha

Sebastião Salgado: se não tomarmos cuidado, será um mundo em extinção

Fala do respeitado fotógrafo brasileiro foi dita na Feira do Livro de Frankfurt

por Revista FHOX
Sebastião Salgado (ao centro) recebe Prêmio da Paz do da Federação do Comércio Livreiro Alemão em Frankfurt KAI PFAFFENBACH / REUTERS

O fotógrafo brasileiro foi um dos destaques na Feira do Livro de Frankfurt que ocorreu na Alemanha no último fim de semana. Salgado recebeu o Prêmio da Paz no evento. Premiação que é considerada um dos mais importantes reconhecimentos culturais daquela país. O fotógrafo deu uma entrevista para a RFI e discorreu sobre vários assuntos. Abordando sobre natureza, fotografia e política. Destacamos alguns dos trechos da conversa:

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Sobre a premiação.

“Eu fiquei muito surpreso de receber esta recompensa por que eu sou o primeiro fotógrafo que recebê-la. Ela existe desde o final dos anos 40 e foi dada a políticos, cientistas, escritores. Estou muito honrado.”

Sobre fotografia.

“A fotografia é uma linguagem e uma linguagem muito poderosa. Das linguagens de comunicação, somente a fotografia e a música podem ser transmitidas sem tradução. O que você escreve em fotografia no Brasil, por um brasileiro, pode ser lido na China, no Japão, sem nenhuma tradução. A linguagem da imagem é uma linguagem direta e muito compreensível.  Eu acho que se você misturar minhas fotografias do início dos anos 70 e com as de agora, você não vê muita diferença. Cada fotógrafo trabalha com a sua herança global, que é a sua ideologia, sua história, de onde ele veio, sua família, sua comunidade de origem. Misturando tudo isso, você forma uma personalidade, uma maneira de ver e você fotografa assim a sua vida inteira.”

Sobre o impacto do homem no meio ambiente.

“Se a gente não tomar cuidado, será um mundo em extinção, mas se a gente tomar cuidado, se a comunidade internacional, todos os brasileiros juntos acordarem, a Amazônia pode ser protegida. Além dela ser importantíssima pela distribuição da umidade no mundo, ela contém um terço de todas as águas doces do planeta. Ela tem que ser preservada. Nós podemos ter outra opção econômica para a Amazônia do que a economia predatória que está sendo imposta à região. Nós podemos ter uma economia mil vezes mais inteligente, podemos criar o maior espaço turístico do planeta, podemos criar o maior provedor de alimentos biológicos, podemos prover a indústria farmacêutica do planeta inteiro, permitindo que as comunidades locais participem desse processo. A Amazônia tem a vantagem imensa de ter uma população de mais de 25 milhões de pessoas, que é quase a população do Canadá. A maioria dos habitantes é de ribeirinhos que falam bem a língua portuguesa e necessitam de uma melhor penetração econômica.

As fazendas de soja, de gado, não empregam ninguém. Elas só são predatórias. Elas não levam a nenhum futuro da Amazônia. Só a porção de floresta que estamos destruindo vale muito mais do que tudo que uma fazenda de soja ou de gado pode gerar em sua história. Nós podemos obter desse espaço amazônico um retorno econômico muitíssimas vezes maior do que nós estamos obtendo hoje destruindo a Amazônia.”

 

Sobre o reconhecimento do trabalho ser mais pela estética do que pela parte social.

“Sim. Pela estética porque a minha linguagem é profundamente estética por que eu trabalho com o quadro, eu escrevo com a luz. O engajamento social, eu acho que ele é importante e está tendo um certo reconhecimento.”

 

Sobre a postura do novo governo quanto essa parte do meio ambiente.

“Ê difícil por que a proposta básica com a qual foi eleito o presidente do Brasil é uma proposta puramente predatória. Mas as pessoas podem evoluir. O senhor Bolsonaro pode mudar de opinião. Ele pode se transformar em um aliado de proteção da Amazônia. Por que não? Ele é um homem que tem um poder imenso. Ele foi eleito democraticamente pela maioria dos brasileiros. Eu tenho uma grande esperança que ele se transforme numa pessoa que tenha uma preocupação com o futuro da humanidade, porque depredando, propondo uma economia de destruição, ele está contribuindo de uma maneira brutal para o aquecimento global, para a destruição de todas as concentrações de gelo do mundo. Isso vai elevar rapidamente o nível de água dos oceanos, o que vai levar a destruição de uma grande parte da costa brasileira.”