News 10 meses atrás | Leo Saldanha

Robert Capa e o Dia D

Há exatos 74 anos ocorreu um momento decisivo para o desfecho da Segunda Guerra Mundial. E o lendário fotógrafo Robert Capa estava lá para fotografar tudo

por Revista FHOX
US troops assault Omaha Beach during the D-Day landings. Normandy, France., 1944 Estate Stamped Silver Gelatin Print – Robert Capa

Em 6 de junho de 1944, os norte-americanos (e aliados) desembarcavam em Omaha, Praia francesa da Normandia. Os alemães dominavam toda a França e boa parte da Europa. A batalha foi feroz e sangrenta e muito bem retratada no filme O Resgate do Soldado Ryan. “Esse é um negócio muito sério” disse Capa sobre a invasão. A presença do fotojornalista naquele momento marcante não passou despercebida mesmo com os problemas que ele teve com os filmes fotografados no combate. Boa parte das imagens não foram reveladas depois por problemas no laboratório. Alguns cliques (bem poucos) acabaram saindo no papel e entraram para a história da fotografia de guerra. O mais curioso é que a foto do combatente debaixo d´água na beira da praia e toda desfocada talvez seja a melhor representação de um momento tão triste e violento da história. Importante destacar que Capa não estava sozinho no front. Outros três colegas somavam com ele na cobertura fotográfica da invasão. Aliás, o famosa escritor Ernest Hemingway também estava lá e definiu Capa como um doido varrido. Definição dada depois de ver como Capa se comportava no inferno que foi aquele dia. Ainda mais levando em conta a famosa frase: se a sua foto não está boa é porque você não chegou perto o bastante. Chegar perto demais em um cenário infernal de disparos e mortes é coisa difícil de imaginar.

US troops assault Omaha Beach during the D-Day landings. Normandy, France., 1944 Estate Stamped Silver Gelatin Print – Robert Capa

Em maio de 1994, Capa estava em Londres e a celebrada revista Life avisou: deixe seu equipamento pronto e não fique longe do apartamento mais do que uma hora. O motivo era claro: a qualquer momento ele teria que ir com as tropas para o embarque. Segundo uma matéria da Vanity Fair, Capa só teve tempo de correr até uma loja para comprar um casaco elegante para a ocasião. Segundo consta, queria ser o mais bem vestido entre todos os homens do Dia D. Com 30 anos de idade, ele já tinha feito a cobertura da Guerra Civil Espanhola e tinha alcançado uma reputação de grande fotojornalista. Capa deixou o apartamento no dia 29 de maio. Na mochila levava duas Contax, uma Rollei e uma Câmera Speed Graphic. Além de um lente. Em Weymouth na Inglaterra, ele ficou impressionado com a cena de preparação para a guerra. Imagine você, ter a sua frente uma imagem de uma frota de quase 7 mil embarcações. Operação Overlord foi a maior de todos os tempos tanto em planejamento quanto em logística e treinamento. Ao embarcar Capa recebeu um envelope com francos, um livro com frases em francês para conversação básica e camisinhas (os soldados usavam para colocar na ponta do rifle).

US troops assault Omaha Beach during the D-Day landings. Normandy, France., 1944 Estate Stamped Silver Gelatin Print – Robert Capa

De todos os cliques só 11 fotos foram reveladas. Capa estava com a divisão de anfíbios do primeiro regimento de infantaria. A maior invasão naval da história. Muitos disseram que o fotógrafo se tornou uma espécie de talismã da sorte para aquele grupo. As fotos não ocorreram só na batalha do Dia D, mas antes também na espera dentro das embarcações. Nos cliques de carteado entre soldados. Capa clicou oficiais, soldados rasos. Life esperava pelos filmes ansiosamente. O fotógrafo mudou de navio algumas vezes para cobrir a rotina em diferentes grupos. No dia da invasão, Capa fez questão de ir na primeira leva. Muitos diziam que ele nem precisava fazer isso. Foi chamado de insano. Enquanto isso, pela manhã do dia 6 o editor de imagens da Life ligou o rádio na BBC para acompanhar as notícias. Ansiedade obviamente. Para a Life o Dia D era o momento decisivo da Guerra. O fechamento da revista seria no sábado e ele só torcia para que desse tempo de receber as fotos de Capa. Life tinha 5 milhões de leitores. Era mais ou menos o que a internet é hoje para o mundo (junto com o rádio, claro). Capa trabalhava esporadicamente para a Life desde 1938. Ao contrário do que se imagina, as colaborações não garantiram um contrato fixo e ele sempre batalhou por isso. Talvez o Dia D resolvesse de uma vez por todas essa “injustiça”. O fato é que 160 mil soldados norte-americanos e aliados chegaram na praia da Normandia naquele dia às 6:30 da manhã de 6 de junho. Mais de 5 mil morreram.

Quando desceu junto com a primeira leva Capa enfrentou o mar revolto e condições de luz bem ruins. Tudo cinza, ele conseguiu se abrigar em tanque destruído. Capa sabia das condições mortais em que se encontrava. Tinha até uma carta pronta para a família caso morresse ali. Foram 90 minutos e ele clicou mais de 100 fotos. A famosa foto do soldando com água até o ombro foi identificada depois. Era do soldado Huston R.S. Riley. O rapaz usava um colete flutuante e conseguiu boiar até a beira da praia. Logo após o clique desfocado, Riley levou um tiro no ombro. O próprio Capa ajudou o soldado a encontrar abrigo. Anos depois, Riley falou sobre Capa dizendo que não podia acreditar que tinha um fotógrafo ali com eles. Minas explodindo, fumaça, mortos por toda a parte. Depois de um hora e meia, Capa viu um bote de resgate para os feridos e essa foi a deixa para ele sair de lá. O que se sabe é que ao invés de fotografar os feriados, ele preferiu ajudar os médicos dando suporte aos soldados feridos na rota para a Inglaterra. Capa entrou os 4 rolos de filme 35mm junto com outros 6 rolos de médio formato da Contax para o courier. Os rolos chegaram no escritório da Life no dia seguinte na parte da noite.

 

Capa voltou no dia seguinte para a Normândia para ver e retratar o “day after” da sangrenta batalha. Foi a pressa do editor de imagens da Life que fez o técnico responsável pela revelação. Esqueceu uma porta aberta, e a revelação foi totalmente prejudicada. Só 11 fotos se salvaram daquelas 106 imagens. As fotografias restantes foram parar na edição impressa da revista com destaque para o Dia D. O único registro de um dia importante que mudaria os rumos da Segunda Guerra Mundial. E mesmo com o terrível erro de revelação, levou Robert Capa ao reconhecimento que ele tanto buscava. O que chega a ser irônico. Pois aquele num dos pontos altos da carreira quase foi totalmente prejudicado pelo laboratório de fotografia Life (algo que deixou Capa furioso). Um fracasso analógico com gosto de vitória. Basta relembrar que Steven Spilberg disse na época do lançamento do Resgate do Soldado Ryan que procurou filmar aqueles quase 30 minutos iniciais do filme como se fosse o próprio Robert Capa acompanhando a batalha.

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