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Retrato de família: objeto de fascinação

“Como fotógrafos, nos preocupamos com a estética e a “alegria” do momento familiar que nossa direção vai imprimir naquela imagem, esquecendo que aquelas pessoas se relacionam umas com as outras”

por Revista FHOX

Por Nellie Solitrenick.

família nellie
Família Solitrenick, em Santos (SP), na década de 30

Sou fotógrafa há 43 anos e, por mais de 20, trabalhei na grande imprensa. Fui editora de fotografia das revistas Veja e Caras, e também do jornal O Globo. Nos últimos 18 anos, me dedico à fotografia de casamento. Nessa atividade, aprendi de verdade a prática dos retratos de família. A partir das fotos de casamento, entrei no universo das festas familiares, em que o retrato da família é sempre o ponto alto do evento. Momento feliz para alguns, um desconforto para outros.

O retrato de família se popularizou há muitos anos, quando surgiram profissionais da imagem. Apenas eles possuíam câmeras fotográficas. Posar para o fotógrafo era um ritual. A escolha da roupa, o cenário, a composição do grupo, o comprometimento e o respeito ao profissional. Podemos ver tudo isso em qualquer retrato familiar feito até os anos 1960!

Nos anos 70, muitas famílias já tinham suas próprias Olympus, Instamatics, Rio 400 (um primor!), ou até mesmo uma câmera reflex! A ida ao estúdio do fotógrafo diminuiu bastante.

Hoje, com a invenção do telefone que fotografa (ainda estou procurando na minha Canon Mark IV a função telefonar, mas não encontrei!!!), há um processo de desuso na contratação de profissionais retratistas.

O retrato intergeracional – vovó, netinhos, adolescentes, bisa, titios – se tornou uma tarefa hercúlea para o fotógrafo experiente. É necessário que a “missão” seja executada o mais rápido possível, como se todos, naquele momento, tivessem que ir a uma reunião urgente para discutir os problemas da humanidade. Só que não. Eles todos estão ansiosos por saborear mais um canapé ou uma empadinha!

“Olha o passarinho” – Tem sempre uma tia chata (no caso da minha família, sou eu) que quer coordenar tudo, ignorando a experiência do fotógrafo, saindo em todas as fotos falando e olhando para o lado, tem também o adolescente impaciente, que quer ir embora o mais rápido possível. Não podemos esquecer o agregado ofendido que foi chamado para ficar na ponta, pois em caso de separação pode ser facilmente cortado do grupo. Aliás, hoje a ponta é uma enorme questão, ninguém quer ficar, pois já sabe que o ângulo não é favorável! Mas não sabe que o bom profissional vai usar a lente e o recuo adequados. Ah! E as crianças que hoje estão absolutamente estressadas com paradas obrigatórias para posar para os celulares. Muitas vezes me sinto a enfermeira que vai aplicar vacina naquela criança, ela me olha e diz: “Nãooo, foto nãoooo, por favor!!!”.

E o local da foto? Todos querem opinar e a maioria pergunta: “Sentado???!!!” Por que, não? Um grupo grande fica muito mais organizado visualmente se for distribuído em várias alturas. Preciso explicar?

Como fotógrafos, nos preocupamos com a estética e a “alegria” do momento familiar que nossa direção vai imprimir naquela imagem, esquecendo que aquelas pessoas se relacionam umas com as outras. A posição que cada uma ocupa naquele clã vai determinar e preservar a memória familiar, reforçando a integração do grupo e mantendo a apropriação do tempo.

Quem são? Qual a ligação entre eles? Quais os vínculos afetivos? Como afirma Susan Sontag, “ver algo sob a forma de fotografia é deparar com um potencial objeto de fascinação”. E cabe a nós, profissionais, manter o encanto desse registro.

Foto: Jorge Solitrenick Kremer
Foto: Jorge Solitrenick Kremer

Nellie Solitrenick é fotógrafa em São Paulo

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