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A relevância da memória

Denis Vysormiskis é filmmaker e responsável pela 4GP Wedding Cinema

por Revista FHOX
Denis por Rafael Karelisky

Recentemente uma cliente me procurou pedindo algo corriqueiro, gravar um depoimento com os pais dela. Perguntei se ia mostrar em um aniversário ou algo parecido, mas o que me surpreendeu foi o motivo da solicitação. Ela queria que os pais contassem toda a história de vida deles porque julga que hoje os seus filhos não têm paciência para ouvir, mas considera fundamental que eles tenham contato com suas raízes mesmo se só estiverem prontos para ouvir apenas após a morte dos avós.

Tenho em minha história algo que exemplifica o nosso descaso com nossa própria biografia. Meu avô faleceu quando eu tinha 13 anos e nunca soube muito sobre sua vida, a não ser que ele veio para o Brasil logo após a Segunda Guerra. Sempre que me perguntavam de onde vinha o meu complicado sobrenome, falava que era da Polônia. Três anos atrás, fui pesquisar alguma informação sobre a chegada do meu avô no Brasil e achei um documento que mostrava que ele não era polonês e, sim, da Lituânia.

Isso é apenas uma amostra de que o descuido com nossos registros, com nossa memória, pode causar distorções em nossa realidade. E quase sempre o micro acaba sendo a reprodução do macro.

Muitos questionam se o nosso trabalho de registrar famílias, de ser coautores de memórias alheias, seria arte. Ainda não quero entrar no mérito da questão, mas não tenho dúvida de que é extremamente relevante para, além de construir pontes afetivas entre as gerações que talvez não tenham a oportunidade de interagir fisicamente, poder ajudar a explicar o comportamento de uma sociedade e entender uma geração, como nos mostra o documentarista João Moreira Salles.

Em seu último filme, “No intenso agora”, em que com algumas imagens de arquivo e principalmente imagens amadoras e caseiras feitas desde um casamento no Leste Europeu, um caminhar cambaleante de uma criança registrado no seio de uma família brasileira qualquer, até a viagem que sua mãe fez para China são mecanismos para gerar reflexões políticas e existenciais, tendo como cerne o ano de 1968 e dois de seus acontecimentos mais marcantes, a tentativa de revolução estudantil na França e a invasão russa na então Tchecoslováquia.

O interessante é como é esmiuçada a natureza de cada registro. Notamos a diferença de um amador filmando uma revolta estudantil no meio do conflito sob um regime democrático e outro em um regime totalitário se esgueirando pela janela para registrar tanques entrando na cidade. Percebemos a relação de classe em uma cena banal do cotidiano, em que a empregada nota que está sendo filmada e se afasta da criança que provavelmente ela ajuda a criar e acaba entrando em um segundo plano da imagem se confundindo com os demais passantes.

Respondendo à questão acima, se o registro familiar e cotidiano tem relevância artística além de histórica, esse filme demonstra que, nas mãos certas, tem sim. O registro não é apenas um adereço nostálgico para aplacar a saudade, é também essencial para entendermos o todo. É evidente que negligenciamos a memória, muito por estarmos entregues ao presente, ao intenso agora e com isso perdermos a oportunidade de termos os subsídios para formarmos a nossa identidade de forma mais robusta e completa.

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