News 6 dias atrás | Flávio A. Priori

A polêmica do 1º Prêmio MTD de Fotografia

Um dos trabalhos classificados para a final do concurso foi acusado de plágio

por Revista FHOX

O Movimento Territórios Diversos (MTD) é uma associação cultural sem fins lucrativos, fundada informalmente em 2013. Entre o final de janeiro e começo de fevereiro organizou 1º Prêmio MTD de Fotografia. Infelizmente o evento ficou marcado por uma discussão sobre a autoria de uma das fotos classificadas como finalistas do prêmio.

O objeto de discussão foi uma imagem enviada pelo fotógrafo Leonardo Cossatis. Assim que a foto foi publicada nas redes sociais pela organização, a também fotógrafa Maria Di Andrea Hagge acusou Cossatis de plágio. De acordo com Hagge, a foto foi tirada de um trabalho seu, feito em 2013.

O MTD após uma suspensão inicial da foto para investigação, inicialmente julgou que não haveria problemas com a inscrição. Isso se deu em nota publicada no dia 19 de fevereiro. Contudo, na última quinta-feira, dia 21, a organização soltou novo comunicado, na qual reviu sua posição e desclassificou a participação de Cossatis do prêmio.

Para entender o que aconteceu, conversamos com ambos os envolvidos e fomos atrás da história por trás dessa foto. E voltamos até o dia no qual a foto foi tirada.

Projeto Lambe-Lambe

Maria di Andrea possui um projeto que mistura fotografia com teatro, o “Lambe-Lambe – Sonhos Ambulantes”. Sua ideia é trazer de volta o papel os antigos fotógrafos lambe-lambe, que trabalhavam com aquelas máquinas gigantes e impressões instantâneas.

Ao final de cada espetáculo do teatro fotográfico, uma exposição varal é realizada e todos os retratos-sonhos são expostos para que o respeitável público possa aproveitar mais um instante mágico dessa performance. E só aí cada freguês leva para sua casa numa linda moldura seu retrato-sonho como lembrança de um dia inesquecível do teatro perambulante Lambe-Lambe- sonhos ambulantes.”

Em julho de 2013 Hagge foi convidada para levar seu projeto para Sepetiba, zona oeste do Rio de Janeiro. “Levando em consideração o legado deixado pelos reais fotógrafos lambe-lambes, onde a função social da fotografia é muito importante, eu topei o convite sem hesitação.

PrêmioAndrea Di Maria Haggi

 

Foram as duas produtoras locais [Ailime Cortat e Michele Bileu] do meu projeto em Sepetiba que convidaram o fotógrafo e amigo delas de bairro pra fotografar o backstage da minha performance. Ele aceitou o convite. Toda a realização dessa intervenção para a comunidade de Sepetiba foi voluntária.”

“Ver a fotografia do casamento de Sepetiba, o retrato-sonho que eu arrumei junto com a figurinista, os personagens pra essa fotografia. Dirigi toda a cena, cada detalhezinho dessa foto eu pensei antes do instante decisivo. [Quando] vi a foto finalista em um concurso de fotografia, eu literalmente pirei”.

Assim Maria acionou a organização do Prêmio para que a classificação da foto fosse revista. Outros profissionais também se engajaram ao lado da fotógrafa, exigindo que o MTD revisse esse caso classificado como plágio — algo muito sério em qualquer tipo de concurso.

Inscrição e polêmica

Leonardo Cossatis foi de fato chamado para cobrir o evento. Ele confirmou que estava no local para registrar toda a ação da Maria di Andrea a convite das organizadoras. “Nesse dia também fui fotografado pela fotógrafa do projeto e fotografei ela também”.

Conheci Maria naquele dia, assim como o projeto dela. Eu acompanhei toda a montagem, fotografei até as pessoas escolhendo as roupas”. Cossatis ressalta que, no dia que a foto foi selecionada pela MTD, a descrição da imagem mencionava todas as pessoas envolvidas.

Perguntamos então para Leonardo o porquê da escolha específica da foto e sua reação após a acusação. “Sobre a imagem escolhida há um ponto que precisa ser esclarecido: essa foto fazia parte de um conjunto de nove fotografias selecionadas. Algumas de momentos pessoais de família. Algumas feitas em saídas fotográficas e algumas feitas durante trabalhos. Eu não sabia qual delas seria selecionada.

Eu fotografei o dia inteiro ao lado dela [Maria], me movimentei por toda a cena. Trabalhei por mais de 10 anos cobrindo feiras e grandes eventos ao lado de outros profissionais e nunca havia passado por algo assim.” Cossatis afirmou que quando a foto foi selecionada como finalista, os créditos foram dados a todos os envolvidos.

“Quando acordei havia muitas mensagens. A fotógrafa me marcou em publicações me ofendendo. Não havia como conversar. A produtora Ailime também mandou uma mensagem pedindo para entrar em contato com ela. Liguei para produtora e falei sobre a forma que a fotógrafa falava nas mensagens, pedi para ela conversar com a Maria. Falei também que achava que poderiam comparecer ao prêmio. A produtora ficou de me ligar no mesmo dia à noite mas não ligou.

Prêmio
Foto finalista do Prêmio MTD

Idas e vindas até o desfecho

Nesse meio tempo a organização do concurso sofreu com uma indefinição para resolver se a inscrição da foto era válida ou não. Após decisões iniciais favoráveis a Cossatis — que inclusive o mantiveram até a entrega do prêmio, no dia 16 — no último dia 21 de fevereiro a posição foi revista mais uma vez. Através de fotos e vídeos que comprovaram a originalidade do trabalho de Maria, Leonardo foi desclassificado. Em trecho do comunicado o MTD afirma:

A Comissão Técnica de Julgamento do 1º Prêmio MTD de Fotografia: Walter Firmo, tendo tomado conhecimento do não atendimento por um dos classificados do critério de seleção contido no item 8.1, que trata sobre a originalidade da obra, resolve desclassificar a obra intitulada Amor Verdadeiro, do fotógrafo Leonardo Cossatis, classificado em segundo lugar na categoria Profissional Tal configuração de não originalidade se deu por imputação formulada por Andrea Di Maria Hagge que encaminhou idêntica fotografia, com o mesmo cenário e pessoas envolvidas, em data anterior a do inscrito no prêmio com ampla divulgação na internet (…) ”.

Considerações finais

Uma vez fechada a decisão, os profissionais parecem ter dado a questão como encerrada. Maria deu a seguinte declaração:

“Eu ganhei essa batalha, aliás, nós ganhamos. Unimos pensamentos, fomos imbatíveis nos argumentos e, como se a fotografia fosse uma oração, nos religamos, os trabalhadores da imagem se multiplicaram.

“Eu sou uma fotógrafa-retratista e foi através desse projeto itinerante que existe há 10 anos, que me reconheci artista de rua. Em algumas performances da fotografia-brincante proponho ao respeitável público uma reflexão sobre importância da arte pública, não como entretenimento mas como inclusão das classes mais modestas da nossa sociedade. As que vivem excluídas de quase todas as necessidades básicas e vitais da vida e impossibilitados de acessar a arte.”

“Por fim, o desfecho dessa história eu compartilho através das palavras do coletivo das Mulheres da Imagem YVY:”

“‘O reconhecimento do direito autoral da fotógrafa era mais que esperado, embora só tenha acontecido depois da pressão da sociedade fotográfica. Maria di Andréa Hagge poderia ter sido poupada de palavras indelicadas agressivas e das idas e vindas das decisões por parte da organização do concurso. Acreditamos que as palavras agressivas direcionadas à fotógrafa nas redes sociais foram escolhidos por ela ser uma mulher.Todos os clichês usados para agredir mulheres, estavam escritos nos posts. Precisamos falar mais sobre ética, autoria, direito autoral, respeito e diálogo’.”

Prêmio

Leonardo também acredita que o final foi o correto. Ele atribui a confusão toda à forma como o MTD atuou na seleção das fotos indicadas. “Acredito no que é certo, acredito no direito e sempre reconheci o trabalho da Maria. Então se o concurso tomou essa decisão era porque também concordou que a foto não era merecedora do prêmio porquê era uma produção de outro.”

“Acho que a forma que as fotos foram selecionadas foi errada. Usaram um critério cego no qual os jurados não sabiam quem eram os realizadores das imagens. Desde o momento em que se julga os aspectos estéticos e técnicos de uma fotografia sem levar em conta a história da foto. Foi pra mim um recurso pobre que deixou o júri com um olhar muito restrito. Um exemplo foram as imagens que concorriam ao tema “mais amor por favor”. É difícil julgar sem saber quem e porque aquela pessoa está sendo homenageada, sem saber quem está na foto e como ela foi feita.”

“Queria pela primeira vez dizer que em todo este processo sempre colaborei com o crescimento da fotografia. Repúdio a forma grosseira com que a fotógrafa tratou o caso. Antes de tudo, somos seres humanos, a fotógrafa fez várias ofensas em minhas redes assim como seus simpatizantes. Acho que o caso poderia ter sido outro se tivesse existido algum respeito pela fotografia. Também penso que esse episódio traz uma oportunidade de repensar algumas ideias.”