News 2 anos atrás | Leo Saldanha

Uma garota americana na Itália

A icônica fotografia de uma jovem "gringa" nas ruas da Itália ilustra de forma precisa que a força de uma imagem muitas vezes supera a realidade

por Revista FHOX

Algumas fotos são inesquecíveis. Parecem trazer no mesmo lance uma série de mistérios e atiçam nossa imaginação. Veja o exemplo da foto acima. O clique icônico é da lendária fotógrafa norte-americana Ruth Orkin (1921 – 1985).  Uma jovem norte-americana caminhando pelas ruas de Florença em 1951. O nome da moça é Ninalee Craig, naquele momento com 23 anos. A garota chega perto de um bar de esquina e ouve os mais variados gracejos (talvez mais do que isso. Nunca saberemos de fato). Só homens ao redor. Basta olhar para a imagem que os pensamentos se agitam. Seja pela expressão dela ou na aparente atitude dos rapazes. Aqui, como sempre c ocorre, cada um fará sua própria leitura.

American Girl in Italy é uma daquelas fotos clássicas que entrou para a história e volte e meia reaparece na mídia. Duas matérias em especial, merecem ser revisitadas. Uma delas é um artigo da CNN de 2017. A CNN encontrou a retratada para esclarecer alguns pontos. Ninalee hoje com 90 anos disse que a foto não foi montada como muitos costumam questionar. Dizem que é perfeita demais. Enfim, a moça garantiu para a CNN que não ouve encenação nenhuma. Estamos falando de uma cena que ocorre no começo da década de 1950 em uma Europa pós-guerra. A esperança aflorando e a energia dos jovens seguindo pela mesma trilha. Outra pergunta recorrente que ela ouvi é se ela estava com medo na imagem. Ninalee disse tanto para a CNN quanto para o jornal The Guardian que não, que na verdade tinha ficado é emocionada. E que depois notou que um dos moços se tocava de forma estranha e suspeita. Mas que isso é algo cultural e que ela entendia aquilo como natural. “Uma mulher como eu, alta e diferente das italianas chamava muita atenção. Aquele era o melhor momento da vida”.

Curioso é que a famosa foto virou um símbolo contra assédio e feminismo. A filha de Ninalee disse que a foto representa a liberdade, independência e autodeterminação. Naquele momento, uma jovem estudante de arte explorando vários países europeus. Retratada e fotógrafa se conheceram durante essa jornada em 1951. Uma época em que não era tão fácil encontrar norte-americanos por lá, ainda mais mulheres. Ninalee saiu de NY e passou pela Espanha, França e Inglaterra. Depois foi parar em Florença para fazer um curso de arte. O encontro da fotógrafa e de Ninalee ocorreu na agência dos correios da cidade. As duas acabaram virando amigas e se divertindo juntas por lá.  Não demorou para Ruth sugerir um ensaio. A fotógrafa clicou a nova amiga e a rotina delas na cidade italiana. A celebrada foto “do assédio” foi uma das primeiras da manhã. Na sequência Ruth clicou as obras de arte a céu aberto, as lindas ruas de Florença, uma verdadeira viagem no tempo para quem caminha naquelas ruas. Ninalee serviu como a modelo perfeita naquele passeio. Foram duas horas de caminhada e retrato. Depois cada uma foi para um lado. Se encontraram de novo em Veneza e Paris. E novos retratos foram feitos. Resultado: As imagens foram parar na revista Cosmopolitan de 1952 com direito a um ensaio completo para a matéria “quando você viaja sozinha”. Com dicas sobre uma como viajar sem ninguém, de como gastar menos e se divertir com segurança. Trazia até estratégias para lidar com os homens e suas gracinhas. Nesse ponto, imagino que a foto de Ninalee cercada por aqueles homens caiu muito bem para o editorial. “Os galanteios públicos não devem te abalar. Gracejos para mulheres nas ruas são um passatempo popular, inofensivo e lisonjeiro. Algo que você vai encontrar em muitos países estrangeiros. Os homens europeus são mais altos e atenciosas do que os pares norte-americanos. Mas isso não significa nenhum risco” era um trecho da matéria acompanhado das fotos de Ruth.

No fim, saber dessas histórias dos bastidores de duas mulheres estrangeiras na Itália me pareceu muito apropriada para um dia como hoje. Sem julgamentos e sem falsas homenagens. A vida das mulheres no mundo continua difícil.

“Eu olho para mim naquela foto e volto no tempo. Foi maravilho, eu era uma estudante de arte de 23 anos despreocupada, um vislumbre raro de duas mulheres. uma mulher que viajava sozinha e outra atrás das câmeras. As duas desafiado papéis e amando cada minuto”. Ninalee Craig.

Ninalee Craig na exposição com a foto comemorando 60 anos do retrato. Foto: Keith Beaty- Toronto Star/Canadá

A curiosidade é que o nome verdadeiro de Ninalee ficou oculto por muitos e muitos anos. Ela acabou conhecida por uma codinome (Jinx Allen). Foi só quando a foto ressurgiu nos anos 1980 na revista Life que seu nome verdadeiro foi revelado. Ninalee diz que viveu uma vida dupla na Itália, casou com um italiano e virou condessa. Depois separou e casou de novo com um canadense. Foi morar em Toronto e até reencontrou a famosa fotógrafa. Ficaram amigas. Ruth Orkin se tornou uma fotógrafa e cineasta renomada. Clicou grandes celebridades como Doris Day, Lauren Bacall e Marlon Brando e seu estilo foi reconhecido e serve de referência até hoje. Ela trabalhou como fojornalista para a revista Life e o The New York Times.  Ela morreu em 1985 e a filha dela segue cuidando da obra e do legado da mãe com exposições, publicações e afins. Saiba mais aqui: http://www.orkinphoto.com/photographs/american-girl/

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