News 4 meses atrás | Redação

Entrevista com Fernanda Fernandes

“A fotografia registra o que eu posso deixar de legado para as próximas gerações”

por Revista FHOX
Pista do Aeroporto de Guarulhos: foto feita durante sobrevoo de helicóptero. Fotos: Fernanda Fernandes

Fernanda Fernandes deixou uma carreira de sucesso no mercado financeiro para se dedicar à fotografia. Entre os trabalhos que marcam sua trajetória nessa área estão ensaios voltados à natureza, às causas indígena e racial, ao cotidiano das pessoas, às sensações humanas, além de um projeto que reúne imagens captadas durante um sobrevoo de helicóptero pela cidade de São Paulo. Para ela, “correr perigo é algo desafiador”, desde a época em que atuava no mundo corporativo, com passagens pelo Chase Manhattan Bank e pelo Merrill Lynch. No helicóptero, por exemplo, a fotógrafa se aventurou para conseguir cliques como a da controlada pista do Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Fernanda já expôs suas fotos em capitais como São Paulo e Brasília. No exterior, em cidades como Berlim, Dubai e Nova Iorque.

Sua trajetória profissional começou no mercado financeiro. Como foi a transição para a fotografia? 

Eu decidi deixar o mercado financeiro em abril de 2003 durante minha participação na Maratona de Paris. Correndo, me dei conta de que os anos estavam passando e que eu não estava participando ativamente da fase de crescimento da minha filha, na época com três anos. Eu amava a adrenalina do mercado financeiro, mas estava me sentindo incompleta.

Voltando quase dois anos, em 2001, um fato triste da história me impactou bastante e também pesou na minha decisão. No 11 de setembro eu estava ao telefone com um colega de trabalho quando os dois aviões atingiram as torres gêmeas do World Trade Center. Perdi alguns amigos nesse atentado.

E foi durante uma maratona que você se deu conta de que queria mudar de ares?

Sim. Até hoje tenho muitos insights nos momentos em que estou praticando corridas. Nessa maratona, em especial, avaliei que eu estava imersa no mundo dos negócios e me perguntei: Para chegar a qual lugar? Afinal, eu queria ficar mais próxima do meu bem mais precioso: minha filha.

E depois do mercado financeiro? 

Ao sair do universo das finanças fiz uma pós-graduação em Marketing na ESPM, mas decidi que eu queria ser 100% mãe, esposa e dona de casa. Os anos foram passando, minha filha já adolescente, e eu comecei a sentir falta de algo. Decidi fazer um curso de fotografia. Foi quando tudo começou.

Exposições no Brasil e no exterior fazem parte de seu portfólio. Você tem algum projeto que pode ser considerado um divisor de águas na sua carreira?

Quando fui para a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, fazer uma vivência na Aldeia Multiétnica, convivi com muitas etnias e costumo dizer que não fotografei, mas que fui fotografada, levando em conta a rica experiência. Uma grande vivência.

Como você tem aproveitado o isolamento social para fotografar?

Gosto da noite, sou movida pela Lua. Tem a ver com o ciclo menstrual (4 luas) e com a gestação (40 luas). Na Lua cheia fico mais agitada, já na minguante mais introspectiva. Eu moro em uma casa que tem um amplo jardim. Fico fotografando o Céu e a Lua. Outro dia avistei uma estrela muito brilhante. Através do app Star Walk – que uso para fazer fotos do Céu na Lua nova – identifiquei o planeta Vênus. Foi demais! Também adoro fotografar o entardecer cor-de-rosa por entre as árvores.

Neste período, você tem experimentado novas formas de fazer fotografia?

Sim. Tenho, por exemplo, exercitado fotografar mais de baixo pra cima, e não de cima pra baixo. Tem a ver um pouco com o meu jeito de valorizar a humildade, a solidariedade, a empatia.

Há projetos em andamento cujos insights tenham surgido nessa época?

Estou produzindo um diário com cliques que tenho feito nestes dias de isolamento. São imagens que imprimem sensações, cores, lembranças de alguém, de um momento ou de algum lugar. Também lancei uma expo virtual: https://artspaces.kunstmatrix.com/en/exhibition/1376282/meu-olhar-nyc-fernanda-fernandes

Quais são os combustíveis para o seu processo criativo?

Correr é um deles. Quando corro acesso os processos criativos, tenho ideias, e chego a tomar decisões, sim.

Você curte o escuro da noite, a Lua. A fotografia é uma arte que se faz na luz. Como esses dois lados conversam? 

Mas é no escuro que se revela uma foto.

Projetos futuros? 

Vários, mas ainda preciso guardar segredo!