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É tempo de enxergar os outros e nos enxergarmos com os olhos de quem vê bonito

A reflexão do fotógrafo Fer Cesar sobre esse momento de quarentena e como isso nos afeta nos aspectos pessoais e profissionais

por Revista FHOX

Por Fer Cesar

Última sessão antes da quarentena, no início de março. Fotos: Fer Cesar

Hoje, segunda feira, completamos aqui em casa, exatos 42 dias de quarentena, um mês e algumas semanas. É impressionante o quanto nossa vida mudou em tão pouco tempo, e quantas reflexões essas mudanças nos trouxeram. É natural em momentos de incerteza, construirmos em nossa imaginação os mais variados cenários, e muitas vezes nossa visão tende a ser curta, assim como os espaços restritos, que a maior parte de nós tem a possibilidade de circular no momento.

Períodos difíceis costumam trazer aprendizados, mesmo que de diferentes formas. Alguns de nós acabamos descobrindo, ou fomos obrigados a “descobrir” novas habilidades, seja por uma mudança repentina de carreira, ou até mesmo valorizando as atividades cotidianas, redescobrindo o espaço da casa como um local de convívio e de produção, não apenas de consumo. Todas as formas de vivenciar esse momento são inteiramente legítimas.

Longe de mim romantizar uma crise que merece ser tratada com responsabilidade, mas já que fomos todos – em diferentes intensidades – impactados por tantas e de tantas maneiras, que possamos dar espaço para que também o afeto nos afete. Que a nossa resposta passe pelo caminho da valorização das relações humanas.
As lembranças de pessoas que tínhamos contato no nosso dia a dia, nossos familiares, e até mesmo dos amigos que não víamos já há muito tempo afloram e nos forçam a perceber que somos por natureza seres sociais.

Como fotógrafo, uma reflexão possível neste momento é produzirmos retratos e autorretratos durante esse período de reclusão. Tudo isso com um olhar que possa ir além das redes sociais, sem a obrigatoriedade de exibição, mas como um legado para nós e para os que virão. Outro e talvez o mais importante exercício consiste em observarmos com maior atenção o espaço vazio, a luz, a sombra e as pessoas com quem dividimos a vida e a mesa de café da manhã. É tempo de enxergar os outros e nos enxergarmos com os olhos de quem vê bonito.

Última sessão antes da quarentena, no início de março. Fotos: Fer Cesar!

Se tem algo que aprendo contando histórias de pessoas através de imagens, é que entre as coisas mais importantes estão o afeto e o legado da memória. Gostamos de nos sentar no chão, abrir aquela velha e empoeirada caixa de sapatos, de uma marca que muito provavelmente já nem exista mais, descolar cuidadosamente as páginas que acabam com o tempo grudando umas nas outras. Passar horas revendo fotos antigas, relembrando momentos importantes, ou simplesmente momentos banais, mas que de alguma forma nos marcaram a ponto de termos registrado. Quando nos enxergamos nesse lugar, quase como se no futuro estivéssemos, fica ainda mais evidente a importância do resgate da memória. Que essa experiência possa nos fortalecer como humanidade e reforçar a construção da nossa identidade enquanto indivíduos.

Bru e Fer Cesar atuam em Curitiba e são referências na fotografia de casamento, família e lifestyle no Brasil.