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Da fotografia Documental à Artística

Por Rodolfo Ward

Este artigo foi originalmente publicado na prestigiosa Revista ARS/USP, conceito A1 CAPES e apresenta uma parte da minha pesquisa de mestrado realizada no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade de Brasília – PPAV/UnB, sob a orientação da querida Profa. Suzete Venturelli. A dissertação foi indicada pelo PPGAV/UnB para concorrer ao prêmio de Dissertações e Teses 2020. 

O presente artigo foi dividido em 5 partes. A intenção é contribuir com os estudos sobre a visualidade na contemporaneidade ao focar a fotografia contemporânea e sua relação com a sociedade, principalmente na criação e manutenção de regimes de verdade e de poder da atualidade que transmutam o conceito de verdade na contemporaneidade. São abordadas as fricções entre a fotografia documental e a fotografia artística e como essas questões se imbricam com a noções de real e ficcional, de documental e artístico, para compreender as fronteiras e as transgressões da fotografia contemporânea. Como exemplo, são estudados os casos de Steve McCurry, de Andreas Gursky e da incorporação de imagens do coletivo Mídia Ninja pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM SP). 

No artigo eu utilizo o termo transmutar por que o que aconteceu no caso das fotografias do coletivo Mídia Ninja foi uma mudança de grande profundidade para o estatuto da imagem, para os estudos acadêmicos sobre a imagem. Por que não transformação? Na filosofia transformação é um processo de evolução natural. Já a transmutação é processo de mudança essencial e não natural. Já para a disciplina biologia, a transmutação é o processo que muda completamente o organismo por meio da influência de uma mutação.  

A exposição “Poder provisório” trouxe fotojornalistas para um museu de arte contemporânea, o que, no entendimento acadêmico, seria uma transgressão. O curador da exposição, Eder Chiodetto, criou conscientemente uma discussão política ligada ao poder do curador e das instituições de arte, que legitimam o que é arte. 

Então, para se analisar este caso eu uni os estudos em cultura visual cultura, digital e cultura da convergência. Essas teorias, conceitos, nos auxiliam na percepção de novos parâmetros e condições para se enxergar e entender a realidade à nossa volta. Condições que reconstroem as formas de ver, observar e sentir o mundo. Ou seja, nós podemos afirmar que houve uma mutação na forma de se perceber e entender as imagens que foi provocada pelo curador da exposição.

O que aconteceu neste caso tem muita a ver com o que está acontecendo em praticamente todos os campos da nossa vida cotidiana. A expansão dos conceitos de verdade e metanarrativas de vida são uma constante dessa nossa época de tempo acelerado. Vivemos a transição da modernidade para a pós-modernidade. Essas linhas temporais estão borradas. E o campo da arte adora isso porque a arte é criadora de novas realidades. Ela tensiona os limites e as fronteiras sempre em busca dessa expansão.

O filósofo Francês Lyotard afirma que devido, à perda de credibilidade dos grandes discursos legitimadores da realidade, ou seja, das metanarrativas modernas, surgiram espaços a serem preenchidos pelo pluralismo e pela afirmação das diferenças. Isso na década de 1970. Hoje, 2021, temos inúmeros outros fatores e atores. Temos os prosumers. Temos os influencers, eles, em muitos casos apresentam conhecimento raso, superficial, sobre determinadas temáticas e possuem milhões de seguidores que absorvem essas informações como verdade incontestável. Temos a inteligência artificial que por meio de robôs interagem com os humanos e ajudam a criar novos regimes de verdade. Vimos isso nas eleições em âmbito mundial. Isso impacta em toda a estrutura social.

Mas, retornando ao tema sobre a transmutação da imagem documental para a artística. Vou tentar ser objetivo. A transmutação da imagem documental para imagem artística se deu devido a intenção do curador de questionar o estatuto da imagem utilizando-se de seu poder institucional para dar novo sentindo as imagens. Então, elas deixaram de ser um documento e se transformaram em arte. O que é arte?  Arte é o que o artista, conscientemente, cria. O conceito está muito bem trabalhado no artigo completo. 

A manipulação das imagens existe desde a pintura. Pouca gente sabe, inclusive antes de fazer essa pesquisa eu também não sabia. A fotografia surgiu praticamente junto com as disciplinas sociologia e antropologia. No final do século 19. E ela foi amplamente utilizadas para criar regimes de poder e realidade, principalmente, pelos colonizadores, os europeus. Então, eles estigmatizaram etnias e povos subalternos com imagens de superioridade racial. Durante décadas essas imagens foram utilizadas com cunho científico por sociólogos e antropólogos para validar a supremacia dos colonizadores. Temos inúmeros exemplos disso na publicidade. Nas épocas passadas, por estar ligada a ciência a fotografia desfrutava de uma credibilidade de real irrefutável. Era mais dinâmica que a pintura e representava melhor o que era considerado a realidade daquele exato momento, para a época. Sua utilização pelo jornalismo representou um marco da linguagem escrita para a linguagem das imagens. Hoje, vivemos uma outra transição paradigmática. Da imagem documento para imagem ficção. 

Steve McCurry

Nos dois casos citados no artigo, do Steve McCurry e do Andreas Gursky. Primeiro o do McCurry. Ele trabalhava para uma Revista foto documental de extrema relevância mundial ligada, inclusive, à pesquisa acadêmica. Então, ele era considerado um fotodocumentarista que buscava retratar a cena com o mínimo de alteração. Inclusive, sem alterações posteriores. Isso é o que o imaginário coletivo pensa. Entretanto, em uma exposição na Itália descobriram uma fotografia com alterações grotescas. O que é inadmissível. Por que pela convenção não faz alterações em documentos. Isso virou um escândalo no mundo da fotografia. Que só piorou quando ele disse que quem tinha alterado a fotografia teria sido seu assistente. Ou seja, virou uma co-autoria…

Após esse incidente McCurry teve que vir a público se desculpar. Falou que durante muito tempo ele foi documentarista, entretanto, as coisas mudaram, o tempo mudou, ele mudou e ele resolveu virar um criador de narrativas visuais. Isso é muito interessante. Ele já não tinha interesse em fotografar só o fato, mas, se colocar nessa criação imagética. 

Já no segundo caso analisado, o Gursky sempre foi um fotógrafo ligado ao mercado. Ou seja, ele sempre quis vender suas imagens de grande formato e sempre deixou claro que suas imagens sofriam profundas alterações na pós-edição. Gursky também retrata nosso tempo, entretanto, ele é bem claro na sua proposta. Criar imagens que deixam a dúvida para o observador refletir se são reais ou fictícias.

Andreas Gursky

Aqui é o principal ponto. A honestidade na criação e na apresentação do produto final. O grande problema foi a falta de transparência do McCurry que se utilizou da sua imagem para chegar em lugares que não é todo mundo que consegue chegar e apresentar uma realidade fictícia como real.

Por meio da análise dos casos de Steve McCurry, Andreas Gursky e da incorporação de imagens do coletivo Mídia Ninja pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, explicamos as transgressões e convergências da fotografia documental para a fotografia artística.

O que nós vivemos hoje, principalmente no ciberespaço, é uma guerra de narrativas. Uma batalha de discursos totalizantes em busca de uma reescrita da história. E, as imagens tem sido as protagonistas nessa fase de reescrita. A velocidade, a dinâmica contribuiu para a ascensão das imagens. Vale aqui falarmos de uma nova estética da cultura digital. Imagens e frases curtas e impactantes. Já no campo do Belo. As pessoas querem ficar parecidas com filtros do Instagram. Vamos chamar de “estética da pureza”. Essa estética filtra todas as imperfeições humanas, padroniza e desumaniza o ser humano. O ser humano está cada vez mais próximo da máquina do que da natureza. As imagens deixaram de servir a humanidade e a humanidade passa a viver em função das imagens. Percebemos que existe uma confusão também nesse quesito. As pessoas projetam seus sonhos, vontades, desejos, nas imagens que postam nas plataformas das redes sociais. E muitas passam a confundir essas imagens manipuladas com a imagem que tem de si próprio, perdendo tanto identidade quanto a individualidade. Como carneiros seguindo o passo coletivo. 

E se, essa “estética da pureza” que rege a vida cotidiana na atualidade é confundida com o real, então, temos um novo regime de verdade. A fotografia em si já é uma representação de um espaço tempo. Essa imagem é modificada para se enquadrar na estética do nosso tempo e vira a representação imagética da pessoa nas plataformas de redes sociais. Ela passa a acreditar que ela é daquela forma. E aí se você falar para a pessoa que ela não parece com a imagem que ela projeta dela nas redes sociais, você arrumou um inimigo para o resto da vida. Então se essa manipulação imagética já faz parte do imaginário coletivo. E se, essa autoimagem manipulada é aceita e defendida, nós temos um novo parâmetro para aceitação do que é real, não!?

Já, quanto ao cenário político brasileiro, para não dizer mundial, vemos a utilização da ampliação dos regimes de verdade para criar caos e confusão, e assim, com o caos criado, o governo trabalha de forma populista oferecendo soluções simples para problemas complexos.  Hoje, temos a democracia sendo manipulada mundialmente por inteligência artificial. Temos os casos das eleições presidenciais nos EUA, no Brasil, a interferência da Rússia… Robôs interagindo com humanos e ajudando a criar realidades fakes. Criando opiniões e conhecimento que são compartilhados e acabam sendo difundidos na sociedade. Utilizando mensagens curtas, inflamadas, populistas. E tem dado resultado… 

Para finalizar, acredito que por meio da arte e da poética, é possível criar novas realidades transformadoras e, de certa forma, contribuir para que todos tenham acesso ao conhecimento e ao pensamento crítico, que são a base para as reivindicações de justiça, igualdade, inclusão social e respeito à natureza. A arte é um meio emancipatório do ser humano que pode colaborar para que comunidades invisíveis sejam vistas e possam compartilhar do sentimento de cidadania.

Convido você leitor para ler o artigo na integra. 

Leia o artigo na integra: https://www.revistas.usp.br/ars/article/view/169675

Rodolfo Ward é artista e pesquisador transdisciplinar. Doutorando
em Artes Visuais e mestre (2019) em Arte Contemporânea pela
Universidade de Brasília (UnB). Possui pós-graduação em Relações
Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da UnB (2020)
e em Análise Política e Políticas Públicas pelo Instituto de Ciência
Política da UnB (2018). Autor da obra Wawekrurê: distintos olhares,
editado pela editora do Senado Federal (2015) e do livro Narrativas e
Representatividades: a interdisciplinaridade na comunicação, editado
pela Editora da Universidade Federal do Tocantins (2017). Foi membro
do Conselho de Cultura do Município de Palmas (TO).