Entrevistas News 3 anos atrás | Leo Saldanha

Com o foco na documentação das famílias

A rápida ascensão de Daniel Freitas serve de case; ele se posiciona como uma das referências na fotografia de família no Brasil. Desafios e muito trabalho não faltam nessa jornada

por Revista FHOX

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Em três anos de mercado, Daniel Freitas, em Pelotas (RS), conquistou espaço em palestras e muitas sessões de família em diversos estados. Começou no casamento e segue no segmento. Contudo, seu trabalho explodiu no estilo documental de família. Mais do que sessões, um trabalho de imersão em que o profissional passa 24 horas no ambiente familiar. Faz tanto sucesso que ele se destacou no Congresso Fotografar 2017 e roda o Brasil em workshops. Outro reflexo de sua popularidade é o interesse crescente de colegas fotógrafos em terem suas famílias retratadas por ele. Freitas esteve na Redação para falar do mercado e do que vem pela frente.

FHOX – Qual sua formação?

Freitas – Sou formado em Ciências da Computação e trabalhei na área durante 11 anos. Consegui uma bolsa para estudar fotografia na Escola Panamericana e, quando terminei, sabia que entraria de vez na fotografia; inclusive recebi o certificado por Bob Wolfenson. Este ano fomos palestrantes no Congresso Fotografar e ele me citou em sua palestra.

FHOX – Como foi o início na fotografia?

Freitas – Tinha um casamento e fui de graça acompanhar o fotógrafo e os noivos gostaram mais das minhas fotos; aquilo massageou meu ego. Eu queria algo que me deixasse motivado para não virar uma empresa que só faz casamento sexta, sábado e domingo. Busquei referências e isso se tornou algo meu: fotografar famílias. Querer descontruir o que o mercado já fazia. Consegui trabalhar com os próprios clientes e iniciar esse projeto. Foi importante conhecer os clientes. Ainda mais com tanta coisa ruim acontecendo no mundo, pedofilia por exemplo. Você vai receber um estranho em sua casa que vai ficar em um ambiente com crianças? O cliente vai pensar muito mais na pessoa do que no profissional. Claro, o fotógrafo tem que ter uma bagagem e qualidade de trabalho.

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FHOX – Você imaginava que tudo seria tão rápido em sua carreira?

Freitas – Não. Tento manter os pés no chão, porque a maior motivação é conhecer uma família. Fotografo muitos casamentos. Este ano foi o que mais fechei. Não fico divulgando, as próprias pessoas veem essa desconstrução da família e querem essa linguagem no casamento. Por exemplo, fazer um making of em casa, ao lado dos pais e avós.

FHOX – Como contratam você para os casamentos se não divulga?

Freitas – Boca a boca representa 90%. Muitas vezes aquela família que fotografei pergunta se tenho data e é para dar de presente. Parece que essa fotografia desconstruída tem um apelo sentimental maior. Porque se a roupa ou a casa eram bonitas ou não, o que importa são as pessoas. É um aprendizado incrível como ser humano, mais que fotográfico.

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FHOX – Por que diz isso?

Freitas – Porque o lado fotográfico a gente acompanha pelos congressos, workshops, cursos on-line e outras opções. Esses dias uma mãe falou: “Você é quase um psicólogo”. Participei de dois seminários sobre psicologia infantil, porque tem a ver com o meu trabalho. Óbvio que a criança talvez não entenda que os pais estão pagando para eu estar ali; ela está no mundo dela e ninguém pode arrancá-la dali. Busco o universo dela para que queira ser fotografada, sem ser obrigada.

FHOX – Seu marketing para fotografia de família é por indicação?

Freitas – Sim, porque eles querem saber de tudo por quem indicou. A rede social ajuda a educar o cliente. O Instagram me dá mais retorno do que o Facebook. Tenho um grande público de blogueiras e mães que divulgam a rotina dos filhos. Logo, logo, Rodrigo de Paula [videomaker] vai comigo filmar uma família global que me achou pelo Instagram. Eles adotaram uma menina e gostaram do meu trabalho. Hoje as pessoas entendem isso, que não é só fotografar os momentos bons. Não estou lá para julgar, mas para curtir e ser amigo deles. O fotógrafo de casamento poderia olhar mais para a família, porque esses noivos vão ter filhos.

FHOX – Você também é procurado por fotógrafos?

Freitas – Acho que eles estavam carentes de ter um registro deles menos produzido. Hoje me vejo conhecendo um pouco mais a vida desses fotógrafos e tem sido legal para mim como pessoa e também passar isso para outros fotógrafos. De mostrar que não tem esse abismo todo, não. Ontem passei o dia registrando uma família. Cheguei a São Paulo tem dois dias e já deu quase 180 GB de fotos. É diferente de ir ao parque, fotografar 800 fotos e dirigir a família. E depois vou entregar 50 fotos.

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FHOX – Como você lida com a questão de passar 24 horas?

Freitas – Aconteceu uma experiência ontem com um pai. Ele não queria. Nunca tinha vivido isso. E a mãe é fotógrafa e esteve na Fotografar. O mais legal de tudo é que quando terminou minha palestra ela quase pulou no palco, queria mais detalhes. O grande desafio é a pessoa que não tem afinidade com fotografia. Ou que a experiência anterior não foi agradável. Eles se bloqueiam. Desde o primeiro contato mostro que sou uma pessoa sociável e simples. E isso vai me aproximando antes de minha chegada. Quando chego parece que nos conhecemos faz anos.

FHOX – E quanto cobrar?

Freitas – Consegui pular alguns degraus ao mostrar ao cliente o valor que isso tem. Se a gente analisa preço por preço, vamos entrar em discussões de como é entregue, o trabalho, a luz, etc. Tenho clientes que conseguiram entender o valor. Digo que eles precisam se ver nas fotos, ver os filhos, pensar nisso daqui a vinte ou trinta anos. Mudei a forma de trabalhar, porque eu tinha pacotes e todos com álbum. E a maioria questionava: e se eu tirar o álbum, quanto cai? Não mexi no valor e tirei o álbum. Quando fiz isso, as pessoas começaram a valorizar o projeto, meu tempo e as fotos. E o mais incrível é que 90% compram o álbum depois. Ou seja, meu tíquete aumentou. Mostrei a eles que não era o álbum que encarecia. Faço uma curadoria, troco mensagens e entendo a família. Fui com Simone Silvério e sua família para a casa de praia. Ficamos até madrugada ouvindo histórias de vida deles e foi incrível. E ela e o Jaiel disseram: “Se você amanhã falasse que não tinha foto nenhuma, mesmo assim teria valido a pena”.

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FHOX – Por que ainda não tem mercado?

Freitas – Porque tem muito fotógrafo com receio de falar que é fotógrafo de família. Eu no começo sonhava em colocar que era Daniel Freitas Destination Wedding. Mas gosto tanto de estar com as famílias e ver crianças… Tem muito fotógrafo de casamento perdendo uma oportunidade incrível. Às vezes esse profissional não está indo bem, mas coloca que é especialista em casamento. E naquela família que ele fez o casamento, a mulher está grávida. Ele poderia registrar esse momento, já conhece as pessoas. E amanhã ele estaria lá na casa deles. Quando dou workshop, digo que não quero que ninguém saia da masterclass querendo fotografar durante 24 horas. Quero que entendam o poder que eles têm nas mãos junto a uma família, que podem criar um vínculo maior do que imaginam. O último post que escrevi no blog FHOX falei de uma família que acompanho faz três anos. Estava a avó reunida com os netos. Eles ficaram para o Dia das Mães. Tenho a foto da avó com os álbuns e contando para os netos as histórias da família. Eu gostaria de ter uma foto dessas com meus primos. Os fotógrafos de casamento principalmente se acham, e me incluo nisso. “Ah não, não posso divulgar que fotografo família. Imagine, sou fotógrafo de casamento!” Eu fotografo aniversário infantil desde o primeiro ao quarto ano. Chego lá e as crianças vêm me abraçar.

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FHOX – Você faz um pouco de tudo?

Freitas – Atendo tudo o que envolve família. Às vezes estou em São Paulo e as famílias me procuram pelo WhatsApp e perguntam se estou disponível para um campeonato de natação. “Eu queria muito que você viesse porque não quero fotografar com celular.” Eles não chamariam um fotógrafo caso eu não fosse tão próximo deles. Para eles é importante ter mais esse acervo com momentos legais deles.

FHOX – E a parte técnica e de equipamentos?

Freitas – Eu era Canon e virei Nikon porque achava que no ambiente escuro funcionava melhor. Gostei muito de trabalhar com a marca. Mas percebi que o barulho do obturador travava as pessoas. Quando conheci a mirrorless Fujifilm em um evento, acabei migrando. Às vezes me incomoda o barulho do foco da lente, porque é o único que faz. Trabalho com a câmera fora do olho.

FHOX – Usa no casamento também?

Freitas – A mesma coisa e raramente coloco a câmera no olho. O que posso falar para fotógrafos de família é que vejo um futuro promissor, principalmente na fotografia documental. A gente está capinando um lado do morro e não sabe o que está do outro. Não abra mão de estar com essas famílias para fazer um retrato, renovar aquela foto do porta-retratos. É com essa afinidade que talvez amanhã você entrará na casa deles. Em dezembro passado recebi um e-mail em inglês de uma família que estava morando em São Paulo e queria uns retratos para montar um cartão de Natal e enviar a parentes nos Estados Unidos. Era uma sessão de fotos de meia hora. A gente foi a uma praça no Morumbi. Fui para me entregar e hoje essas fotos estão na pastinha das que mais gosto. Eram cinco crianças e consegui pegar todas as pessoas na foto sorrindo de verdade. Conectadas. Gosto muito daquela foto. Depois a mãe entrou em contato para dizer que voltariam para Seattle e queriam um documental. Então, se eu tivesse ido só pela grana ou dito isso não faço, não teria tido essa oportunidade de passar um dia com pessoas de cultura diferente. Hoje, na minha empresa, o projeto de fotografia documental representa 40% do faturamento.

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FHOX – Você atua em um mercado sem concorrência?

Freitas – Sim e tem aberto um leque de produtos que jamais imaginei. Fotografei dois casamentos no ano passado cujos noivos fecharam ensaios de 24 horas em contrato, eles queriam registrar o último dia em família. Eles têm familiares que moram longe e iriam para o casamento. É um momento especial. Tenho feito muitos aniversários em casa, porque bufê é caro e assim as pessoas ficam mais próximas.

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FHOX – Pode falar sobre a importância do álbum?

Freitas – As famílias quando veem as fotos querem saber como ficarão no papel. Faço um álbum exclusivo. Celso Modeneze cria as artes. Passo a ele um briefing do que é valioso para aquela família. A Simone Silvério, por exemplo, tem uma tatuagem com os nomes dos filhos. Tirei uma foto que será gravada na capa do álbum dela. Lido com o álbum como um produto supervalioso e exclusivo. E nunca fiz tanto álbum na minha vida. Trabalho com o Viacolor, que tem um material incrível. Eles conseguem criar um produto personalizado para atender às minhas demandas. Se eu fizesse algo em massa, talvez não tivesse o valor sentimental que os clientes vão deixar sobre a mesa da sala para todo mundo ver.

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FHOX – Qual o seu sonho?

Freitas – Agradeço tudo. Mostro aos fotógrafos iniciantes que podem atravessar e querer algo mais para suas carreiras. O ano passado foi um baque para todo mundo e para mim foi um dos melhores. Quero mostrar isso para as pessoas desmotivadas. Elas precisam entender que é tudo um equilíbrio da parte financeira e pessoal. Estou feliz por viajar com minhas turmas de masterclass. O que escuto muito é “na minha cidade não funciona”. Por que não? Funciona, sim. Eles precisam entender o que as pessoas querem. Não é só vender fotografia. O meu sonho é poder retornar para a fotografia o que recebi. Recebi um retorno incrível de quem me viu no Congresso Fotografar e foi gratificante. Entendo que tenho uma responsabilidade e por isso tenho estudado mais. Não só sobre fotografia. Vou palestrar na Escola Panamericana e no Senac.

FHOX – E como é ficar longe de sua família?

Freitas – É o mais difícil. Esse projeto não é sobre fotografia, é uma missão. Por esses dias fotografei uma médica e ela me disse: “É como ser médico, a gente abre mão de muita coisa em casa para estar trabalhando”. Tenho reduzido o tempo das viagens. Foram 38 famílias que atendi em um ano. Queria ser uma mosquinha daqui a 40 anos para ver como eles olharão essas fotos. Agora pego aniversários em que passo um dia inteiro antes da festa e tudo documental. Teve uma família que mora no meio do mato e toda desconectada. Foi uma experiência incrível. Fomos para uma cachoeira e as crianças tiraram a roupa e brincaram na lama. Felizes da vida. Publiquei a foto com tarja preta e a mãe me ligou e disse para tirar aquilo.

http://www.danielfreitasfotografia.com.br