News 3 anos atrás | Diogo Amorim

Banco de imagens dá espaço a mulheres ‘invisíveis’ para a publicidade

Idealizadores não procuraram agência de modelos e sim amigas de amigos.

por Revista FHOX

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Para todo mundo ver: uma das fotos do banco de imagens – Catarina Martins / Divulgação

Maria Guimarães não viveu nos anos 1960 de Peggy Olson, a publicitária da série “Mad Men”, mas bem que poderia. Afinal, para ela, pouca coisa mudou: as salas de criação das agências continuam apinhadas de machos alfa, com duas ou três mulheres tentando remar contra a maré.

Cansada desse seriado da vida real, ela e a sócia, Thais Fabris, que vivia a mesma situação, resolveram criar a consultoria de comunicação 6510 (leia “meia cinco dez”) há dois anos e meio. O grande sonho, no entanto, só ganhou forma agora: está no ar, desde setembro, o primeiro banco de imagens totalmente dedicados a fotos de mulheres da vida real, o Mulheres Invisíveis. Ali não há espaço para a loira, alta, magra e deslumbrante que seus colegas adoram pôr nas propagandas de cerveja — ou de qualquer outra coisa que precise de figuras femininas.

“Nossa ideia sempre foi fotografar mulheres que não aparecem na mídia, apesar de serem a cara do nosso país. Escolhemos negras de cabelos crespos, tatuadas, gordas, lésbicas, trans e não binárias. Gente que está aí, vivendo a vida, mas não tem espaço na publicidade” — conta Maria, de São Paulo, que escolheu o nome 6510 pelo fato de “65% das brasileiras não se identificarem com a forma como são retratadas nas propagandas” e pelos 10% de mão de obra feminina nas áreas criativas das agências no Brasil.

Para o Mulheres Invisíveis, que, até o momento, tem cerca de cem imagens, a ideia inicial é mostrar duas situações que dificilmente fogem dos esteriótipos: a mulher trabalhando e fazendo exercícios físicos.

Outra imagem do “Mulheres invisíveis” – Catarina Martins Tenório / Divulgação
x72273851_RG-Revista-Ela-Mulheres-invisiveis.jpg.pagespeed.ic.hF_l6Sfk4U“É muito raro achar foto de uma mulher negra ou gorda trabalhando num escritório. E é corriqueiro procurar este tipo de ambiente em bancos de imagens” — diz Maria, de 30 anos. “O assunto ginástica também é clichê: há sempre alguém magro fazendo uma atividade muito difícil”.

As modelos (três delas em fotos destas páginas) foram selecionadas pelo coletivo Catsuo, formado pela fotógrafa Catarina Martins, pela stylist Suyane Ynaya e pela diretora de arte e beleza Lídia Thays. As três foram responsáveis por toda a concepção visual do projeto e fizeram uma seleção de personagens via Facebook, como costumam fazer nos editoriais de moda do coletivo.

“A gente optou por não usar agência de modelos, apesar de algumas trabalharem como tal. Aquelas meninas são pessoas do nosso cotidiano. Costumamos falar que é um casting real: nossas amigas e amigas de amigos que conseguem imprimir esse olhar” — conta Catarina, de 24 anos, quatro deles dedicados à fotografia de moda, e que hoje colabora também com o coletivo Mooc e com a Conspiração Filmes.

Além de diversidade, a outra ideia da iniciativa é trazer soluções para orçamentos apertados. Segundo Maria, em sites estrangeiros, até há algumas poucas opções de “mulheres invisíveis”, mas que chegam a custar US$ 600. Não mais: nessa leva de fotos é possível baixar uma por US$ 10, dependendo da quantidade de créditos comprados no Fotolia, site que hospeda a galeria de imagens.

Para quem sentiu falta de outros tipos de mulheres no banco, Maria avisa que ele vai crescer em breve. E muito por causa da colaboração de gente que soube, pelas redes sociais, do lançamento do Mulheres Invisíveis.x72157534_RGRevista-ElaMulheres-invisiveis.jpg.pagespeed.ic.2AHlVPwav6

Imagem do banco Mulheres invisíveis – Catarina Martins Tenório / Divulgação

“Fizemos uma “instamission” (missão no Instagram, que convida usuários a postarem de acordo com determinados temas) para as pessoas fotografarem tipos de mulheres que queriam ver. Agora, estamos pegando autorização dessas fotos para colocar no banco” — conta Maria, que prevê novidades até o início do ano que vem.