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AKQA e Juh Almeida lançam o movimento RGBlack para fomentar o debate sobre o viés racial presente na indústria do audiovisual

A iniciativa quer estimular a transformação cultural e tecnológica de como a pele negra é retratada no mercado audiovisual

AKQA lança o movimento RGBlack – Reframing the Greatness of Black (Retratando a Grandeza da Pele Negra) em parceria com a produtora Pródigo Filmes e a diretora Juh Almeida para fomentar o debate sobre o viés racial presente na cultura e nas tecnologias da indústria audiovisual. O movimento visa promover uma transformação na forma como a pele negra é retratada e enfatizar a importância de formas de representação mais inclusivas.

A ideia do projeto surgiu há dois anos, durante uma análise interna da área de Impacto da AKQA, que percebeu que alguns dos trabalhos do estúdio não retratavam fielmente a beleza da pele negra. Para corrigir esses erros em projetos futuros, a equipe pesquisou técnicas de calibração de cores, iluminação, diferenças entre tons de pele, maquiagem e cabelo, examinou o uso de IA no processamento de imagens e descobriu que, para atender às necessidades do mercado-alvo dominante na década de 1940, o padrão implícito nas configurações originais dos produtos fotográficos privilegiava a pele branca. Oitenta anos depois, mesmo com a evolução da imagem digital, os padr&otil de;es usados continuam exatamente os mesmos.

“Vivemos em uma era visual. As imagens moldam a maneira como percebemos e entendemos o mundo ao nosso redor. Ao considerar como o racismo estrutural se reflete na tecnologia fotográfica, é essencial compreender que a tecnologia é um artefato humano projetado dentro de um contexto social e que nossas escolhas tecnológicas vão favorecer ou desfavorecer certos grupos com base nas estruturas de poder existentes”, diz Yago Freitas, produtor sênior da AKQA.

O legado dos Shirley cards

Ao longo do século 20, a pele branca foi usada como referência de tecnologia aplicada a filmes coloridos. Para calibrar as cores de uma imagem, os laboratórios fotográficos usavam os chamados “Shirley cards”: uma foto de uma mulher branca com as referências de cores, exposição à luz e densidade. Com esse método de calibração, fotógrafos e designers realizavam o balanceamento das máquinas de impressão fotográfica em um padrão considerado “normal”.

Shirleys – apelido dado às mulheres que apareciam nos cartões, em referência a Shirley Page, a primeira modelo a ser usada para esse fim – eram invariavelmente brancas, e essa padronagem de calibração dificultava que os tons de  pele negra fossem retratados com a mesma fidelidade. O método resultou em imagens da pele escura com aparências desfocadas, chapadas e sombreadas nas revelações fotográficas.

As primeiras mudanças para ampliar a gama de tons marrons das emulsões químicas dos filmes ocorreram na década de 1960, principalmente devido à pressão de fabricantes de móveis e chocolates. Eles reclamavam que seus anúncios publicitários impressos não refletiam a diversidade de tons que diferenciavam seus produtos. 

A partir de 1990, com o surgimento de câmeras capazes de processar tons de pele claros e escuros ao mesmo tempo, foram lançados cartões Shirley multirraciais, embora todas as modelos ainda tivessem a tez clara. Eles nunca foram amplamente adotados porque coincidiram com o surgimento da fotografia digital, mantendo o viés racial nas práticas contemporâneas de captura, criação e distribuição de imagens.

Viés racial nos algoritmos de inteligência artificial 

Hoje, a grande maioria das ferramentas de IA usadas para edição de imagens foi treinada para ver rostos humanos usando bibliotecas de imagens digitais que também carregam esse viés preconceituoso. O resultado dessa prática é que pessoas reais são representadas erroneamente ou excluídas, exatamente como os cartões Shirley foram projetados para fazer.

Novas perspectivas para a produção de imagens

“O movimento RGBlack nasceu para romper essas regras e trazer novas perspectivas para quem está atrás das câmeras retratar toda a grandeza da beleza negra por meio da criação de novos cards de calibração projetados para diversos tipos de pele. Eles estão na plataforma rgblack.org, junto com informações sobre princípios de iluminação, beleza e colorimetria”, diz Gabriel França, diretor de criação associado da AKQA.

A fotógrafa e diretora Juh Almeida, da Pródigo Filmes, é uma das protagonistas desse movimento e é quem dirige o filme que recria os novos cartões com modelos negras.  

“Para mim, o objetivo principal de um projeto como o RGBlack é quebrar de uma vez por todas a transmissão da mensagem social e psicológica sutil que dita a dominância da pele branca como padrão em todos os departamentos da imagem, não só na frente e atrás das câmeras, mas também no backstage, fichas técnicas, bastidores e, lógico, nas mídias que nos bombardeiam dia a dia deixando evidente que não existe espaço para pessoas de pele negra. Em linhas gerais, o que queremos com esse projeto é inquietar e confrontar o imaginário enraizado nas mentes criativas de quem encabeça projetos e ainda dita a branquitude como padrão”, pontua J uh Almeida. “O tema era também campo de estudo da minha dissertação de mestrado e meu interesse pelo assunto se manteve. Com a vontade de revolucionar de forma coletiva a indústria da imagem e de desafiar o racismo institucional, eu aceitei dirigir o projeto que propõe evitar esses erros nas futuras captações”, acrescenta a diretora.

O filme de lançamento do movimento RGBlack, também cocriado e dirigido por Juh, revisita os Shirley cards com um olhar negro e uma proposta de reflexão que antecede o clique. “A fotografia não é apenas um sistema de calibração de luz, mas uma tecnologia de decisões subjetivas. Quem eu vou fotografar? Qual ângulo escolher? De onde entra a luz? Por que neste cenário? Por que esta pessoa? A tecnologia deve ser o equalizador final, deve principalmente atender às necessidades de todos sem um preconceito inerente ou viés racista. Não podemos mais presumir que a cor branca é o padrão.” E finaliza: “Acredito muito que o RGBlack celebra e traz à luz p autas antes ignoradas e silenciadas na indústria do cinema e da fotografia. Eu sonho grande e acredito que ressignificar a Shirley é o primeiro passo para mudar o mundo por meio da fotografia”, defende a diretora. 

Assista: