News 6 meses atrás | Mozart Mesquita

A quantas anda a economia criativa da imagem

Por trás de uma exposição, festival, feira ou galeria, existe uma cadeia que ganhou corpo mas ainda está aquém do seu potencial

por Revista FHOX

Texto por Mozart Mesquita  Fotos: MR Estudio Digital/ Roberto Abreu e Cláudio Clavolpe

Cláudio Colavolpe, printer certificado Hahnemühle e seu belo espaço em Salvador. Fotos: MR Estudio Digital/ Roberto Abreu e Cláudio Clavolpe

Agosto foi um mês excitante para a fotografia autoral no Brasil. A SP-Arte/Foto no final do mês concentra vendas, renova talentos e é o ponto de encontro que agita o setor. “Sem dúvida é um momento importante em que aumenta o volume de trabalho”, confirma Marcos Ribeiro, dono de um dos principais estúdios de impressão do País.

O advento da SP-Arte/Foto é um divisor de águas no trabalho de formação de público e visibilidade para a fotografia autoral. É a ponta do iceberg e um primor em termos de organização, sofisticação e visibilidade. No âmbito da fotografia autoral não há nenhum outro evento que o acompanhe. Festivais e mostras espalhados pelo país não seguiram a ascensão da Feira. O que se viu foi a fragilização da maior parte dos eventos Brasil afora, sempre com dificuldades para obter ou manter patrocínios e assim conseguir oferecer grades relevantes.

Paraty em Foco, FotoRio, Canela Workshops, Festival Goyazes, Floripa na Foto e mais recentemente o Valongo de Santos, para citar apenas alguns, lutam para se manter no calendário. Mostra SP, FestfotoPoa e Tiradentes, tem situação um pouco melhor, mas nada que permita trabalhar sem percalços. Na maior parte das vezes, estão de um lado da calçada e a indústria da fotografia do outro. Ruim para todos e muito distante do que ocorre lá fora, em que grandes marcas apoiam eventos do gênero. Por aqui, diretorias de marketing não muito sensíveis a nada além de vendas, tem zero tolerância para projetos que pouco agregam e raramente estão bem estruturados.

Nesse aspecto a posição da FHOX é muito peculiar. Durante seis anos organizou o Fórum Fine Art, talvez o único, em que se tentou fazer pontes de aproximação entre economia e criatividade. Mas preconceitos de ambos os lados dificultam. Embora seja possível colocar na mesma sala um gestor cultural e um diretor de marketing, raras vezes isso gera algo efetivo e muita vezes amplia o abismo.

Marcos Ribeiro, checando a impressão de um trabalho de Sebastião Salgado (MR Estudio Digital). Fotos: MR Estudio Digital/ Roberto Abreu e Cláudio Clavolpe

Em abril, um evento em Fortaleza, organizado pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará e com envolvimento direto de um dos grandes nomes da fotografia brasileira, o fotógrafo Thiago Santana, reuniu organizadores das principais mostras e Festivais do país.

De concreto para esses eventos, por enquanto nada que se possa ver, a não ser a apresentação de um novo Festival, dessa vez internacional, em Fortaleza. Que diga-se de passagem, como cidade, mostra uma cena bem ativa e está na lista de novidades positivas, não só pela iniciativa de apoiar o encontro, como pelo surgimento por lá de um belíssimo museu dedicado especificamente a fotografia.

Isso também vale para tentar aproximar eventos culturais da tribo da fotografia social. Parecem água e azeite, infelizmente, não se misturam. O Valongo, na sua primeira edição até fez gestos e Tiradentes sempre sinalizou boa vontade, mas falta muito. O Fórum organizado por FHOX, é um bom exemplo. Um nome como Carlos Moreira numa conversa com Rosely Nakagawa, merecia atenção, mas não passaram de dois ou três fotógrafos sociais, numa sala com duzentas pessoas.

Inegável é que esse mercado fraturado, certamente gera menos atividades do que poderia, e assim menos oportunidade para quem trabalha nele. Essa reportagem ouviu alguns importantes players do setor. Distribuidores, printers, autores, galeristas e membros da indústria. As conclusões são sintomáticas de um mercado longe da sua maturidade. Um exemplo simples, o Peru, menor do que o Estado de São Paulo, consome praticamente a mesma quantidade de papel algodão Fine Art que o Brasil.

Armando Prado conferindo o resultado da impressão na modulra no MR Estudio Digital (MR Estudio Digital) – Fotos: MR Estudio Digital/ Roberto Abreu e Cláudio Clavolpe

Muitos printers saíram do mercado, alguns entraram, mas certamente houve uma pulverização e estúdios de destaque, que se espalham por diferentes regiões do País. Não é mais necessário imprimir uma exposição em São Paulo. Durante a última Fotografar, o CEO da Hahnemühle veio ao Brasil e se impressionou com o estúdio que visitou em Salvador, um espaço certificado pela marca e tocado pelo fotógrafo Cláudio Colavolpe. Aliás, a visita de Henrik Barnard é emblemática. Veio conferir a Feira, visitar clientes e a inovadora iniciativa proposta por um dos seus distribuidores, a Dina Fotográfica: o Bureau Modelo de Impressão. Seu gesto de ir ao campo e a postura da Hahnemühle é o que há de melhor a se citar na indústria desse segmento. Outras marcas de papéis investem zero ou quase isso em marketing.

Já no campo das impressoras, pelo lado da Epson, o excelente trabalho feito no final dos anos 1990 e começo dos 2000, instalou um parque impressionante mas acabou acomodando a marca, que reduziu foco no setor fotográfico, pois este, segundo executivos da empresa, não tem volume. Ainda assim, a marca voltou a expor na Fotografar esse ano e anuncia novidades neste segundo semestre. Canon, é um fato novo, com presença mais forte no chão do mercado, porém ainda carece de maior sensibilidade de suas revendas junto aos printers, para ter mais êxito.

Já a HP, que foi anunciada como carta fora do baralho, ensaia um retorno e olha para uma frente que, colocando os preconceitos abaixo, tem grande potencial: o mercado de decoração. Aqui, entra o X da questão para a expansão desse mercado. A percepção de quem nem tudo que é impresso precisa ser em superfície de alfa celulose e de que a fotografia já é a queridinha nas paredes de muitas pessoas, podendo crescer cada vez mais se houver menos disputa entre marcas, printers, galerias online ou físicas e mais foco em educação do fotógrafo e formação do público comprador. Melhor fazer o bolo maior antes de devorá-lo.

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