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A nudez masculina é proibida? (NSFW)

Fotógrafa paulistana que teve a conta no Instagram deletada ganhou a causa contra a rede social. Após a sentença ela levanta um importante questionamento sobre o caso: "por que apenas contas do Instagram de fotógrafas são bloqueadas ou deletadas quando expõe nudez?"

por Revista FHOX
Fotos: Pamela Facco

A fotógrafa Pamela Facco criou o projeto Poesia com Elos. A série foi bloqueada e depois deletada do Instagram. Pois na semana passada ela teve ganho de causa contra rede social. Uma decisão inédita e que abre precedente para ações similares com essa jurisprudência. A rede social não só teve que devolver a conta para Pamela como também está proibida de bloquear ou deletar novas fotos da fotógrafa. Leia o relato completo de Pamela no texto abaixo (importante: fotos com nudez).

A fotógrafa paulistana Pamela Facco. Carreira consistente e com trabalho respeitado que já esteve presente em festivais de fotografia importantes pelo país

Texto de Pamela Facco 

Eu sou a fotógrafa do projeto Poesia com Elos. Aqui vai um resumo: tive meu Instagram deletado arbitrariamente pelo Instagram por conta de denúncias de pessoas mal-intencionadas. Inconformada, recorri à justiça e fui a primeira artista a processar o facebook no Brasil por conta das políticas hipócritas sobre nudez. E ao contrário do que todos achavam a juíza deu a causa como procedente. NA SEMANA PASSADA EU GANHEI A AÇAO. O Instagram foi obrigado então a me devolver a conta e está proibido em juízo de acatar denúncias sem averiguação sobre o meu trabalho.

Foto: Pamela Facco

Abaixo a história completa.

Meu projeto tem como objetivo inicial evitar a objetificação do nu e assim libertar o corpo da mulher do lugar de objeto. Carrega também uma discussão de fundo sobre padrões estéticos e a fragilidade masculina. Esse projeto teve início em novembro de 2016 e começou apenas fotografando mulheres. Minha ideia foi mostrar minha visão enquanto artista mulher, não erótica e empoderadora sobre o corpo feminino. No início meu projeto foi bem aceito na plataforma Instagram, o corpo da mulher sendo apresentado, ainda que de uma maneira diferente do corriqueiro, era aceitável ao meu público e a plataforma da mesma forma.

Fui evoluindo minha reflexão sobre esse tema e senti necessidade de incluir o corpo masculino nesse lugar frágil de exposição do corpo e contar uma nova poesia e propor novos questionamentos. Assim que publiquei minha primeira foto com participantes homens minha conta sofreu uma chuva de denúncias e represálias e ficou descolada dos links do Instagram; Isso segue assim até hoje. Nenhuma hashtag que eu posto é computada e eu tive vários projetos sem catalogar mais por conta disso. Sabe-se que no Instagram as hashtags são uma ponte de acesso para o mundo. Até então eu usava meu Instagram pessoal para publicar todos meus trabalhos e os separava apenas pelas tags. Quando fui descolada da rede senti a necessidade de abrir um Instagram próprio para o projeto. Foi então que nasceu o “POESIA COM ELOS”.

O Instagram foi crescendo rápido, por apoio de algumas influenciadoras, amigos e pelo boca a boca também. Era uma conta que em três meses de vida conquistou 6 mil seguidores de forma orgânica.
Fazia ensaios semanalmente, recrutando modelos pelos stories. Não era selecionado de maneira alguma os participantes, não eram modelos, não eram figuras exóticas nem alinhadas a nenhum tema específico. Eu colocava uma data e recebia no meu estúdio em casa quem quisesse participar. Diariamente eu tinha fotos denunciadas e deletadas. Era uma rotina amarga, que eu vivia, assim como tantos outros artistas que são perseguidos por haters que se movem para derrubar seus posts, páginas e trabalhos.

Bastidores – Foto: Pamela Facco

Eu tinha muito apoio dos meus seguidores, que comentavam e sempre me motivavam a continuar lutando por esse projeto e por essa mensagem. Em uma sexta-feira marquei o maior ensaio que já havia feito do projeto, que reuniu 14 pessoas. Cada participante divulgou na sua própria pagina o making-of do ensaio e ao final do dia eu tinha conquistado muita visibilidade e muitas denúncias também. Postei uma foto onde as 14 pessoas se abraçavam com um texto sobre má-fé e fui dormir. No dia seguinte acordei com a minha conta deletada. Sem nenhum cuidado, sem nenhum e-mail, sem mais, nem menos o Instagram decidiu acatar as denúncias e não averiguar o teor das minhas publicações. Fiquei extremamente abalada com isso, do dia para noite eu havia perdido toda a rede de seguidores que eu tinha conquistado com tanto empenho. Do dia para noite eles haviam jogado no lixo, sem a menor hesitação incontáveis horas de trabalho de uma artista que propunha alterações e melhorias do nosso prisma social tão aprisionador e preconceituoso.

Tentei contato com o Instagram e consegui uma conversa ao vivo com um representante do facebook que alegou que minha conta não estava em conformidade com as diretrizes e que ela havia sido deletada definitivamente.

Foto: Pamela Facco

Fiquei ainda mais arrasada e decidi conversar com alguns advogados para ver quais seriam as possibilidades. Todas as pessoas que eu contatava me diziam que não havia nenhum caso como referência, que eu realmente estava fora da política da empresa e que seria um dinheiro e tempo gastos à toa. Ainda assim eu não me conformava pois, nós, que usamos diariamente o Instagram, sabemos que o que mais existe dentro daquela plataforma é nudez. Nudez erótica, nudez vulgar e nudez clichê. Por que justo e exclusivamente a nudez artística apresentada por uma artista mulher deveria ser banida e castigada? Continuei com a minha indignação gritando isso aos quatro cantos, até encontrar uma advogada que foi corajosa o suficiente para embarcar nessa comigo. Seríamos juntas as duas primeiras mulheres a peitar essa política hipócrita que legitíma o que há de mais covarde no ser humano: Prejudicar o trabalho do outro atrás de um botão de denúncia anônima.
Decidimos usar a estratégia de apresentar milhares de contas gigantes que apresentavam a nudez da mulher de maneira clichê como o Instagram da Playboy, que inclusive tem o selo azul de verificação, e contrapor ao meu trabalho extremamente delicado e artístico que apresentava um outro viés da nudez como: amamentação, pessoas fora dos padrões estéticos e pessoas com cicatrizes.

Foto: Pamela Facco

Após nove meses de luta: entre replica, tréplica e audiência de conciliação a juíza deu a causa como PROCEDENTE. E o Instagram foi obrigado a devolver a minha conta tal como estava no dia de sua queda. Com o mesmo número de seguidores e postagens. Hoje minha conta está protegida e caso haters a derrubem de novo eu ganho multa diária de 500 reais.

Foto: Pamela Facco

É uma vitória e tanto para toda a classe de artistas. Eu queria que essa história fosse apenas a primeira de muitas, eu queria servir de exemplo de teimosia e auto-valorização: porque não tem nada mais importante do que a própria autora entender que lutar pelo seu trabalho e voz é se dar valor enquanto MULHER.

Queria que todas as pessoas que sofrerem injustiça naquela plataforma e tiverem seus trabalhos prejudicados e interrompidos olhassem para essa história e acreditassem que faz sentido sim lutar. Porque a minha utopia pessoal não é apenas ter a minha conta livre, mas sim que a arte como um todo o seja, e para isso é preciso que essa política cruel e leviana mude, mas a gente sabe que as coisas nesse universo capitalista só mudam quando começam a dar prejuízo para as empresas.
Gostaria muito que isso realmente se espalhasse para que uma mudança real acontecesse. Só eu ganhar não me basta. Minha luta sempre foi por algo maior.

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