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A máfia pelos olhos de Letizia Battaglia

Fontana Pretoria on Piazza Pretoria in Palermo.

A coragem e o profissionalismo de uma mulher além do seu tempo

Coragem, pioneirismo, escândalo, violência, brutalidade e perigo são palavras que podem ajudar a definir a carreira brilhante da fotojornalista Letizia Battaglia, que morreu neste ano, aos 87 anos, na capital siciliana, Palermo. Sua obra registrou cenas bárbaras da máfia siciliana, Cosa Nostra, nos anos 1980 e 1990, com registros de assassinatos políticos, corpos abandonados próximos a estradas rurais ou em poças de sangue em plena calçada. O desdobramento da influência da máfia sobre os sicilianos também era marcante em seu trabalho, como as famosas fotos de um menino brincando de assassino, com uma meia de nylon cobrindo o rosto e uma arma de brinquedo na mão, além do clássico registro de uma viúva de um homem assassinado pela máfia, durante o funeral do marido.

Pioneirismo e coragem

Battaglia se orgulhava de ter sido a única jornalista mulher a trabalhar no jornal italiano L’ora, entre 1974 e 1990, e afirmava ter tirado mais de 600 mil fotos neste período. Sofreu ameaças, recebeu cartas anônimas, ligações intimidatórias e até mesmo agressões físicas durante esses anos, mas segundo ela própria, ao passar pela porta da sua casa para trabalhar, todo esse medo se esvaía, e ela se enchia de coragem para fazer o seu trabalho, pois “as fotos precisavam ser feitas”, disse ela.

Valorização da fotografia

O trabalho corajoso e necessário de Letizia Battaglia foi reconhecido por meio de prêmios de fotografia que ela recebeu no decorrer da sua carreira. Com destaque para o W. Eugene Smith, que recebeu em 1985, o Erich-Salomon Preis, conquistado em 2007, e o Cornell Capa Infinity Award, de 2009. Em 2016, Battaglia conseguiu alcançar uma grande conquista: fundou o Centro Internacional de Fotografia em Palermo, que reúne os arquivos fotográficos da cidade e realiza oficinas e exposições de fotografia.

Uma mulher além do tempo

Letizia era pioneira, feminista, engajada com a esquerda política, ambientalista e corajosa. Toda sua carreira foi pautada em contribuir culturalmente para a região siciliana, por isso fundou a editora Edizioni della Battaglia, centrada em poesia e literatura. Sua obra tinha um olhar para a tragédia diária, não com o propósito da violência como espetáculo, mesmo que muitas vezes as cenas fossem perturbadas, mas como denúncia social e um pedido de socorro para o resto do mundo, com as revelações impactantes que as fotografias faziam da máfia que controlava a região siciliana. A fotojornalista não tem seu trabalho limitado às fotografias relacionadas à máfia, mas também ao simples cotidiano das pessoas pobres no bairro de Palermo. As fotos de Letizia tinham o poder de tirar o véu da insensibilidade dos olhos e mostrar uma grande ferida social e humanitária que cenas cotidianas revelavam.

Uma luz que não se apaga

A causa da morte de Letizia Battaglia não foi revelada; ela já precisava de cadeira de rodas para se locomover, mas, de acordo com sua filha Ansa, ainda tinha muita sede de viver. A fotógrafa começou sua vida profissional aos 36 anos, quando saiu da casa do marido para viver sua vida com duas das três filhas do casal – vontade de viver e recomeçar não era problema para Letizia. Não se intimidou e não se calou perante às inúmeras ameaças, mas certamente se questionou sobre o que é seguro de vida e se não seria necessário investir em um. Mesmo assim, seguiu, construiu uma carreira brilhante, em uma época da vida que muitas mulheres acham que não dá mais para se refazerem. Divorciada, com filhos e cheia de coragem, Letizia Battaglia é um exemplo de mulher e ser humano que jamais deverá ser esquecido.