Negócios 9 meses atrás | Leo Saldanha

Uma banana para o mundo da arte

Uma criação controversa em um evento de arte recente trouxe reflexões que merecem uma análise em profundidade sobre o mundo da arte

por Revista FHOX

Por Leo Saldanha

A notícia nem é tão recente assim. Mas dado o estardalhaço da obra resolvi buscar outra ótica para abordar o tema. Imagino que você deve ter visto a banana presa em uma parede com uma fita silver tape. Batizada de Comedian, a peça é do artista italiano Maurizio Cattelan e foi exposta na Art Basel em Miami Beach. Nesse ponto, deixo a minha opinião mais para o fim e preferi destacar as opiniões de artigos respeitados. Pois como bem pontuou Umberto Eco: a nova imprensa talvez funcione melhor contextualizando a própria mídia em tempos de redes sociais.

Na minha pesquisa tentei responder três questões sobre esse fato:

1 – Comedian é arte?
2 – Quem comprou a obra queria esperava exatamente o quê?
3 – Qual a minha opinião sobre o assunto após responder as questões 1 e 2?

1 – Segundo esse artigo do Washington Post “sim, Comedian é arte”. Pois se estamos discutindo se é ou não é artístico o objetivo do autor foi alcançado. E aqui o batismo da “instalação” já antecipa o debate que também foi abordado pelo NYT. Comediante como nome é perfeito para um item que gerou tanta piada, discussões e sobretudo memes. Dominando a web e redes sociais nos dias seguintes ao evento. Gerou um grande questionamento com base na galhofa e nesse sentido teve muito sucesso. Comedian apareceu no mundo inteiro em canais de notícias, posts e nas rodas virtuais e presenciais dentro e fora dos círculos da arte. A resposta se é arte ou não é subjetiva como a própria matéria do WP diz. “O que é algo para mim talvez não seja para você”. Mas gosto da famosa frase muitas vezes usada junto com imagens do Banksy (lembra da jogada de marketing autodestrutiva do artista britânico algum tempo atrás?) “Art should Comfort the disturbed and disturb the Comforted”. 

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2 – A resposta da primeira pergunta também está na segunda. Eu fiquei mais curioso em saber quem comprou a banana de 120 mil dólares do que se era arte ou não. Agora, se alguém comprou não seria a comprovação de que temos uma clássica transação que torna Comedian elegível como obra de arte? Pois bem, matéria do The Star indica que um dos compradores foi um casal de Miami. Eles compraram por considerarem Comedian “icônico” e sobre as piadas disseram várias coisas que merecem nossa atenção: “quando Andy Warhol fez arte com latas de sopa as pessoas também caçoaram décadas atrás”. Hoje qualquer criação do expoente da Pop Art está na casa dos milhões de dólares. Nesse ponto devo destacar que o casal pretende emprestar Comedian para museus com a intenção de gerar fluxo e atrair os mais jovens para o mundo erudito. Depois os novos donos da banana deverão doar para algum museu. A intenção parece acertada. Comedian se destacou tanto que foi retirada antes do Art Basel Miami por roubar toda a cena do acervo exposto por lá. Selfies, fotos com caretas e muita “broma” com uma banana presa na parede chamada de comediante. Será que a piada também envolvia as pessoas posando em autorretratos?

3 – A princípio, sem saber dos pormenores, e sem me aprofundar no assunto, minha opinião era como a de muitos. Uma banana na parede mais parece uma piada. Na verdade ainda tem cara de pegadinha. A diferença é que agora noto outros pontos interessantes na “jogada” de Cattelan. Como a própria matéria do NYT coloca muito bem. Se estou questionando se é arte é porque é arte mesmo. A ideia fundamental de um certificado de autenticidade com um produto perecível é de uma genialidade única. Afinal, é o certificado que me dá a garantia de uso. Até então não tinha visto nada parecido por aí. O fato de ter que comprar outras bananas para repor a obra de arte (seguindo as recomendações do autor italiano) se encaixam bem no mundo das Stories, e na geração Snapchat ou nos posts que se perdem na linha do tempo ou que se autodestroem em questão de horas. O efêmero da nossa atualidade aplicado a galeria, ao museu e afins. Com a vantagem de ser uma instalação “super instagramável” para ficar no termo da vez. Foi por isso aliás que viralizou. Em outro artigo que li o questionamento é outro e não menos relevante: será que o marketing em tempo real perdeu a mão? Talvez sim, talvez não. Mas a julgar pelas repetições de memes de marcas de supermercado, de smartphones e todo tipo de produto, a sensação é um esgotamento do “marketing de emboscada”. O que segundo a publicação da Fast Company é fazer marketing pegando carona sim, mas que ficou confortável demais para as empresas. Vou entrar na onda só para não perder l momento. Contudo, se todos fazem piada sobre a mesma coisa qual é a graça mesmo?

No fim (e de novo) tudo faz me leva de volta ao início sobre o nome da obra de arte: Comediante. Uma comédia que se estendeu em textos como esse, em selfies e até no marketing. O grande chiste mesmo seria se os compradores da banana decidirem cobrar direitos autorais de todos que se aproveitaram dela da obra recém-adquirida. Arte que desconforta os confortáveis. 

Lembra do Banksy? Obra que quase se autodestruiu foi também uma belíssima jogada de marketing algum tempo atrás

O artista performático David Atuna coneu a banana na exibição da Art Basel Miami Beach. Tiragem de três peças

Richard Prince e “arte roubada” de fotos de outros Instagram? Qual o limite nessa era midiática?
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