Mercado 2 anos atrás | Mozart Mesquita

Por dentro da produção de vídeos

por Revista FHOX

A produtora de vídeos Roberta Tennenbaum foi entrevistada por Mozart Mesquita. O assunto é a alta das produções de vídeo e seus desdobramentos no dia a dia do segmento e complementa a “Matéria de Capa”, da edição 192 de FHOX. Acompanhe a seguir.

FHOX – Na sua visão, qual o impacto da produção em vídeo e filme nos dias de hoje na sociedade?

Roberta – A invasão estatisticamente comprovada em todo o mundo da comunicação por vídeo vem se dando de forma exponencial e acredito que estamos vivendo os anos-ápice. Em diversas etapas, desde a criação da imagem em movimento, a captação e exibição de vídeo foram-se democratizando e, hoje, essa é a característica mais encantadora do vídeo: ele é para todos.

A Lei da TV Paga (ou Lei 12.485) significou grande incentivo para a indústria audiovisual nacional: são mais de cinco anos de democratização do espaço para pequenas e médias produtoras que antes não tinham tanto acesso a grandes compradores de conteúdo. Nesse cenário de barateamento de custos e produções, é também preciso citar os smartphones e as produções para mídias sociais, mas acredito que o marketing de conteúdo das empresas e instituições é um dos grandes catalisadores do mercado de vídeo.

O vídeo do marketing de conteúdo otimiza incrivelmente engajamento, geração de leads e conversão de vendas. Textos publicitários são convertidos em segundos de roteiro em vídeo para aumentar a percepção de valor de produtos, ofertas, serviços e marcas, conferir autoridade, facilitar o entendimento e memória da mensagem, gerar emoção e identificação. Abster-se dessa ferramenta de comunicação hoje é arriscado para qualquer tipo de negócio ou causa.

Ainda estamos assistindo à mudança cultural do “conteúdo sob demanda”. A audiência não está mais à disposição do anunciante nos intervalos e o anunciante tem que ter algo relevante a dizer, se quiser falar com ela. A revolução pela qual passou o mercado publicitário como conhecíamos há menos de 15 anos segue efervescente e ainda veremos empresas caçando ferramentas para identificar e engajar segmentações de público. O vídeo de conteúdo segmentado é assistido como quem recebe um presente personificado: nos sentimos especiais, reconhecidos e gratos. Sentimo-

@ratofritz
Roberta Tennenbaum

nos olhados. A identificação com um discurso, com um grupo e, consequentemente, com uma marca, faz parte dessa nova jornada de compra. A audiência ativa e cada vez mais segmentada deixa o diálogo mais sólido e orgânico sobre assuntos pertinentes ao cotidiano, aos valores e aos sonhos de cada público.

 

FHOX – Qual é a tendência no vídeo?

Roberta – Já estamos assistindo a mudanças em facilidades para o giro de produção de um filme. Produtoras de vídeo estão fazendo o que era reservado às agências publicitárias há pouco tempo: de decisões estratégicas de campanha e briefing à escolha de plataformas e otimização SEO, estão se encarregando de encurtar a logística de entrega e se relacionando diretamente com o cliente final, as empresas.

Como tendência em captação, vejo os desdobramentos do que se deu até aqui: equipamentos menores com facilidades de operação, manuseio e workflow, sem sacrifícios na qualidade de imagem. Hoje ainda é preciso priorizar custo/tamanho/qualidade e considerar variáveis como qualidade ótica, tamanho de sensor, frame rate, definição, espaço de cor, etc. Como foi, por exemplo com o 3D, com o 4K, com as lentes anamórficas e com o HDR, a importância de cada tendência tecnológica é eleita de tempos em tempos pelo mercado fornecedor e consumidor em conjunto, mas sigo acreditando que, com mínima qualidade de imagem, com um bom roteiro e com verdade, pode-se fazer obras de arte.

 

FHOX – Como a senhora vê a competição entre as marcas, ainda mais como uma profissional que já trabalhou na Canon, na Nikon e circula em todas as outras marcas?

Roberta – Vivemos em um sistema capitalista e a competição entre fabricantes beneficia a corrida tecnológica e a gama de produtos disponíveis para consumo. Os fabricantes acabam decidindo as direções dessa corrida conforme resposta do mercado, cada vez mais exigente. Como existem segmentações no mercado audiovisual, hoje ainda temos cerca de dez marcas razoavelmente estabelecidas em seus espaços, mas arrisco dizer que uma amálgama tecnológica nos equipamentos cada vez mais flexíveis e multifacetados deve diminuir o número de fabricantes e fortalecer os sobreviventes.

 

FHOX – O que representa a chegada da 5D para o segmento?

Roberta – Em 2001, George Lucas anunciou que gravaria em digital todo o próximo filme “Star Wars – O Ataque dos Clones”. Havia tentado em 1999 (com “Start Wars – A Ameaça Fantasma”), mas Sony não conseguira entregar o produto a tempo. Dessa vez, Sony se juntou a Panavision e a câmera HDW-F900 seria “panavisada”. Apesar de não ter sido o primeiro filme gravado inteiramente em digital, esse foi um marco importante na era digital da cinematografia e apontou uma tendência irreversível e reafirmada nos anos que se seguiram. Sony e Panasonic disparavam em vendas de filmadoras digitais. O workflow e as produções de pequeno e médio porte tornaram-se mais baratas e acessíveis mas não se igualavam às câmeras de película no que diz respeito à linguagem cinematográfica e opções criativas. Não muito tempo depois, em 2008, outro marco era anunciado: a 5D Mark II com a função de vídeo em full HD, preço acessível, qualidade de imagem, corpinho robusto e ergonômico e muitas possibilidades de expressão narrativa devido à troca de lentes. O sucesso foi surpreendente para a própria fabricante, Canon. Nesses dez anos de fenômeno 5D, reconhecemos diversas fabricantes bebendo de sua fonte e indo além (Sony, Black Magic, Panasonic, Fuji, Red, etc.) e agradecemos a herança em agilidade e autonomia democratizadora.

 

FHOX – A inteligência artificial ajuda na área?

Roberta – A inteligência artificial, em termos gerais, ajuda na jornada do filme até seu público. O marketing de conteúdo precisa da segmentação para funcionar, para gerar leads qualificados e falar (conforme nos ensina premissas do Inbound Marketing) com as personas que buscam. Para isso, as plataformas oferecem uma mãozinha com sua inteligência de dados e tecnologia. O Facebook é um bom exemplo: consegue categorizar a audiência de forma milimétrica e tem até parceiros como Serasa para identificar perfil de consumo dos usuários. Os algoritmos tendem a ficar cada vez mais certeiros e devem nos conhecer melhor que nossos familiares (risos). A próxima discussão que deve ser implementada é sobre privacidade e ética desse uso de informações.

 

FHOX – Os fotógrafos não olham tanto para vídeo por acomodação? Perdem oportunidades? Trabalhar com filme é um caminho natural para fotógrafos?

Roberta – O vídeo é feito de, no mínimo, 24 fotografias por segundo (existem diversas taxas como 30, 60, 120 fps, etc.) e divide com ela diversos princípios e conceitos. Porém, a imagem estática e a em movimento têm diferenças estruturais em sua essência que devem ser consideradas antes de falar em acomodação e obsolescência de fotógrafos que não migraram. A discussão é velha, mas se atualiza à medida em que o mercado demanda do fotógrafo a linguagem do vídeo como ferramenta de trabalho em diversos mercados.

 

FHOX – A senhora vê de alguma forma prejuízo para a fotografia com o avanço da cultura do filme?

Roberta – Não entendo essa coexistência como competitiva e não acho que a fotografia vai morrer. Acredito, porém, que a cultura do filme acaba por nos fazer mais preguiçosos quanto ao nosso olhar, por a fotografia permitir leituras que o vídeo, na grande parte das vezes, te mastigou e limitou em sua narrativa visual.