Mercado 2 meses atrás | Redação

O Mercado pergunta, a FHOX responde

Seguindo o exemplo da centésima edição, FHOX inverte os papéis e responde questões de expoentes da fotografia profissional brasileira.

por Revista FHOX

Dizem que o importante não são as respostas, mas sim fazer as perguntas certas. Nesta edição especial que atinge o número 200, isso é posto efetivamente em prática. FHOX recebeu perguntas de diferentes figuras do cenário fotográfico, sobre quais são suas perspectivas para o mercado. As respostas foram submetidas aos irmãos e sócios que conduzem o Grupo FHOX, Mozart Mesquita e Leo Saldanha. Ensino, laboratórios, casamento, formaturas, newborn e família, distribuição, revenda e indústria, passado, presente e futuro do mercado fotográfico brasileiro foram abordados nas perguntas a seguir.

A ideia deste perfil segue o modelo da edição nº 100, onde importantes agentes do mercado naquele momento, novembro de 2005, também questionaram a FHOX em um período de muitas
dúvidas, mas cheio de oportunidades.

Cem edições atrás o mundo era um pouco diferente: o Orkut era a rede social predileta; o celular que todos queriam ter era um Nokia e a seleção brasileira, que se preparava para a copa da Alemanha, destacava-se como franca favorita. Na fotografia, digital ainda era novidade e fotografia analógica um negócio relevante. Câmeras compactas e lojas de fotografia tinham outro status, assim como a fotografia em si, já que Instagram estava longe de ser criado e celular com câmera era um conceito em desenvolvimento.

Porém, ao comparar as perguntas feitas para a FHOX naquele momento e agora, percebe-se que empresários, executivos e fotógrafos continuam motivados e apaixonados pelo que fazem. Suas perguntas, como as de 14 anos atrás, refletem o instigante momento de mudanças que vivemos e denotam um mercado mais maduro e preparado para se adaptar, que afinal é a única possibilidade de perseverar. Leia a seguir um pouco das dúvidas e questões que povoam o imaginário do mercado fotográfico brasileiro no momento atual e as respostas que estão ao alcance de FHOX.

Arq. Pessoal

Cristian de Lima, sócio da Go image – Qual a ideia ou produto disruptivo na área da impressão?

FHOX – É difícil prever algo disruptivo na área de impressão. Mas parece claro um avanço na personalização. Sobretudo nas possibilidades de aplicações direto na foto, com um avanço maior na área gráfica. Contudo, a Fujifilm mostra que os investimentos em papel fotográfico seguem firmes e fortes e com resultados surpreendentes. A grande questão é se a adesão do mercado para um papel fotográfico mais em conta, com qualidade e que pode competir com o gráfico fará sucesso entre os laboratórios e lojas de foto mundo afora.

Na parte de labs pro e encadernadoras, a personalização vai depender da criatividade e de tentar criar produtos ainda mais diferenciados seja na embalagem, ou nos formatos de produtos impressos. Isso é importante para os fotógrafos e estúdios, pois assim eles conseguem se diferenciar e cobrar mais. No fim, são esses profissionais que vão puxar essa revolução, os fornecedores, indústria, labs e todos nós teremos que nos adequar a essa realidade. O mais do mesmo na impressão só leva à guerra de preços. Resumindo: é uma combinação de esforços de quem fabrica, de quem imprime e de quem vende para o consumidor final.

FHOXArq. Pessoal

Douglas Cho, CEO da BM Works – Como conscientizar os mercados fotográfico e gráfico da importância e necessidade da impressão no papel nos próximos anos?

FHOX – Terá que ser frequente e de consistência, devendo ter o envolvimento de todos nós: indústria, lojas, estúdios, empresas de foto de formatura, fotógrafos e eventos. Fazemos isso ou a foto no papel perderá força.Recentemente até a novela da Globo questionou o álbum impresso. E o mais surpreendente é que foi na abordagem do fotógrafo, onde ele afirmava que o álbum não faz mais sentido, que não é popular. Uma defesa meio estranha. Entretanto, a personagem de Juliana Paes disse que era das antigas e fazia questão de folhear. Causou comoção e uma grande polêmica nos inúmeros grupos de WhatsApp de fotógrafos brasileiros.

O que nós fazemos sempre é mostrar esse valor. Seja no Movimento Imprimir, nos eventos e em matérias. É trabalho de formiguinha. Sem papel o mercado, como conhecemos, pode sumir. Isso acarreta em perda de valor em todas as etapas do ramo fotográfico. O álbum e a foto impressa justificam e completam o valor. Ajudam a valorizar a experiência.

JOZZU

Luciano Souza, proprietário da Viacolor A FHOX, nesses 30 anos, passou por várias fases: do analógico para o digital, o momento de vendas de equipamentos, a força da Noritsu. Várias empresas chegaram. Saímos de fotos impressas para os álbuns, e minha pergunta é: como a FHOX vê os próximos anos de fotografia no Brasil?

FHOX – É uma pergunta instigante. De um lado temos um mercado que segue se transformando, com mais competição e que muitas vezes leva à guerra de preços e a comoditização. Por outro viés, existem novas possibilidades de personalização e de venda de experiências. Algo que envolve tanto o produto quanto a entrega, e a própria sessão em si.

O Brasil não é uma bolha e não atua fechado ao que ocorre lá fora. Existem pressões fortes
na indústria de câmeras, no avanço dos consumidores com smartphones (cada vez melhores) e na falta de interesse pela impressão. Alguns desafios envolvem a chegada dos serviços estilo Uber de fotógrafo (já atuante no Brasil). Caso da Meero, que vai entrar em casamentos e eventos sociais. Isso pode ajudar ou prejudicar. Depende da atuação de todos nós e da adesão dos consumidores.

A grande questão é se os avanços de inteligência artificial vão automatizar a cobertura de eventos com drones inteligentes a ponto de colocar em risco o trabalho do profissional. O que não vai acabar é o interesse pela fotografia. Na parte de impressão, inegável é o avanço do gráfico. E a qualidade avança junto. As marcas gráficas estão mais presentes e as gráficas rápidas (e até grandes e que não estavam na fotografia) passaram a olhar para esse mercado. Para o papel fotográfico será um grande desafio.

FHOX

Luciana Leite, Executiva da Hahnemühle – Uma pergunta que ouvimos constantemente é: “como gerar valor com minhas fotografias?“. O que um fotógrafo profissional deve analisar ao colocar valor na sua obra?

FHOX – Primeiro, ele precisa entender a importância do impresso. Sem colocar a foto no papel não existe forma de valorizar. A personificação da obra é nesse caminho. E a maneira de justificar os valores cobrados. Sem falar no jeito certo de perpetuar memórias. Em papel fine art, então, pode durar 200 anos ou mais. Para entender esse valor o fotógrafo precisa conhecer os diferentes substratos e conhecer as possibilidades de produtos. Esse papel é da indústria, da FHOX e dos printers e labs. Já o fotógrafo tem que entender de uma vez por todas que tudo que é digital tende ao valor zero. A foto só é foto quando impressa.

JOZZU

Mana Golo, fotógrafa – Qual a importância das relações não formais e das redes sociais no mercado de fotografia hoje?

FHOX – Em nossa visão, relação não formal é troca de experiências no mundo real. E as redes sociais e suas plataformas são o oposto. Curioso é que no mercado muita gente gosta de separar um do outro: se estou muito on-line não posso ser bom no mundo real. E vice-versa. Quando na verdade não são excludentes. O ideal é trabalhar bem os dois. Até porque, os consumidores, e todos nós, estão conectados o tempo inteiro. Temos smartphones no bolso que nos permitem cotar, conversar e reagir em tempo real. Essa dinâmica é distinta e um tanto recente. E com o 5G vai ficar ainda mais estonteante. Já que teremos uma velocidade de conexão absurda.

O Brasil é um dos países que mais consome redes sociais no mundo. E parece que a relação de olhar no olho se perdeu. O que na fotografia é curioso, já que fotografar – e quase tudo em nosso mercado – é feito de forma analógica. Desde tocar fotos até clicar. De levar um casal para um ensaio e até enviar um arquivo para imprimir na impressora. A fotografia é uma experiência do mundo real. Só não podemos esquecer disso.

Arq. Pessoal

Celso Modeneze, designer de álbuns – Recentemente vocês fizeram um redesign no layout da revista e também na marca da FHOX. Como foi esse processo? O quão importante foi o design nos projetos institucionais até aqui para a editora? Os profissionais do mercado fotográfico, na opinião de vocês, estão sentindo, cada vez mais, a necessidade de valorizar sua identidade visual, sua entrega e o design dos seus álbuns?

FHOX – A renovação visual da FHOX foi importante. De tempos em tempos é fundamental renovarmos aspectos visuais de qualquer produto. Não poderia ser diferente com a FHOX. Em 30 anos de revista, o visual e a diagramação passaram por ajustes (leves e outros mais profundos). O trabalho de Vanuza Amarante, responsável pela repaginação, ajudou muito a dar o enfoque, equilibrando conteúdo e forma. Algo importante, sobretudo, em uma publicação de imagem.

Vale dizer que agora a FHOX está integrada tanto no conteúdo digital quanto impresso. Não fazemos mais distinção entre as matérias. Ambas estão indo para os dois canais. O que ocorre é que o site conta com um modelo de acesso paywall. Isso está mudando nossa forma de criar conteúdos e nos relacionarmos com os leitores. Importante destacar que muitos também estão preferindo assinatura digital.

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Alexandre Urch, fotógrafo – A fotografia como nasceu não existe mais, trocamos a beleza do papel pela frieza das telas. Então, qual o real destino da fotografia e de tudo que gira em torno dela?

FHOX – Hoje, já são quase 6 bilhões de smartphones no mundo. São mais aparelhos do que escovas de dente, com espaço para mais câmeras e telas. Em um futuro (2020) que o 5G oferece internet super-rápida e presente em quase tudo a nossa volta, dizer que nunca se fotografou tanto e que nunca tivemos tanta gente interessada em fotografia é jargão. Na verdade, proporcionalmente se imprime mais no mundo todo. O que ocorreu é que a base instalada de pessoas clicando cresceu em uma velocidade alucinante. A estimativa é de que 10% das pessoas com smartphone querem e vão imprimir fotos. Estamos falando de 600 milhões de pessoas no mundo todo. No Brasil, esse dado é de 20 milhões de brasileiros.

Em nosso entendimento, a fotografia impressa não vai sumir. Ela vai seguir se transformando. Se comparado com 10 ou 20 anos, hoje as variações de aplicações mudaram de forma completa. As ofertas de impressão se sofisticaram e surgiram serviços voltados para usuários de smartphone e das redes sociais. Uma empresa da Alemanha cresce anualmente imprimindo só photobooks via WhatsApp. No ano passado imprimiram 50 mil álbuns. Por aqui, alguns dos maiores laboratórios (on-line).

Arq. Pessoal

Thales Trigo, professor e dono da Escola Contraste – A fotografia e outras artes estão sendo ensinadas através das mídias sociais como o YouTube e Facebook. Vocês acham que esses métodos de ensino podem suprir as demandas do mercado, no que diz respeito à qualidade do trabalho?

FHOX – A verdade é que existe muito conteúdo de tutoriais, testes e guias de como fotografar e criar na internet. De gambiarras à técnicas, tudo vai depender da vontade de quem assiste e de testar na realidade. A geração Z que está aí é PHD em Google e isso impacta o ensino e a formação da fotografia. Ficou mais rápido e fácil aprender. Ficou mais difícil e delicado ter uma assinatura própria e aprender a conduta profissional, porque isso não se ensina na internet. Só não dá para negar a importância da internet no ensino. De certa forma é por isso que cursos on-line pagos estão sofrendo aqui e lá fora. Tem muito conteúdo bom de graça. E muito conteúdo pago ruim. Curioso não?

Arq. Pessoal

Laura Alzueta, fotógrafa de família e newborn – Nos últimos anos, vimos o surgimento de um mercado novo, o de famílias, onde se incluem os fotógrafos de gestante, bebês e newborn. Vocês notam uma tendência de crescimento por especialização em uma das áreas, ou o fotógrafo está cada vez mais completo e abrange a fotografia de família como um todo?

FHOX – Em nossa visão, vai ter espaço para os dois. Com a crise estendida, ser muito nichado não é saudável. Logo, ser fotógrafo da família parece mais salutar. O profissional que é da família pode fazer um pouco de tudo e atuar em diferentes momentos daquela história familiar. Estendemos até para o fotógrafo de casamento. Ele bem que poderia fazer newborn também. Aliás, na Austrália e EUA muitos fotógrafos têm ido por esse caminho. O que faz sentido, pois a família começa no casamento e dali parte para gestante, parto e newborn. Um cliente “família” rende muito ao longo de muitos anos. O desafio é conseguir conquistar a confiança e ser o fotógrafo da família.

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Michel Bruce, empresário de foto de formatura e presidente da ABEFORM – Com o aumento de 8 milhões de estudantes no ensino superior até 2024 e a mudança no perfil do formando, nosso mercado estará preparado para esse novo momento?

FHOX – Boa pergunta. Talvez não. É visível a transformação que o mercado de formaturas passou nos últimos anos. Com aprimoramento do estilo fotográfico, aposta maior em formatos de vendas mais saudáveis e melhoria de processos e produtos. Muitas das práticas que eram tão comuns no passado entraram em questionamento. Para atender esse salto no número de concluintes as empresas terão que se aperfeiçoar ainda mais. Não é difícil imaginar o crescimento das melhores operações do setor e a entrada de mais marcas para atender esse avanço. O que traz uma oportunidade para os empresários. Um tempo de respiro que vai de agora (em plena crise estendida) até o fim do ano que vem. Tudo indica uma retomada dos negócios e do aquecimento da economia brasileira. Mais estudantes, mais instituições e possibilidades de serviços e aplicações. Uma grande transformação parece inevitável nas alterações tecnológicas que passam desde o atendimento até avanços de serviços tipo de Uber de fotografia para servir o mercado de formatura.

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Tchô Moioli, proprietário da Fotolab – Na curva de aprendizagem sobre a importância da memória impressa, em que estágio está o consumidor de fotografia no Brasil?

FHOX – Nossa percepção é que está em fase de retomada de impressão. Ainda tímida se pensarmos no potencial total, já que temos mais smartphones do que habitantes. Não é uma confirmação com base em estatística. Mas, nos inúmeros contatos da FHOX em eventos e em grupos de redes sociais, a sensação geral é de que os consumidores finais estão retomando a impressão.

Aqui perto da FHOX havia uma loja de foto que fechou e, por algum tempo, ficamos sem serviço na área. Hoje há uma papelaria na frente, uma ótica com quiosque e um fotógrafo que abriu loja de foto e recebe pedidos via WhatsApp. Atualmente, 80% (talvez mais) dos pedidos vem via smartphone e quase sempre via WhatsApp para 10 por 15. Uma loja de Osasco, participante da Escola de Negócios FHOX, passou a cobrar 4 reais pela 10 por 15. Isso porque o consumidor perdeu a referência de valores. Foram os lojistas que acostumaram mal os valores mínimos.

Aliás, algo que agora parece assolar os labs pro na guerra de preços pelo fotógrafo. A nossa sensação é de que o estágio é de reaprendizado. Reaprendendo a imprimir. Tanto de jovens e até de famílias que estão sem espaço na nuvem. Já os fotógrafos entusiastas e profissionais estão em caminhos distintos. De um lado, fotógrafos cedendo a clientes que querem só arquivos digitais. Cedem para poder cobrar menos e para não perder a venda. Esse parece ser um consumo avulso de oportunidade. Algo que quebra um elo importante e que vai impactar o próprio profissional. Pois, cobrando pouco, nem consegue pagar suas contas. Impacta toda a cadeia e por isso acaba com o mercado. Os entusiastas valorizam e querem imprimir. Gostam de fotografar e ver suas fotos no papel. É por isso que o fotoclubismo vai bem no Brasil.

Tchô – Os laboratórios fotográficos já são valorizados como um serviço de relevância ou
a oferta de serviços on-line em papel couchê mais barato atendem esta demanda e fragilizam este segmento?

FHOX – Evoluiu, mas ainda falta muito. Os serviços on-line se posicionaram logo no começo nos portais e principais sites de varejo on-line do Brasil. Isso fez toda a diferença no posicionamento da marca no País. Contudo, os labs de várias partes do Brasil conseguiram finalmente romper essa barreira digital e estão operando muito mais conectados. Isso quer dizer: de poder enviar o serviço e acessar uma plataforma on-line.

Por outro lado, uma parte dos fotógrafos prefere um lab pro ou encadernadora pelo atendimento personalista. De poder ir, visitar, conversar e conhecer. Existe espaço para os dois. E o mesmo cliente que está em um lado poderia passar para a outra ponta. Tudo vai depender do momento da carreira e perfil do profissional. Não tem um formato absoluto. O que está claro é que as encadernadoras que estavam muito offline, estão se conectando. E, na outra ponta, vemos grandes serviços on-line partindo para atendimentos e pontos de coleta físicos. Tudo é muito dinâmico.

A única certeza é de que a concorrência não vai diminuir e a guerra de preços (essa sim, preocupante) vai continuar acontecendo nesse mercado. Lembrando que tínhamos 1.200 encadernadoras até alguns anos atrás. Hoje são mil. As bem pequenas que muitas vezes atendem demandas internas de loja-estúdio vão seguir atuando de forma micro e super localizadas. O que parece certo é que teremos mais fusões, aquisições e enxugamento nos próximos anos.