Negócios 2 anos atrás | Regina Sinibaldi

Fotografia no papel é para sempre

Fotógrafos, consumidores finais, laboratórios profissionais e alguns dos principais agentes da indústria falam sobre a importância da fotografia impressa. Quase todos concordam: sem foto no papel não existe ramo fotográfico

por Revista FHOX
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Foto: Fer Cesar

A chegada do sinal digital para tevê aberta abriu os horizontes do empresário Claudio Cardoso, em Lagarto (SE). Ele prepara um comercial de incentivo à impressão de fotos na emissora local. “Não fiz antes porque as pessoas utilizavam antenas parabólicas que veiculavam apenas propagandas do Rio e São Paulo”, diz o dono do laboratório Claucolor, que presta serviços a profissionais da fotografia e ao público em geral. “Vejo empresas do segmento na Europa imprimindo mais. Por aqui houve certa acomodação da indústria, dos lojistas; deveríamos ter feito algo a mais para facilitar a revelação de fotos. Quero resgatar esse público”, diz, confiante de suas próximas ações de fomento ao mercado.

Para quem é ‘novinho’ na área pode ser que desconheça o quanto Fujifilm e Kodak investiram em campanhas publicitárias, algumas veiculadas em televisão, para incentivar as pessoas a fotografar (na época era esse o desafio). Hoje a mensagem é motivá-las a revelar suas fotos, a tirar da mídia digital e passar para o papel, seja fotográfico (fotossensível), gráfico (cuchê) ou térmico. Flávio Gomes, que foi diretor da Kodak para América Latina por vários anos, comenta que a marca investia bastante em pesquisas de mercado para entender os hábitos do consumidor durante a era do filme e o advento da tecnologia digital. Quem se lembra do comercial bem-humorado, de 2005 (não faz tanto tempo assim), em que uma noiva e sua mãe invadem um casamento para aproveitar os personagens e tirar as fotos que não foram feitas quando a filha casou? Foi um sucesso, a melhor campanha da Kodak no Brasil de todos os tempos, segundo o instituto de pesquisas Millward Brown. “Talvez pela veia do humor encontremos o caminho para incentivar as pessoas a imprimir fotos, uma campanha viral no Youtube, por exemplo”, diz Gomes, que hoje é um dos diretores da Logitech para América Latina e se inspira em muitas experiências de marketing do mercado fotográfico para atingir suas estratégias.

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Ninguém sabe ao certo quantos cliques acontecem diariamente, muitos gerados nos mais de 150 milhões de smartphones no País. O consultor independente do mercado fotográfico calcula 70 bilhões de cliques por ano no Brasil. “Cheguei a este número porque historicamente o mercado brasileiro são 10% do norte-americano.” Em sua visão, o compartilhamento fácil das imagens inibe a impressão de foto. Do lado da fotografia profissional, ele lembra que os laboratórios “criavam” os novos fotógrafos no passado. Hoje muitos profissionais não têm ideia dos processos envolvidos na impressão. “É preciso criar mecanismos para trazer os fotógrafos ao laboratório.”

Para o consumidor, a impressão de foto pode ser um embaraço, como no caso da engenheira de alimentos Bete Cunha que sempre curtiu fotografia. Ela considera muito trabalhoso selecionar as imagens, o tamanho, para imprimi-las. Mesmo assim, ela escolhe algumas cujo destino são álbuns e porta-retratos. Perguntada se frequenta uma loja de foto, ela diz: “Na verdade não conheço loja de foto. Geralmente vou a um centro de impressão digital. Não gosto das estações de impressão, máquinas self service, pois não obtive resultados bons em todos os casos, acho deficientes os tipos de papéis e não possuem porta-retratos de boa qualidade; acabo indo a lojas de decoração. Se eu conseguisse uma impressora doméstica para foto boa e preço convidativo, eu preferiria, pois assim posso ver na hora a imagem no papel. A segunda etapa seria aprender a tratar as fotos antes da impressão”.

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Moradora da capital paulista, que já chegou a ter mais de 400 lojas de foto, Bete conta que uma colega de academia falou sobre uma maneira prática de fazer álbuns pelo computador. Mas, como boa engenheira, pondera: “Ainda não vi o resultado no papel e sou um pouco reticente em trabalhar via internet com empresas que não conheço”.

Parece que pesquisas de mercado feitas por lojas, laboratórios, indústria e outros agentes no segmento andam escassas de fato para entender o comportamento do consumidor e suas motivações para imprimir uma foto. Na outra ponta que também alimenta os equipamentos de impressão estão os fotógrafos, em sua grande maioria atuando no segmento fotografia social.

Faz tempinho que o mercado detectou a prática de o fotógrafo novato oferecer a reportagem do evento (casamento, 15 anos, etc.) desacompanhada do álbum encadernado na ânsia de competir pelo preço com profissionais já estabelecidos. Fica a critério do cliente fazê-lo (ou não) após o recebimento das imagens em alta resolução em uma mídia digital. O que acontece na grande maioria dos casos é que o cliente não volta para encomendar o álbum. Muitos deles preferem imprimir parte das imagens do evento por conta própria.

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“Isso acontece com frequência”, diz Wagner Gomes, dono do laboratório Star Fotos, em Castro (PR). Ele constata que os pedidos de impressão de um mesmo evento vêm crescendo, principalmente nos tamanhos 15 por 21 cm e 20 por 25 cm, os preferidos do fotógrafo na entrega das imagens em alta no DVD ou pen drive. “Geralmente são 60, 70 fotos por pedido e a gente vê pela sequência que se trata de um casamento, por exemplo”, diz. No balcão da loja, Gomes se concentra em divulgar os photo books feitos na hora. A tecnologia utilizada é Fujifilm. A receita está funcionando, pois ele adquiriu mais uma estação que entrou em operação em agosto. Para incentivar as vendas de photo book, os atendentes recebem comissão. Também está nos planos do dirigente investir em uma solução gráfica para os grandes volumes de impressão que o laboratório recebe. “Assim terei mais uma opção, além do papel fotográfico”, conta.

Mas a prática de entregar reportagens fotográficas em mídia digital não é mais exclusiva dos “entrantes”. Estúdios e fotógrafos renomados pelo País aderem a ela com receio de o cliente ir para o concorrente. Os argumentos da importância do álbum como documento para as famílias, o risco de perda das imagens armazenadas no computador ou pen drive, parecem surtir pouco no cliente.

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“É evidente que há uma preocupação com a oferta dos serviços dos fotógrafos em arquivos digitais e com a necessidade de educá-los e orientá-los a ganhar mais e agregar valor a seu trabalho, incluindo o álbum e demais serviços em seus portfólios. Essa orientação deve começar pelos palestrantes em inúmeras convenções por todo o Brasil, orientando como vender, aumentar o tíquete médio de cada reportagem e ainda valorizar a profissão fotógrafo. Outra opção seria uma campanha com todos os envolvidos, indústria de equipamentos e insumos para impressão e encadernação, encadernadoras, fotógrafos, a ser veiculada por mídias sociais e pela FHOX”, defende Valdir Padovan, gerente de Negócios da Colorkit.

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Sobre photo book, Padovan tem a opinião de que não há incentivo para o consumidor fazer um, à exceção de algumas empresas que vendem pela internet. “O varejo não é orientado sobre este produto. Como vender? Como fazer? Onde fazer? Quanto cobrar? Nas feiras fora do mercado fotográfico em que participo, são as perguntas que mais ouço e podem estar certos de que são vários lojistas que se interessam e querem entrar nesse mercado.” Soluções de equipamentos existem, como as encadernadoras automáticas Easybook 50 e Probook 50, da Colorkit.

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Profox em Brasília. Um dos melhores do Brasil

“Nossa maior contribuição ao fotógrafo profissional vem da realização de eventos educacionais, como o Profox Conference, que em dois dias apresenta cases de sucesso para inspirar quem chega ao mercado e quem já está estabelecido. É preciso educar o fotógrafo a entregar o seu trabalho em produto; o álbum é a maior propaganda dele, uma divulgação espontânea de grande força”, diz Rodolpho Domiciano, do laboratório Profox. Uma demanda crescente por lá são os álbuns newborn.

Na experiência diária com fotógrafos, Tchô Moioli, do Fotolab Álbuns (www.fotolabalbuns.com.br), conta que eles ficam desapontados quando o casal insiste em não ter álbuns impressos. “Perdem uma fonte de renda complementar, porque é mais fácil colocar um sobrevalor no custo de produção do álbum incluindo a diagramação. Outro aspecto é ter a sensação de entregar o trabalho incompleto. Parte importante da personalidade do trabalho do fotógrafo está no jeito de entregar os produtos. Sem o maior deles, ‘o álbum’, restam apenas o pen drive e possíveis pequenos mimos para não deixar passar em branco. A força de marketing de um belo álbum é insubstituível”, observa.

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No Fotolab Álbuns, a estratégia principal para ajudar os fotógrafos nessa batalha pela venda do álbum é ‘topar’ a personalização de cada álbum. “Criamos nossos modelos de álbuns e acabamentos superantenados com o gosto dos fotógrafos e seus clientes, mas estamos 100% abertos a dar um toque especial para as noivas. Muitas vezes saio atrás de fornecedores para conseguir um material específico para atender a um desejo. Saio à luta para resolver aquela questão como se eu fosse o fotógrafo, aproveitando que em São Paulo achamos qualquer coisa. Fidelizamos muito o fotógrafo quando ele percebe que pode contar comigo para estes desafios.”

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Tchô Moioli da Fotolab Ábluns

Nesse esforço de trazer opções para o segmento, Moioli introduziu no País os produtos da Positiv, descobriu soluções para um vinco mais benfeito, bem como lançou o paspatur panorâmico inspirado em encadernadoras da Austrália, Nova Zelândia. Outro ponto que ele destaca de sua empresa é o cuidado com os equipamentos. “Mantemos todos eles muito bem calibrados, com contratos de manutenção preventiva para tudo que temos de importante aqui. E continuo com o mesmo pensamento: reclamação de cliente é consultoria gratuita. Procuro ficar o mais próximo possível dos nossos clientes”, acrescenta.

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Showroom da Konica Minolta em São Paulo

Há mais de 16 anos no mercado fotográfico sendo os dois últimos na Konica Minolta, o executivo de Contas Ronaldo Pereira acredita na influência do produto impresso na vida das pessoas. “Ainda que as fotos sejam capturadas via digital, elas gostam de expor seus momentos, mostrar a amigos, usar como itens de decoração. É aí que entra a impressão que deve oferecer máxima qualidade e cor, definição e durabilidade para que o momento estampado no papel reflita a importância que tem. O crescimento do mercado de fotoprodutos em geral e fotoálbuns expressa justamente isso”, diz.

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Ronaldo Pereira da Konica Minolta

No varejo fotográfico, Pereira detecta dois perfis de lojistas: o tradicional que migra para o digital e o que já iniciou no digital ou que veio de outros segmentos de impressão para a fotografia. “Para os dois, a Konica Minolta prima por uma venda consultiva. Nosso carro-chefe na fotografia é a bizhub PRESS C71hc e seu portfólio de acessórios. Fazemos demonstrações dos recursos de nossas soluções, bem como apresentação de variedades de serviços e produtos, incluindo aplicações em mídias especiais”, detalha. Em sua avaliação, o mercado destrincha as possibilidades de impressão digital que tem dois itens fundamentais: qualidade e cor e a possibilidade de personalização e impressão unitária. Para o lojista é interessante notar o aumento da qualidade e a queda do preço por impressão, o que permite retorno mais rápido do seu investimento.

Facebook e computador são os principais “álbuns” da auxiliar administrativa Rosangela dos Santos, em São Paulo. Ela admite que precisa criar o hábito de revelar mais fotos, até porque se arrepende de não ter mais de seus dois filhos. Agora esperando o terceiro, a expectativa é fotografar e revelar as imagens. “Geralmente levo os arquivos em uma gráfica perto do escritório onde trabalho. Peço no tamanho 10 por 15 cm. Acho o preço razoável”, diz. Interessante é que ela cresceu vendo a mãe montando os álbuns da família. “Ela adora e tem fotos de todo mundo”, conta.

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O jovem Fernando Dai Prá apresenta-se como fotógrafo social em Caxias do Sul (RS) há dois anos. No primeiro ano, 2015, fez quatro casamentos; no ano seguinte, 11; e deve fechar 2017 com mais de 20. Uma de suas estratégias na venda do álbum é contar aos clientes histórias de sua família, como por exemplo, o dia em que sua avó pegou o álbum de fotografias para mostrar a ele, um garoto, o tempo em que era jovem, os integrantes da família, o que se usava, etc. “A fotografia é uma joia, porque marca uma época”, diz. Em sua tabela de preços, a diferença da reportagem sem álbum é pequena, outro fator decisivo na escolha do cliente. Prá é daqueles que trabalham muito. Inspira-se nos paulistanos que acordam cedo e voltam tarde para casa, após uma jornada de trabalho extensa. “Chego cedo ao escritório para estudar, aprender sobre marketing digital, gestão.” Outro diferencial seu é um portfólio de álbuns variado. Isso ajuda a encantar os clientes. Em sua região, ele observa, está acontecendo uma evasão de profissionais. “O fotógrafo precisa entender que primeiro ele tem de ser empreendedor. É fascinante o que os irmãos Vanassi, criadores do Fotologia, estão fazendo nesse sentido. O mercado da fotografia está mudando”, diz, empolgado. Também o programa do laboratório Viacolor de visitar e orientar os profissionais contribui para a valorização da fotografia. “Mas alguns não aceitam orientações por causa do ego”, finaliza.

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A Digipix Pro é uma das que utilizam o Youtube para reforçar a importância da foto no papel. Recentemente a empresa desenvolveu os vídeos “Ah, não precisa imprimir”, uma peça bem-humorada, e “Foto no papel. Para quem ama foto”, que servem para fotógrafos divulgarem e sensibilizarem seus clientes. “Também trazemos conteúdo relevante para contribuir com o desenvolvimento do mercado, tanto em eventos presenciais, como o Digipix Day, quanto produzindo materiais on-line. Este ano, nossos clientes estão acompanhando vídeos publicados no nosso site e no Youtube sobre marketing e negócios, além de dicas para captura, tratamento e impressão, estas últimas com Clicio Barroso”, detalha a gerente de Marketing, Manoela Giacomini.

As duas âncoras do papel fotográfico:

Por Leopoldo Saldanha e Mozart Mesquita

Fujifilm e Kodak Alaris seguem como as principais marcas a liderar o mercado fotográfico quando o assunto é impressão em haleto de prata. A Fujifilm lançou um robusto projeto de valorização da impressão. “Nossa gama de atuação tem alguns pilares: um é o ambiente profissional com o Original Lab, que não mira só o laboratório, mas todos os pontos da cadeia, motivando os profissionais para que possam satisfazer o consumidor final. Outro pilar são os quiosques de autoatendimento voltados ao consumidor, que têm tem crescido. E também o incentivo para empresas de atuação on-line e lojistas a oferecer produtos de alto valor agregado. Não podemos esquecer a Instax, que é um sistema completo de fotografia voltado ao consumidor que já tem sua impressão no próprio momento da captura”, diz Emerson Stein, diretor da Divisão de Imagem da Fujifilm.

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Já a Kodak Alaris investiu pesado nos últimos dois anos no app Kodak Moments. Isso tanto aqui quanto lá fora. A novidade foi a ampliação da oferta de serviços e produtos dentro da ferramenta. Fotopresentes e outras opções de produtos impressos surgiram. A adesão dos lojistas ocorreu, mas muitos não aderiram por bloqueios que mostram falta de conhecimento ou restrições de custos. A opção de entrega na casa do cliente também foi recebida com certa desconfiança, já que de certa forma é um concorrente da opção de buscar na loja. Na parte profissional a empresa lançou a parceria com a Kouritsu. E a aliança foi bem recebida. Diversos labs já aderiram e estão satisfeitos com o serviço da parceira da Kodak Alaris.

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O avanço dos equipamentos gráficos traz grande desafio para o papel fotográfico, já que a demanda pela mídia gráfica deve crescer. Ainda mais com “players” como Konica Minolta, HP Indigo, Xerox, Canon, investindo pesado em novas opções e tecnologias. O fato é que a disputa segue com tudo, grandes operações atuando com as duas tecnologias (gráfica e fotográfica). Alguns dos principais laboratórios já operam com mais da metade da produção em impressão gráfica. O enfraquecimento da Noritsu (que ainda atua lá fora) é um ponto crucial. A Fujifilm fez um acordo mundial com a marca porque o parque instalado em diversos países ainda é muito grande. Só é difícil imaginar como será daqui para frente. Será que vêm equipamentos (minilabs digitais) com algum tipo de novidade? A resposta para isso pode indicar o caminho e o futuro do papel fotográfico no mundo.

Matéria de capa da edição 189 da FHOX.