Formatura 3 anos atrás | Regina Sinibaldi

(In)certezas que rondam as formaturas

Segmento é afetado pelas mudanças recentes no ensino superior.

por Revista FHOX

Por Regina Sinibaldi

Indicadores da educação superior no Brasil mais recentes elaborados pelo MEC/Inep trazem algumas constatações importantes para empresas de formatura. A primeira delas é que nos últimos dez anos (2006-2016) o número de matrículas em cursos de graduação cresceu 62,8% a uma taxa média anual de 4,9%, porém, no período 2015-2016, o crescimento foi de apenas 0,2%. Isso pode apontar para uma estabilidade. Na mesma década, o ensino a distância (EAD) vem aumentando de participação; em 2016 já abocanhava 18,6% dos alunos de graduação.

“Formandos pelo EAD costumam não participar dos eventos oficiais e isso é uma dificuldade para as empresas, embora sejam potenciais compradores do álbum pelo sistema on-line, pois vivem nesse ambiente”, observa Murilo Afonso Marques de Oliveira, da M3R, em Bauru (SP).

“Com a entrada forte do EAD vou fazer formaturas unificadas para compensar o tamanho das turmas”, diz Hélder Carvalho, do Studio C, em Garanhuns (PE). Em sua região houve grande evasão de alunos em razão da não renovação do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e da perda de renda de suas famílias, obrigando-os a desistir do curso superior, já que perderam a bolsa de estudo. “Cheguei a ter 60% de desistência por causa do Fies, eles saíram e deixaram um buraco nas formaturas futuras. Minha sorte é ter estrutura própria para festas, só não tenho bufê. Além disso, a inadimplência é alta”, acrescenta o empresário que viu seus eventos deslancharem após a chegada do câmpus da Universidade Federal na cidade, em 2011.

Hoje, a rede privada conta com mais de seis milhões de alunos. Isso representa 75% do sistema de ensino superior. Outro dado relevante é que 44% deles recorrem ao Fies. Um quadro preocupante, tendo em vista as previsões de uma recuperação lenta do crescimento da economia brasileira para os próximos anos. Em 2016 formaram-se 1,1 milhão de estudantes no ensino superior. Mas quanto desse universo faz baile e compra o álbum de formatura? A Zangraf, maior laboratório fotográfico que atende o segmento, estima que são produzidos no País 130 mil álbuns por ano. Um número baixo, que significa pouco mais de 10%. A depender do Ministério da Educação, o futuro é promissor, pois o governo quer elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior dos atuais 32,6% para 50% (o prazo para alcançar a meta não foi divulgado).

Enquanto dias melhores não vêm, empresários do setor se contorcem em questionamentos, muitos deles expressos em debates promovidos anualmente pelo Fórum Brasileiro das Empresas de Formatura, que vai para sua oitava edição na Fotografar 2018. Mas coincidentemente em 2017 – um ano que os brasileiros querem esquecer –, eles buscaram foros regionais. Santa Fé (PR) e Tupã (SP), os principais polos da foto de formatura no País, sediaram palestras de grande repercussão.

Temas como sistemas de gestão financeira, venda on-line do álbum, maior grau de profissionalização das empresas, estiveram na ordem do dia. Franklin Bastos, que dirige a Terceira Via Formaturas e Eventos, teve disposição de sair de Itabuna (BA) para participar dos dois eventos. “Bem produtivos, com foco na gestão e renovação dos modelos de negócios”, comenta. Ele criou na sua empresa a “Universidade Corporativa”, programa de capacitação dos funcionários com duração de sete meses. “Cada mês é uma área que passa por treinamento”, detalha. Um dos resultados positivos da ação foi a queda da inadimplência. “Chegou a 13%, mas hoje está entre 6 e 7%.”

“Um modelo que a CP7 tem adotado é a venda híbrida, em que o vendedor vai à casa do formando, mas com o álbum on-line. Este é o novo modelo que tem dado certo, após eu ter tentado os outros dois”, aponta Charles Pripas. Em sua opinião, as empresas estão descobrindo as vendas antecipadas. E digo: “Vender antecipado 1.500 reais equivale a vender depois por três mil reais. É a mesma coisa para o bolso do empresário. A gente vende 5% menos no digital, mas a economia na impressão compensa a queda, solta a turma 30 dias antes e deixa o formando mais feliz ao ter o álbum em prazo mais curto”. Em sua opinião, a retomada da economia é lenta. “Não será em 2018 que retomaremos as margens como em 2012, 2013”, compara.

Outra demanda de bastidores é a formação de uma associação nacional, embora haja algumas iniciativas regionais, como a gaúcha Aproforma e a pernambucana Aefep. “Regularmente promovemos rodadas com especialistas em tributos, gestão, com objetivo de manter os negócios saudáveis. A Aproforma permitiu uma redução de custos substancial no que se refere a utilização de estruturas comuns entre essas empresas na realização de um evento”, diz Edinei Teixeira, da ST Produções, em Canoas. A M3R, na figura Murilo Afonso Marques de Oliveira, bem que tentou uma associação paulista. “Mas faltou união das empresas para o bem do mercado”, avalia. Ele também esteve no evento em Santa Fé e participou ativamente dos debates. Bastos, da Terceira Via, considera importante uma associação. “Um dos primeiros passos é montar um agenda de encontros e estar comprometido com os objetivos”, sugere.

A prática do cachê ainda persiste principalmente em alguns estados, como São Paulo. Matheus Quintana (é parente do poeta Mario Quintana) está no oitavo semestre de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. “Não existe almoço grátis, eu sei. No início de novembro já aconteceu nossa primeira festa, e ninguém pagou nada. Vou aguardar o valor do álbum, mas não quero pagar muito mais do que meus pais desembolsaram quando me formei no ensino médio, também pelo Mackenzie.” Sua expectativa para daqui a dois semestres é ter um álbum em que ele apareça feliz. “Apesar de o curso ser formal, gostaria de fotos mais espontâneas, descontraídas”, diz o estudante. Aliás, Quintana escolheu o curso mais procurado no ranking dos dez primeiros em 2016, conforme dados do MEC/Inep.

Vários empresários acreditam que o cachê está com os dias contados em função do estreitamento das margens que ocorre nos últimos quatro anos. “Não é mais possível fazer colação oficial de graça, ou dar beca, convite, etc.”, alerta Pripas. A gestão profissional pede cálculo de todos esses custos. A reinvenção, tão almejada, é vender o que se dava antes de graça no passado. Segundo Leideval Alencar, do Grupo CAD, a prática da cobrança da colação de grau já é uma realidade, o que não acontecia até recentemente.

Outro item que ele celebra é o desaparecimento da foto no saquinho. “Isso acabou, hoje os produtos são personalizados; as empresas investiram em qualidade e voltaram a imprimir mais no segundo semestre de 2017.” Em sua análise, o aumento de impressão no período decorre do fato de que várias empresas testaram vendas on-line no segundo semestre de 2016 e primeiro de 2017, compararam resultados e voltaram para o modelo de vendas de impacto. “O problema ainda é ter uma equipe de vendas capacitada, porque o formando não tem disposição para diagramar álbum”, explica.

Na visão da Ás Eventos, em São Paulo, o segmento tem gargalos inerentes ao processo. E cita os principais: bons fotógrafos em época de alta demanda, separação eficiente (as soluções automatizadas ainda são ineficazes), diagramação e ajuste de diferentes fotógrafos e câmeras, capacidade produtiva instalada (como atender a todos em um mercado altamente sazonal) e capacidade de venda, ou como conseguir equipe de venda motivada e eficaz.

Segundo o diretor de Criação da empresa, Rafael Cardoso, os gargalos podem ser mais, dependendo de como os empresários veem o produto fotográfico. “Para os que acreditam em venda pelo tablet ou on-line, o principal gargalo é comercial, de o formando se encantar pelo produto. A produção, como é praticamente toda elaborada pelo formando, é simplificada. Operacionalmente é o modelo perfeito, no entanto, na prática as pessoas têm pouco interesse em adquirir e montar um álbum e recebê-lo após alguns dias”, aponta.

Quem trabalha ainda com álbuns não encadernados, pouco diagramados e em papel fotográfico enfrenta a dificuldade de criar valor para o produto. “Em um mundo com tantas mudanças, um álbum feito como há dez anos gera pouco interesse no formando. Também para os que acreditam em álbuns diagramados, encadernados e laminados existe o gargalo produtivo, de como conseguir em alta escala fazer álbuns individualizados (um processo quase artesanal) e realizar as mudanças quando necessárias (diagramação e substituição de foto)”, descreve Cardoso.

À parte de empresas com grandes carteiras de formandos, há aquelas de pequeno e médio portes de atuação regional, muitas delas sem a pretensão de aumentar suas operações. “A regionalização é uma realidade, em que se trabalha com um volume menor, mas com um atendimento mais personalizado e maior qualidade”, diz Daniel Ferreira Silveira, da Dan Cunha Fotografias, em Jataí (GO). Uma tendência apontada por ele é a aproximação das empresas de cerimonial com as de fotografia. “É uma comodidade para os formandos, pois toda a organização do evento é feita de uma vez.”

Alguns empresários com vários anos de mercado, que preferem falar em off, comentam que a inadimplência é bem acentuada e deve persistir até 2020, causando o fechamento de algumas empresas. Rebaixamento de preços, criação de álbuns mais acessíveis – em particular para turmas do EAD –, diminuição da carteira de formandos visando mais lucratividade, recomposição da liquidez, contratação de consultores para aprimorar a gestão, têm acontecido pelo setor. “2018 ainda vai nos ensinar como trabalhar em 2019”, diz um diretor, apreensivo com o desenrolar da atividade econômica no País.