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A Problemática “Coach” na Fotografia Brasileira

O fotógrafo Fabio Rebouça de Piracicaba aborda uma profunda pesquisa acadêmica que fez um estudo para a faculdade tratando a onda "coach"

por Revista FHOX

Ao que parece, estamos ainda muito distantes de alcançar a evolução nas relações de trabalho, especialmente quando não conseguimos estabelecer muitos limites morais e éticos sobre aquilo que pretendemos ofertar.

O problema se agrava quando essa relação ocorre em nível interno e a busca demasiada pelo sucesso acaba entrando em conflito com os nossos princípios. Afinal, o que é sucesso e como ele acontece?

Os atuais “gurus” de mercado dizem que sucesso só é possível se você mudar o seu “Mind Set”, mas é importante você cumprir uma série de requisitos para só assim alcança-lo.

Nos negócios da fotografia isso não é diferente e as estratégias seguem na mesma linha de outros mercados. O grande problema é quando você falha e o sentimento de culpa dá lugar à tristeza.

Um Breve Histórico dos Últimos 20 anos da fotografia;

Há cerca de 20 anos atrás o mundo da fotografia passava por uma completa transformação tecnológica, a era dos filmes analógicos chegava ao fim, dando lugar aos sensores digitais. Não obstante, nos últimos 8 anos, o custo de se tornar fotógrafo diminuiu e seguir essa profissão já não era mais tão difícil como no passado, onde a técnica era especificamente necessária e os custos eram mais elevados ainda, sem contar com todas as dificuldades dos processos de revelação e ampliação. Todas essas parafernálias antigas deram lugar ao processamento de imagens através de computadores e softwares de edição, chegara a “era digital”.

Tais mudanças criaram um cenário favorável para a inclusão social e a fotografia foi uma das grandes pioneiras a oferecer acessibilidade e o direito à todos de um dia poder desfrutar de algo que no passado era visto como item de luxo.

Com a popularização da profissão e pela velocidade em que as informações eram passadas, especialmente pelo uso das redes sociais, vieram muitas coisas positivas, mas também vieram as negativas, como por exemplo o distanciamento dos estudos presenciais nas escolas de fotografia e a busca por conteúdos online rápidos e gratuitos, alguns de questionável relevância educacional. Outro ponto importante foi a recente era dos “Presets”, onde de forma rápida e eficaz, era possível aplicar manipulações e correções das mais variadas formas, através do uso de predefinições salvas nos programas de edição de imagem. Os “Presets” também tornaram as fotografias muito parecidas, o que acabou gerando uma forte crise de identidade nos profissionais. Tais facilidades começaram a tornar o uso da câmera fotográfica um item de segundo plano, atribuindo toda e qualquer qualidade a edição.

Imediatamente as empresas fabricantes de câmeras e equipamentos reagiram e tornaram seus produtos mais atrativos e ainda mais fáceis de usar, aplicando inclusive predefinições e acessos remotos com transmissões simultâneas de dados.

A popularização da fotografia trouxe pessoas oriundas de todos os tipos de profissões e conhecimentos variados. Essa alta demanda de novos profissionais inflou as áreas de atuação, fazendo com que os mais antigos tivessem que se reinventar ou até abrir mão da profissão. Assim, muitos faliram, outros insistiram e até hoje lutam por seu lugar ao sol. Acontece que pela mesma porta onde muitos saíram, outros muitos também entraram e continuam entrando.

A partir daí aqueles que se destacaram, que se tornaram até mesmo formadores de opiniões, perceberam um novo nicho de mercado para a fotografia, o da venda de métodos para o público interno. Era o início de um novo jeito de falar e fazer fotografia, a “Era Coaching”

Se você fizer uma breve pesquisa na internet, principalmente nas redes sociais, irá encontrar facilmente milhares de cursos oferecidos ONLINE com um teor de aparente excelência, onde os enunciados sempre estão claramente voltados para as teorias de sucesso através da autoajuda, parecendo que da noite para o dia nasce um novo e grande empreendedor no Brasil, mas será que isso é real, diante de tantas crises econômicas?

Portanto, foi pensando especialmente nesses profissionais de fotografia, que realizamos uma pesquisa acadêmica para a faculdade de direito da Instituição Anhanguera de ensino, sobre a atuação “Coach” no mercado fotográfico. Os resultados foram qualitativamente satisfatórios e revelaram uma forte crise social e ética.

Segundo o estudo, através de pesquisas bibliográficas, pudemos identificar que vários filósofos, pesquisadores, psicólogos e professores de renomadas universidades mundo afora, já há algum tempo, estudavam a atuação dos coachs e também dos riscos dessa prática.

Para o autor do livro “Stand Firm: Resisting the Self-improvement Craze” (Fique firme: Resistindo a mania do autodesenvolvimento), o filósofo e professor da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, Svend Brinkmann, a autoajuda só contribui para o individualismo e pelo total desinteresse em soluções coletivas de problemas. Crítico ferrenho da psicologia positivista, Brinkmann afirma que, ao contrário do que se diz, nem sempre a felicidade e o sucesso são uma escolha. Ele faz um diagnóstico do próprio conceito de coach (treinador), que vem do mundo dos esportes, pressupondo já uma competição com os demais para vencer um jogo. “Há um perigo em enxergar a vida como uma partida em que há vencedores e perdedores”, explica.

Outro grande nome e pesquisador da área é o brasileiro, psicanalista e professor da USP (Universidade de São Paulo), Christian Dunker, que através de seu livro Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma, traça um paralelo entre o sofrimento e a industria que se criou através disso, citando como um dos exemplos a atuação dos Coachs que através da racionalidade diagnóstica desenvolveram “remédios” educacionais e terapêuticos para os anseios das pessoas.

Segundo Dunker, eles atuam no “medo” das pessoas e basicamente falam o que elas querem ouvir para se sentirem seguras. Christian também traça um comparativo exemplificando que assim como famílias se fecham em condomínios cercados por sistemas de segurança, da mesma forma ocorrem as buscas por terapias de autoajuda, mas que agora também saíram dos consultórios e estão sendo oferecidas para o mundo corporativo dos negócios.

Outro ponto importante da pesquisa é o olhar jurídico para tal prática. Já vivemos em uma sociedade por demais competitiva e até aí, tudo normal, até mesmo nas relações comerciais, a concorrência é até saudável para os negócios, desde que não seja ela ilegal, inclusive por este conceito, em termos jurídicos, combater páticas ilegais de mercado precisam ser constantemente atualizadas por parte dos legisladores, levando em consideração os avanços tecnológicos que facilitaram algumas trapaças, tornando-se cada vez mais complexa a atuação da justiça.

No mesmo problema cai aqueles que, por falta de ética ou descumprimento de leis, se propõe a vender um determinado tipo de curso, consultoria ou mentoria sem a comprovada eficácia ou possibilidade legal de exercê-la, como no caso do crime de Exercício Ilegal da Profissão, art 47 do decreto lei 3.688 de 3 de outubro de 1941.

É certo que o mundo evoluiu, novas tecnologias e negócios surgem a cada instante, principalmente no ambiente virtual, inclusive também é fato que alguns conteúdos podem surtir muito efeito e relevância para a carreira de alguns profissionais, mas essa verdade não é e nem nunca será absoluta, pois para algumas pessoas, o preço que se paga, quando tais metas não são atingidas, pode ser muito alto e devastador. Num mundo onde 26 das pessoas mais ricas detém em dinheiro o mesmo equivalente a outras 3,8 bilhões de pessoas mais pobres, segundo a Oxfam International.

Fica um tanto quanto difícil acreditar que estratégias individualistas possam dar solução a tanta desigualdade má distribuição de renda.

Até que se descubra o que é ideal para cada um, levando em conta todas as limitações, sejam elas de caráter humano, pessoal, regional ou profissional, muitos trabalhadores ainda irão passar por grandes momentos de transformação e aprendizagem, pelo amor ou pela dor…

Portanto, diante desta condição tão cautelosa que o mundo está passando e que nós estamos vivendo, precisamos analisar melhor o que de fato se torna relevante, afinal, somos humanos e estamos sendo submetidos diuturnamente, as vezes sem percebermos, a táticas muitas vezes escusas para um único propósito, enriquecimento de uns e de outros.

Fabio Rebouças é fotógrafo profissional em Piracicaba (SP).  

Veja também: coaching na fotografia no FHOXCast