News 1 mês atrás | Leo Saldanha

O que o Flickr tem a nos ensinar?

Não fosse a criação dessa comunidade fotográfica on-line em 2004 provavelmente a internet e as redes sociais seriam de outro jeito. Contudo, os ensinamentos do Flickr vão muito além do pioneirismo. Uma verdadeira aula (do que fazer e também não fazer) sobre ciclo de produtos e reposicionamento

por Revista FHOX

Recentemente a nova dona do Flickr enviou um comunicado avisando que as coisas não estão bem com a empresa. Que as contas não batem (alguém se identifica?) e que é necessária a ajuda dos usuários. Mais uma vez, a marca pediu para seus fiéis clientes que acreditem no potencial e que coisas incríveis estão por vir, “mas precisamos da sua ajuda”. Será que cola de novo? Para entendermos por que essa última notícia é dramática temos que voltar no tempo e reconhecer a força do Flickr no panteão de inovações on-line.

O Flickr surgiu em 2004 em um tempo que não existia smartphone e nem rede social como conhecemos hoje. O Orkut também surgiu naquele ano! O que é curioso do Flickr foi criado a partir de um videogame. Os criadores do negócio (Stewart Butterfield e Caterina Fake) eram os donos da Ludicorp’s que originalmente lançaram o Game Neverending. Um joguinho que tinha uma característica de mensagens e que as pessoas podiam compartilhar imagens. O game foi um fiasco, mas surgiu a ideia de uma comunidade que poderia ajudar os fotógrafos a publicarem on-line. Tudo graças a um recurso inovador daquele videogame. O fundador, Butterfield, notou que as soluções disponíveis na época enfocavam em armazenamento e impressão (caso da Kodak e outros sites dos primórdios da internet). O Flickr não só facilitou a publicação de fotos como introduziu o conceito dos grupos e comentários criando uma tribo de apaixonados de todas as partes do mundo por fotografia. Ou seja, foi precursora das redes sociais. Especialistas dizem até que se o Flickr não tivesse existido não teríamos o Instagram. Aqui a grande lição é que as vezes um negócio leva a outro. O que é importante então é ficar atento as oportunidades dentro do seu próprio negócio. E de estar preparado para ajustes e mudanças radicais.

Em 2005 o Flickr foi comprado pelo Yahoo. Em um tempo em que o Yahoo ainda era forte e lembro bem de uma publicação dizendo: por favor, Yahoo, não ferre com o Flickr (algo que depois foi repetido como mantra dos usuários para outros donos que vieram na sequência). Aqui aprendemos sobre os valores clássicos de um negócio. Você pode até mudar muito do produto, só cuidado para não acabar com a essência. Nesse tempo do Yahoo ocorreram vários acertos. Como mais espaço grátis de armazenamento e a evolução para subir vídeos em alta resolução. O aprendizado aqui é a evolução e melhoria contínua para a comunidade.

Em 2008 os fundadores anunciaram a saída do empreendimento.

Em 2009 outro acerto: uma parceria com a Getty Images para vender fotos dos usuários dentro da plataforma. Aqui a lição foi de valorizar o que a comunidade cria e ajudar os membros a faturar com o conteúdo.

Com muitas mudanças em 2013, o Flickr foi perdendo usuários. Fotógrafos perceberam outras soluções que permitiam publicar fotos. Caso do Facebook, Instagram, Hipstamatic etc. Aqui veio a lição de acompanhar as mudanças tecnológicas. Você pode seguir com sua base primordial que era fotos no caso do Flickr. Só que a empresa demorou para entrar no vagão dos smartphones e o custo disso foi fatal. Sente até hoje o baque por essa demora.Se pensarmos de que 2009 até 2013 foi justamente a época em que os smartphones começaram a avançar de forma estonteante. O Flickr não acompanhou isso com um app decente. E isso mesmo com o iPhone sendo a câmera mais usada dentro da ferramenta por anos seguidos.

Muito tempo depois o Flickr lançou um aplicativo que até era bacana. Mas aí as outras aplicações como Instagram já estavam consolidadas e a evolução ocorria não só ali, mas no caráter efêmero das ferramentas. Caso do Snapchat que acabou copiado pelo Instagram. Veio a era do Stories e os vídeos também avançaram. Para se ter uma ideia o novo app da Flickr que realmente agradou aos usuários só foi ser lançado em 2015. A empresa realmente demorou demais…a lição aqui é sobre demorar demais.

A Verizon comprou o Flickr em 2017. Talvez em uma estratégia de unir dispositivos móveis e fotografia com os serviços da operadora.

Na parte de armazenamento o Flickr deu espaço grátis a mais com 1TB para os usuários e sem custo. Tinha versão paga. A Verizon depois de compra o Flickr e fez essa jogada. O Flickr é citado no livro Freemiun (um clássico do Chris Anderson) sobre vender serviços para uma pequena parte e deixar grátis para a maioria. O problema é que o Flickr foi mudando de tempos em tempos e não parece ter incluído algo que entregasse mais impacto para o usuário pagante. O Google tempos depois criou o app Google Photos (com armazenamento ilimitado) e parece que essa foi uma pá de cal no Flickr nesse sentido de armazenamento.

Depois veio o SmugMug para a última cartada em 2018. A empresa comprou o Flickr por um valor muito abaixo do que o Yahoo pagou na época. Parece que o SmugMug (que oferece uma série de serviços digitais para fotógrafos inclusive armazenamento) achou que conquistaria algo e que poderia se casar com a dinâmica do negócio já existente. Aqui temos o ensinamento de que uma marca tem limites quando esticam demais o que ela tinha de bacana. O Flickr vinha com a oferta de 1TB da Verizon para os usuários grátis e o SmugMug cortou essa facilidade.

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O email do CEO da SmugMug para a fiel comunidade do Flickr não parece ter caído muito bem na comunidade. Pedir a ajuda (com investimentos) em um produto que mudou tanto e ao mesmo tempo não soube se reinventar parece pedir demais.

A curiosidade é que assim como outros negócios de sucesso, o Flickr surgiu de outra ideia. De videogame que evoluiu para uma comunidade fotográfica que serviu de fundação para os pilares das redes sociais como conhecemos hoje. Inúmeros fotógrafos famosos daqui e de fora inclusive começaram fotografando, postando e comentando as imagens dos amigos dentro da plataforma. Instagram e Snapchat também começaram como outros negócios e mudaram de marcas e de posicionamento para depois conquistarem o mundo. Tanto um quanto o outro conseguiram (sempre de forma ágil) se adaptarem a dura e rápida realidade de mudanças tecnológicas com imagens. Hoje o Flickr tem algo entre 80 e 100 milhões de usuários no mundo e isso não é pouca coisa. Mas comparado com mais de 1 bilhão de usuários do Instagram ou os 800 milhões de usuários do TikTok não parece muita coisa.

Se o Flickr vai continuar não sabemos. O que podemos especular é que o fato do CEO do SmugMug enviar um email pedindo SOS é que os usuários paguem pela versão premium não parece muito promissor. Sobtretudo para uma marca que se tornou sinônimo internacional de comunidade de fotografia. E que infelizmente nos últimos tempos parece virar uma referência melancólica e nostálgica relacionada a fotografia.

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