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Mariana Scheeren: retrato sensorial para pessoas cegas

A fotógrafa e designer é finalista em um prêmio nacional de design com a ideia de um inovador produto fotográfico. Ela conversou com a FHOX sobre essa ideia e sobre seu trabalho na fotografia

Ontem (6), demos a notícia aqui no site sobre a fotógrafa que é finalista na premiação Brasil Design Award. Ela contou como desenvolveu essa ideia e comentou sobre seu trabalho na fotografia.

FHOX – Por que criou esse projeto?

Mariana Scheeren – O Retrato Sensorial é a materialização de um grande sonho: unir o design e a fotografia. Além disso, sempre acreditei no poder de ajudar o outro. Eu, enquanto fotógrafa, sempre carreguei comigo o propósito de materializar as memórias afetivas das pessoas em forma de registros fotográficos. Assim como eu, enquanto estudante de Design, cada vez mais entendia o quanto o Design é um grande facilitador para a humanidade. Tanto o design, quanto a fotografia se tratam de experiências que se relacionam com a vida e história das pessoas. Acredito que todos somos merecedores de termos nossas histórias registradas, com todos os sentimentos que às pertencem.

A ideia surgiu há alguns anos atrás, durante uma disciplina de Projeto, na faculdade Design. 

Quando chegou o momento de fazer o meu Trabalho de Conclusão de Curso, ainda tinha dúvidas sobre o tema, mas tive o total apoio da minha orientadora, Silvia Dapper, que não me deixou desistir desse projeto. 

A ideia inicial era apenas desenvolver a impressão 3D de uma fotografia, mas eu queria ir além. Estudei minuciosamente sobre a fotografia, enquanto documentação histórica pessoal, técnicas de manufatura aditiva (conhecida como impressão 3D) e após muita pesquisa, cheguei à conclusão de que apenas uma foto impressa 3D não seria suficiente para mim. Assim nasceu a ideia de montar um quadro, fazendo referência àqueles retratos pintados, usados como decoração em casas, ou até palácios (por isso o nome, Retrato Sensorial). Mas eu tinha estabelecido um público alvo: deficientes visuais, e para atingir as necessidades desse público, além de estudar a deficiência em si, fiz entrevistas com pessoas que incluem diversos graus da deficiência, para, além de tudo, compreender a relação dessas pessoas com a fotografia. E assim eu percebi que a fotografia não faz o mesmo sentido para eles, do que para nós. 

Após as entrevistas, eu entendi que, quem vê é privilegiado, principalmente quando trata-se de lembranças. Sabemos que a memória pode falhar um dia, e por isso nós fotografamos, registramos e guardamos os nossos momentos. Mas e quem não vê? De que forma pode acessar as suas memórias? E esse foi o questionamento que me fez intensificar todo o processo criativo e ir além na minha criação. 

Assim eu decidi criar, no quadro, uma experiência extremamente sensorial, envolvendo tato, audição, aroma e, para os videntes, a visão. O Retrato Sensorial se trata de um quadro inclusivo. Foi projetado para pessoas cegas e não a Deficientes visuais, em geral, pois para atingir os demais graus dessa deficiência, seriam necessárias adaptações de contraste. Mas ele não é exclusivo aos cegos, pode ser experimentado e fruído por qualquer pessoa. 

O Retrato Sensorial é produto que proporciona uma experiência fotográfica e sensorial, incluindo a imagem impressa tridimensionalmente, descrição em braile e acesso à audiodescrição da imagem, a partir de um código QR e também um sistema de aproximação, conhecido como NFC (como usado nos cartões de crédito atuais). Além disso, a peça possui um aroma de afeto, baseado na aromaterapia. 

FHOX – Como foi a concepção?

Mariana Scheeren – O processo criativo foi bastante extenso. A criação dele durou cerca de um ano. Por se tratar de um trabalho de conclusão de curso, havia alguns requisitos que eu precisava cumprir. 

Mas antes disso, participei de algumas oficinas, inclusive de Fotografia Vendada, ministrada pela professora Renata Lohmann. Eu realmente me dediquei a fio para realizar esse trabalho.  Inicialmente eu fiz todo um estudo teórico. Estudei todos os pontos relevantes para a posterior criação do trabalho, desde toda a história da fotografia, metodologias de Design, técnicas de impressão 3D, Deficiência Visual e tudo mais. E também realizei diversas entrevistas e estudos, para compreender a necessidade da criação do produto, e também da influência que a fotografia tem na vida dos deficientes visuais.

Realizado todo o estudo teórico, a parte criativa foi a mais legal e também trabalhosa. A decisão de todos os elementos do quadro, inclusive da moldura, aconteceu por conta de todos os estudos anteriores. Mas a pior parte foi a modelagem 3D. Eu aprendi técnicas durante a faculdade, mas a forma que eu faria era diferente do que tinha aprendido. Me virei sozinha e desenvolvi uma técnica própria para poder realizar essa modelagem.

Depois de todos os elementos finalizados, eu fiz a montagem prática do quadro e também passei por uma etapa de verificação, junto com o público alvo. Uma voluntária participou de praticamente todos os processos, me ajudando com dias e necessidades. Eu emergi junto com o público, afinal de contas, eu enquanto vidente, não tenho as mesmas experiências.

FHOX – Como foi recebido?

Mariana Scheeren – O feedback do projeto foi extremamente positivo. A voluntária que me ajudou durante o processo, quando recebeu o quadro pronto, ficou extremamente feliz e animada com a proposta. E ela gostou justamente de poder ter a percepção geral de todos os aspectos do quadro. Como ela é totalmente cega, analisar apenas a imagem 3D não faria tanto sentido para ela, pois ela não conseguiria se guiar totalmente. Afinal de contas, um rosto humano tem calor e texturas diferentes. Mas por conseguir analisar as informações de diversas perspectivas, ela pode criar uma visualização mais completa, sem contar toda a experiência sensorial. Ela gostou muito de se ver em outra perspectiva, mas principalmente de se sentir incluída e isso foi o que fez o projeto valer a pena. Eu senti que durante o desenvolvimento eu pude entender, de fato, a importância da empatia, e acima disso, incluir o outro. Ajudar, aproximar e acolher. E poder fazer isso com as duras áreas de atuação que eu mais amo, foi incrível!!!

Até porque, ver e olhar são experiências diferentes e para olharmos, não precisamos da visão. Podemos olhar com o coração. Com sentimento. Sentir, à nossa maneira. 

FHOX – Como é seu trabalho na fotografia?

Mariana Scheeren – Trabalho com fotografia de família e no meu trabalho eu carrego toda essa enxurrada de sentimentos. Eu amo fotografar, principalmente detalhes e vivências, pois acredito que a fotografia tem esse poder de trazer à tona o que está guardado em nosso coração.

A fotografia de família é muito especial para mim, justamente por eu acreditar tanto na nossa história. Todos somos únicos no mundo, cada um tem um diferencial. Quem somos hoje, têm a  relação com nossa criança interior e a forma que fomos acolhidos pela nossa família, independente da forma, tipo ou raça. A nossa histórica é única e por nos moldar tanto, valorizo o registro dela. 

Gosto de fazer referência às grandes influências do mundo, sabe? A gente gosta de saber a história dessas pessoas. Ver fotos, compreender sobre aquela época. E porque não fazermos isso com nós mesmos? Guardar nossa história! E é por isso que eu fotografo. Para o amanhã.  ♥ Por isso que sou uma grande defensora da fotografia impressa!

Além disso, uma das minhas especializações é a diagramação de álbuns (novamente aliando fotografia com design) e a partir dos álbuns, consigo realmente contar essas histórias e materializá-las em forma física. 

FHOX Como começou na fotografia e como está sendo com a pandemia?

Mariana Scheeren – Trabalho com fotografia desde os 17 anos. Iniciei trabalhando em um estúdio focado em fotografia de família, que posteriormente se especializou em fotografia newborn. Eu amo a fotografia desde muito nova e torná-la minha profissão sempre foi um dos meus maiores sonhos. 

Em 2019 iniciei minha carreira solo, e criei a Minúcias (@minucias.fotos) pois sentia que eu queria ir além do newborn. Eu queria estar perto das famílias e registrá-las, em seu âmago. 

Durante todo esse tempo eu segui fazendo a faculdade de Design, e durante o ano de 2020 eu me dediquei quase que exclusivamente ao meu TCC. Por ser o ano de início da Pandemia, reduzi os trabalhos fotográficos e consegui conciliar tudo. Em 2021, com o fim da faculdade, estou retomando os trabalhos. Por sempre trabalhar com fotografia de família, não senti o impacto que quem fotografa eventos sentiu. Continuo registrando lindas histórias!

FHOXQual sua expectativa para esse produto?

Mariana Scheeren – Eu brinco que o Retrato Sensorial é o projeto da minha vida. Desde pequena eu sonhava em fazer algo “grande”, mas no sentido de criar algo para o mundo, mesmo. Eu sempre entendi que minha criatividade e sensibilidade eram fatores intensos dentro de mim, e por ser tão sentimental, eu gostaria de mostrar esse meu lado pro mundo. Faço isso diariamente com a fotografia, mas eu queria muito fazer algo diferente. Até por isso que escolhi cursar Design e não Fotografia, na faculdade. 

Eu sou uma grande perfeccionista, mas o Retrato Sensorial é um projeto que eu fiz da forma que eu sempre sonhei em fazer. Por isso que, além de ser um produto fotográfico, desenvolvido a partir de conceitos de Design de Produto, ele é um projeto artístico.

Não mudaria nada, pois ele foi pensado e planejado para isso: ser puro sentimento e sensibilidade e essas são características que não podem ser medidas e nem comparadas. Eu sempre digo: o sentir é particular. E eu desenvolvi o Retrato Sensorial justamente para isso: para ser sentido e observado. 

No design temos um conceito que chamamos de “Produto para gerar conversa”. Eu quis trazer essa reflexão para o mundo, de que todos temos memórias e histórias. A fotografia tem a capacidade de documentar nossa história, e ela não precisa ficar restrita somente à quem vê. Todos somos merecedores de ter acesso às nossas memórias, da forma mais sensível e inclusiva possível.

a mari 🤍 (@marianascheeren) • Fotos e vídeos do Instagram