Entrevistas 2 anos atrás | Regina Sinibaldi

Onde? Quando? Quem sou? “Fundidos” pergunta

Projeto do artista HD Dimantas lança perguntas existenciais geradas pelo espaço virtual das imagens

por Revista FHOX
LisboaHD Dimantas
Lisboa

Hernani Dimantas, o HD Dimantas, é artista e teórico sobre redes sociais. Neste bate-papo ele fala sobre de um braço de seu projeto mais recente, o “Fundidos”, em que interfere em imagens geradas pelo Google Street View. No Brasil, é o único a trabalhar nesse universo virtual em que questões do ser, tempo e espaço ganham novos contextos.

FHOX – Recentemente o senhor esteve no Espaço Ophicina apresentando sua trajetória nas artes visuais, ocasião em que destacou o projeto “Fundidos”. O que é este projeto?
HD Dimantas – Chamei provisoriamente de “Por Dentro do Street View” e o “Fundidos” é uma parte dele. Comecei a fazer intervenções no Google Street View em 2011 aproximadamente e fiz trabalhos com abordagens bem diferentes. No ano passado tive um trabalho aprovado pelo Paraty em Foco com uma pesquisa de fotos de São Paulo, o “Street View Inside”. O “Fundidos” surgiu a partir de uma pesquisa e a primeira imagem foi um homem fundido ao chão do Louvre. Daí escrevi um texto que de certa forma amalgamou alguns conceitos.

FHOX – E quais são os principais conceitos?
HD – As imagens desnudam países, cidades, ruas, lugares, diminuem distâncias, e nos convidam a viajar pelo espaço, tempo de nossas memórias afetivas. Revisitar lugares, interferir neles, construir nossa marca sobre eles é um exercício libertador e poético.

“Fundidos” é uma pesquisa fotográfica. Um passeio pela virtualidade num ambiente moldado em 3D onde qualquer mudança no foco faz que todo o ambiente virtual se altere. De certa forma emula as variações dos nossos olhos. Aquilo que vemos depende apenas do nosso ponto de vista. O Street View é uma lente que tudo abarca e nada vê.

RomaHD Dimantas
Roma

FHOX – O que busca nessas imagens?
HD – Defeitos. Aquilo que não foi capturado pelas câmeras que operam no atacado. Capturam tudo que seja possível sem critério. E deixam rastros que podem ser observados como um glitch natural. Encontramos pedaços de gente, pés que andam sem corpos, cabeças voando ou corpos sem órgãos, em uma metáfora deleuziana na qual “os órgãos estão separando o corpo do que ele pode, porque estão capturados, a potência se perde no organismo investido pelo social”. E o social agora se faz no espaço virtual.

A fotografia robotizada perde sua função de retrato. As manipulações digitais potencializam a desconfiguração da realidade, antes, durante e depois do ato fotográfico. As manipulações trazem problema para a fotografia cujo valor é a fidelidade, mas escancara os caminhos da fotografia artística. Se a fotografia analógica nos permitiu guardar registros do passado, a fotografia digital parece mais propensa em promover simulações do futuro. A contemporaneidade se caracteriza cada vez mais pela edição ou a forma como as partes do sistema são montadas ou articuladas. Esta é a cultura do remix.

FHOX – Como tem sido a receptividade do projeto?
HD – Normalmente as pessoas gostam, mas creio que ainda têm certa dificuldade de entender que estou fotografando o espaço virtual, moldado em 3D, que de certa forma emula o espaço presencial. As pessoas ficaram mais tranquilas quando chamei de pesquisa fotográfica.

Museu do Louvre, ParisHD Dimantas
Museu do Louvre, Paris

FHOX – No Brasil seu projeto parece ser único…
HD – Sim, mas existem outros artistas que trabalham com esse suporte. Inclusive Doug Rickard ganhou um prêmio com “The New American Picture”.

FHOX – Quantas imagens tem “Fundidos”?
HD – Tem começo, mas não tem fim; tenho pelo menos umas 50 diferentes imagens.

FHOX – Já pensou em apresentar esse projeto ao Google?
HD – Estou apresentando a pesquisa maior para um pós-doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP.

Poesia fundidaHD Dimantas
Poesia fundida