Entrevistas 2 anos atrás | Leo Saldanha

O destaque mundial do trabalho de Luisa Dorr

A fotógrafa gaúcha conversou com a FHOX sobre sua carreira e esse projeto inédito para uma das principais publicações norte-americana

por Revista FHOX

Luisa Dorr (28) apareceu em centenas de sites de notícia dos Estados Unidos, da Europa e aqui do Brasil. Foram mais de 2 mil notícias publicadas até agora e sites de fotografia, blogs e grandes portais destacando a cobertura da fotógrafa gaúcha. A FHOX procurou a fotógrafa para contar sua história e abordar outros aspectos do trabalho para a Time.

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São vários feitos. Luisa fotografou algumas das mais importantes mulheres do mundo. Oprah, Hillary Clinton, Aretha Franklin. Ao todo foram 46 retratadas em um projeto que ela mesma ressaltou ser multimídia. Outro feito é ser a primeira vez que a Time criou 12 capas distintas para a mesma edição. Em um momento que se discute a igualdade de gêneros, não é pouca coisa.

Em boa parte das notícias publicadas se deu muita atenção ao fato dela ter criado as fotos com iPhone. O fato é que os retratos criados por ela ficaram incríveis e a ferramenta nem deveria ter tanto destaque. Já que o resultado final é impactante. Mais do que isso, não há como não sentir orgulho do trabalho feito por ela. Um projeto que posicionou a fotografia brasileira no seu devido lugar: entre as melhores do mundo. Leia a entrevista abaixo:

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FHOX – Como você começou na fotografia?
Luisa Dorr – Eu sou de Lajeado, um vilarejo do interior do Rio Grande do Sul. Quando terminei o colégio comecei a estudar design gráfico, curso que fiz por três ou quatro anos. Eu não estava muito feliz e uma tia me convidou para trabalhar com ela. Acredito que isso tenha sido em 2010. Ela tem aqueles estúdios clássicos de fotografia e fotografa bebês e casamentos. Lógico que naquela época tinha uma certa hierarquia e eu não podia fotografar no estúdio, apesar de eu ter minha câmera desde pequena.

Eu fotografava minha família, vizinhos e gatos, aquelas coisas que crianças fotografam. Eu comecei a editar as fotografias do estúdio da minha tia e nos finais de semana comecei a fotografar minhas amigas. Existe uma coisa curiosa sobre aquela região: lá foram descobertas as melhores modelos do Brasil e do mundo, como Gisele Bündchen e Alessandra Ambrósio, então é uma região onde muitas mulheres são bonitas. E as amigas também, super lindas e muitas delas sonhavam em ser modelos e eu fotografava. E começou por aí.

E como foi parar em Nova York?
Trabalhei um ano com minha tia e depois mudei para Porto Alegre onde estudei um ano de fotografia. Estudei fotografia na Ulbra de noite e durante o dia trabalhei como assistente em um estúdio de fotografia publicitária. Eu montava a luz e montava o set para as fotos, limpava o estúdio e fazia tudo o que um assistente faz. Trabalhei lá um ano e pouco e me formei na faculdade.

Depois me mudei para São Paulo e tive o convite para trabalhar no Estúdio Madalena, uma renomada produtora cultural que fazia o Paraty in Foco e diversos outros festivais de fotografia. Ali trabalhei como assistente do curador e produtora cultural por um ano. Em 2014 fui para a Índia com o meu marido (na época namorado). Lá dei aula de fotografia para crianças carentes em uma escola chamada de Learn of Life. Ficamos na Índia por seis meses mais ou menos. Na metade de 2014 voltamos para o Brasil.

Foi em 2014 que comecei a viver do ato de fotografar mesmo, com trabalhos de freela para a Folha de SP e outros meios. Em 2015 comecei a trabalhar com mais frequência para a Folha de SP e no mesmo ano fui escolhida para uma vaga de mentor do programa Seven Photo. Entrei para o programa de mentores deles em 2016, quando ganhei um prêmio pelo World Press Photo e segui trabalhando como fotógrafa da Folha.

Fui apresentada para Kira Pollack (editora de fotografia da Time) em 2016, em uma pauta no Rio de Janeiro para o El País. Ela perguntou se eu tinha interesse nesse projeto da Time e eu disse sim na hora. Fiquei chocada e viajei para Nova York em agosto. Foi a primeira vez que fui para Nova York e já fui direto para trabalhar para a revista Time. Naquela época ainda estava morando em São Paulo, então sai para morar em Nova York. Fiquei lá de agosto até o final de novembro de 2016. Em janeiro fui de novo para Nova York e dessa vez fiquei até março. E logo depois eu e meu marido mudamos para a Bahia, em Itacaré. E agora fui mais uma vez para a Nova York para fotografar mais duas pessoas. E finalmente ver o resultado final do trabalho da Time.

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Luisa Dorr retratando Hillary Clinton. Foto: Time

Você pode falar sobre o projeto do Firsts?
Importante destacar que é um projeto multimídia. Se você entrar em http://time.com/collection/firsts/ você verá uma série de vídeos com documentários de cada uma das mulheres e entrevista com quase todas. Não é só foto porque os vídeos são tão importantes quanto nessa peça multimídia. O projeto cresceu muito e também virou um livro. Nada disso era esperado no começo.

Começou com a ideia de fazer uma dezena de fotos e foi crescendo organicamente. Até que virou esse projeto grande com 46 fotos. Era para ter uma capa. Depois viraram 4, 8 e até que chegamos em 12 capas. Nunca na história do Time nenhum projeto teve 12 capas. O máximo que eles fizeram hoje foram cinco capas diferentes na mesma edição. E também foi feito um livro que chama First.

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A fotógrafa Luisa Dorr

Seu trabalho para a Time saiu em sites do mundo todo. Qual é a sensação? Imaginava que teria tamanha repercussão?
Eu não gosto de imaginar muito, para evitar frustração. Mas sim, sabia que teria repercussão. É um projeto inspirador, toda esta onda de mulheres que finalmente está acontecendo para tentarmos conseguir direitos iguais nesta sociedade machista. É um projeto que foi feito na “hora certa” e me sinto extremamente honrada em ser escolhida para contar esta história.

O tratamento foi feito direto no app ou no MAC?
Usei o Snapseed. Para cor e os ajustes finais, como interpolarização para a impressão da revista foram feitos no computador.

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Gerou muito barulho porque é um retrato com iPhone? O que você achou disso? Não deveria já ser um assunto mais comum, afinal, vemos a Nat Geo e o próprio NYT chamando fotógrafos para ilustrar matérias com fotos de smartphone.
Sim, deveria. As ferramentas são apenas um meio. Elas ajudam no processo, mas não criam. O que faz a diferença é aquele que segura a ferramenta e a relação que ele/ela estabelece com a fotografia, como um meio, e não como uma finalidade.

Um debate em torno dos aspectos técnicos, mantém você longe da experiência real. Haverá sempre pessoas apocalípticas e integradas; uma queixava-se dos velhos tempos, quando todos estavam atirando daguerreotipo, os outros aproveitando o passeio, sublimando a vida através da fotografia, com qualquer ferramenta disponível.

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Acredita que os fotojornalistas vão usar cada vez mais essa ferramenta? E os retratistas?
Acredito e espero que mais mídias sigam este caminho, e permitam que o fotógrafo use o equipamento que quiser para contar sua história, sendo uma câmera de analógica, digital, polaroid, ou um iPhone. Qual a diferença? É só o resultado que importa.

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Foto: Time

Você fez um trabalho para uma revista impressa. Um outro debate frequente é sobre as fotos impressas. Você crê que elas têm futuro garantido?
Creio que a tendência é diminuir, claro. Meios online atingem um público muito maior, é lógico.

Poderia falar do seu trabalho autoral? Está fazendo séries mais autorais também?
Sempre me interessei sobre o universo feminino, venho realizando projetos dentro deste tema já faz algum tempo. Como o projeto da Maysa por exemplo, sobre raça, gênero, sexismo e inclusão social. O véu da noiva, sobre a Congregação Cristã do Brasil, igreja evangélica mais ortodoxa em relação as mulheres.

Resolvi então criar um projeto para o Instagram também, ai nasceu o #womantopography.  Este trabalho é sobre rostos femininos – retratos de toda a mulher que encontro nas minhas viagens. Estou fascinado pelas paisagens e topografias dos rostos das mulheres, suas histórias e contexto. Estou interessada na forma como a vida e o tempo estão escrevendo sobre todos eles, não apenas com marcas físicas, mas também com traços mais espirituais.

#Repost @worldpressphoto ・・・ * #JSM16 participant Luisa Dörr (@luisadorr), Brazil: One picture that I’m most proud of Maysa is a project about racism in Brazil. Maysa (13) won the state title of Young Miss São Paulo “Black Beauty,” a separate title from Young Miss São Paulo, created to encourage black girls to participate. Racism is, unfortunately, very common, even with most people being a mix of several different ethnicities. It’s not common to see many black people in beauty contests in Brazil. Luana, her sister, decided she also wants be a model. *** In the next weeks leading up to the masterclass, we’ll be introducing you to the participants and masters of the 2016 Joop Swart Masterclass. Get ready to learn about these 12 emerging names in #photography and visual #journalism as well as the 5 masters who will guide the participants through the 5-day masterclass. Click the link in our bio to learn more about the 2016 masterclass, as well as how to apply for the 2017 Joop Swart Masterclass.

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Como tem sido a rotina de trabalho e quais os próximos projetos?
Eu vivo em um vilarejo de pescadores no sul da Bahia. Não existe muita “rotina”, acho que todo mundo que é freelancer tem um pouco disso.

5 new photographers who have joined the #VIIMentorProgram. First up, is Luisa Dörr (@luisadorr) of Brazil. – My name is Luisa Dörr and I’m based in São Paulo. My photographic work focuses on the genre of portraiture and seeks to address its contemporary aspects. I’ve recently joined the VII Mentor Program and will be mentored by Sarker Protick and during the course of my internship I hope to learn about aesthetic, depth, and how to navigate various complexities of the art of visual storytelling and image-making. Follow me at @luisadorr on Instagram and feel free to join the conversation! – – -About this image: Maysa (long term project) dreams to someday become Miss Brazil. In 2015 Maysa won the title of Young Miss São Paulo “Black Beauty”, which is a separate prize comparing to the regular competition that was created to encourage black young girls to participate. Racism is still very common in the contemporary society that encourage through the media the glorification of “white beauty” even with most of our people being a mix of several different ethnicities. São Paulo, Brazil.

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Hoje qual o principal meio que você usa para divulgar? Instagram, Facebook ou Snapchat ou outro?
Uso o Facebook para publicar mais links de trabalhos, PDF’s de revistas, exposições estas coisas. Uso o Instagram como forma de diário. Tenho uma memória ruim, então gosto de publicar nesta plataforma, me ajuda a lembrar de viagens, pessoas, momentos. A maioria das fotos são de mulheres, mas é acidental, não estou distinguindo gêneros. Eu gosto de fotografar seres humanos. A sexualidade deles é irrelevante. É importante falar que no Instagram só publico imagens feitas com o iPhone.

Qual o seu grande objetivo profissional?
Seguir fazendo algo que eu amo e que me faz feliz, contando histórias e sempre que possível, ter uma mudança significativa/positiva na vida das pessoas, mesmo que pequena. É isso que quero.

Saiba mais sobre a fotógrafa no site.