Entrevistas 3 anos atrás | Leo Saldanha

A memória de família no trabalho de Daniel Freitas

Fotógrafo viaja o Brasil para retratar famílias em seus momentos íntimos. Um trabalho documental que começa a ganhar mais espaço

por Revista FHOX

Daniel Freitas é mineiro de Ponte Nova, mas hoje vive e trabalha em Pelotas (RS). Ele fotografa casamentos e desde o ano passado começou também a investir na fotografia documental. Embora desafiador, o resultado mostra-se diferenciado e gratificante.

Entre viagens e belas fotos, Freitas traz na bagagem mais do que memórias, mas verdadeiras experiências de vida e novos amigos. Deve ser por isso que na assinatura junto ao seu logo está a chamada: fotografia de sentimentos. FHOX entrevistou o profissional e apresenta aqui um panorama sobre seu trabalho. Freitas vai palestrar no FHOX Talks na Alasul no dia 7 de junho.

FHOX – Como começou na fotografia?
Daniel Freitas – Comecei fotografando amigos, filhos dos amigos.

FHOX – Qual sua formação e background?
DF – Sou formado em Ciências da Computação pela Unicid e Fotografia pela Escola Panamericana.

FHOX – O que te motiva?
DF –
Sou apaixonado por música, em qualquer momento ela me motiva.

FHOX – Como tem sido a experiência na fotografia documental de família? Por que decidiu investir nesse tipo de sessão?
DF – É incrível a entrega das famílias sendo fotografadas em casa, tudo é muito verdadeiro, muito rico em detalhes que, até então, só a família e os mais próximos percebiam.
Porque mesmo fora do trabalho documental eu percebia que olhares, toque de mãos e abraços me emocionava, eu queria ir mais a fundo. A primeira vez que fotografei uma família em sua casa foi algo surreal, queria mais, queria sentir isso, mostrar para a família se eles se viam como eu os via.

Foto: Daniel Freitas. São Paulo.
Foto: Daniel Freitas. São Paulo.

FHOX – Como é atuar com casamentos e nesse projeto?
DF – Eu busco a mesma linha de fotografia, procuro estar sempre atento, não admito perder um sorriso de verdade ou uma lágrima. A diferença do casamento para a fotografia de família que tenho feito é que no casamento existem alguns protocolos/momentos que só acontecem uma vez.

FHOX – Como seria um dia típico em uma sessão de fotografia documental?
DF – Já tive a oportunidade de fotografar famílias grandes com 4 ou 5 filhos. Imagine a bagunça que é para administrar tudo que acontece na casa, banho, almoço, tarefas escolares. Como disse anteriormente, é tudo muito intenso e muito verdadeiro, muita bagunça, risadas, choros, brigas, pais dando broncas, ficando as vezes constrangidos e achando que apenas seus filhos não se comportam. Tento deixar eles sempre a vontade, mas acabo sempre ficando do lado das crianças (risos).

FHOX – Qual equipamento usa e quão desafiador é trabalhar só com luz natural?
DF – Casamento: 2 câmeras Nikon D750 + 35mm 1.8 + 85mm 1.8; Documental Família: 1 câmera D750 + 35mm 1.8. A ideia da fotografia documental é não ter o desfoque, é sempre trabalhar com aberturas mais fechadas. Até porque muitas coisas acontecem na sua frente e quero contar todas as camadas da cena.

FHOX – Quais suas referências aqui e lá fora?
DF – Brasil: Guilherme Bastian (a fotografia desse cara mudou a minha forma de sentir a fotografia), Nei Bernardes, Wellington Fugisse (coração gigante), Renato DPaula, Irmina Walczak/Savio Freire (Panoptes), Carol Zanarotti. Gringos: David Alan Harvey, Alain Laboile, Pete Souza, Alex Webb, Susana Barberá.

FHOX – Como é fotografar por tantas horas com a família? Como passar despercebido e como deixar todo mundo a vontade?
DF – Tem que existir uma grande entrega. É preciso muitas vezes colocar a câmera no chão e brincar com as crianças. Procuro conhecer um pouquinho de cada um, no meio das brincadeiras faço perguntas, vou sendo parte da casa, como o filho mais velho. As crianças sempre vão ter você como um amigo e não como um fotógrafo e as coisas fluirão naturalmente. Normalmente para eles é tudo diversão. Existem os horários mais importantes, quando tudo é mais intenso: banho, chegar da escola, quando o pai ou mãe trabalham fora, existe uma expectativa pela sua chegada e uma certa euforia e na hora de dormir sempre rola um choro coletivo por não estarem com sono, hora boa. (risos)

Foto: Daniel Freitas. Ponta Grossa-PR
Foto: Daniel Freitas. Ponta Grossa-PR

Você só vai começar a passar despercebido quando essa entrega começar, antes mesmo de ligar a câmera, conhecer o que as crianças gostam, times de futebol, trocar roupas das bonecas, jogar os joguinhos dos tablets, eles nunca vão te ver como um profissional que foi contratado pelos pais, para eles é um amigo “grande” e eles normalmente curtem novas amizades (são crianças).

FHOX – Quais produtos você entrega? Gera álbum ou só as fotos digitais?
DF – Normalmente tenho feito uma revista da família onde conta um pouco das nossas horas, mas independente da revista, sempre mando um kit com algumas fotos reveladas, quero que eles espalhem pela casa as fotos.

FHOX – Qual encadernadora trabalha?
DF – Goimage, super parceira.

FHOX – Como fazer para que a fotografia documental de família se torne mais popular e viável como produto?
DF – O mais gostoso do documental é quando vira comercial. Existe uma reeducação que muitas vezes tem que ser feita com alguns clientes. Sou muito aberto com cada família que me procura. Às vezes eles querem o que o amigo/vizinho fez, aquela foto mais tradicional feita no parque, eu também faço e gosto muito, mas mesmo no parque procuro algo mais documental. Mostro um pouco desse trabalho, sempre pergunto o que sentem vendo as fotos, peço para pensar daqui vinte anos, se fosse seu filho que valor teria essa fotografia.

Esse tipo de fotografia acaba tendo um valor sentimental maior, os pais começam a falar de sua infância, que não tem esse tipo de recordação, é nessa hora que acabam entendendo esse tipo de trabalho é mais que fazer uma sessão de fotos de duas horas.

FHOX – O que faz para o marketing? Mais boca a boca ou usa outros recursos?
DF – Uso muito as redes sociais e os clientes que viram amigos, eles são minha maior propaganda. Já fiz muitas fotos por indicação de pessoas que nunca foram fotografados por mim. Sou muito flexível e isso ajuda muito principalmente no pós venda, o cliente ama fotografias, ele no dia seguinte quer sentir mais um pouco daquela intensidade que foi ter sua família fotografada por muitas horas. Eu também me emociono e quando estou fazendo os backups e revendo tudo que aconteceu nas últimas horas, sempre mando uma foto agradecendo, falando sobre tudo que senti.

Recebo vídeos dos filhos falando que estão com saudade, a Helena (2 anos) que fui fotografar no Rio de Janeiro me viu falando ao celular com minha esposa Jaqueline (Jaque) e no dia seguinte pediu para falar com a Jaque. É isso, o melhor reconhecimento, saber que os filhos das pessoas que me contratam vão ter algo tão valioso para as próximas gerações.

FHOX – O que vai falar na sua palestra da Alasul?
DF – Será bem rápido, mas quero falar um pouco de como tenho conseguido fazer com que os clientes queiram ser fotografados em casa, alguns bastidores e principalmente o feedback de algumas famílias, do que foi essa experiência para eles.

Veja algumas imagens do trabalho de Daniel Freitas: