Entrevistas 4 anos atrás | Regina Sinibaldi

Lucila Wroblewsky fala de seu projeto mais recente

Fotógrafa capta imagens com Lomo em busca de uma narrativa dinâmica

por Revista FHOX
travessia-3Lucila Wroblewsky

O mais novo projeto de Lucila Wroblewsky é a série “travessia_memórias do que não vivi” em que a fotógrafa com uma câmera Lomo Diana médio formato busca outra visualidade. Parte dessa série esteve em exibição na Biographica, na SP-Arte/Foto 2016. FHOX bateu um papo com a artista que também é representada pela Mira Arte.

Por que Lomo?
Lucila – Por ser uma máquina de plástico é um suporte ágil, o que permite imagens não posadas, instantâneas. Ao longo do processo são incorporadas limitações, acidentes, entradas de luz na câmera, impressão dos números sobre o filme, etc., todo o processo do registro fotográfico em uma situação mais exposta e decodificada.

Este ensaio fotográfico tem tiras de imagens sobrepostas em filme 120 mm, posteriormente escaneadas e impressas em papel de algodão. Propõe-se a estabelecer outra visão/relação com a paisagem por uma narrativa que seja não estática, não acadêmica, visa obter uma paisagem vista com olhos contemporâneos.

travessia-2Lucila Wroblewsky

Na trajetória de mais de 20 anos de produção artística houve marcos de ruptura em sua linguagem?
Lucila – São 38 anos fotografando! Comecei em 1978 e sempre me interessei por linguagens fotográficas. Frequentava o Museu Lasar Segall que possuía na época um laboratório fotográfico coletivo, onde podíamos revelar filmes e ampliar fotos. Isso foi muito legal para mim, porque já ali nós (as pessoas que usavam e os plantonistas, pessoas que ajudavam e explicavam as coisas do laboratório) exercitávamos uma troca do jeito de cada um fotografar, que era natural e nada baseada em livros. Dessa maneira comecei a desenvolver uma linguagem própria.

Nessa época a senhora estava na faculdade?
Lucila – Cursava a faculdade de arquitetura, ou seja, pensar, sentir, avaliar os espaços e suas volumetrias eram algo importante para mim e ao mesmo tempo um mergulho nos espaços para tirar deles sensações, além do que via concretamente como texturas, formas, diferença de fundo e figura, de foco e desfocado, de claro e escuro. Ainda sentia que se fotografava algo invisível, uma emoção, uma sensação, que não sei como se configurava na imagem.

E as rupturas de linguagem?
Lucila – Na verdade identifico muito mais interesses que foram mudando do que propriamente rupturas. Eu diria, com medo de parecer convencida, que o olhar foi se sofisticando. No começo a gente tem certa ingenuidade com a imagem, e eu perseguia uma pureza de intenção e resultados, tipo: foto preto e branco, enquadramento certeiro (era “proibido” cortar um fotograma, sempre usava o negativo integral), momento decisivo.

Depois, ao longo dos anos e da prática, conforme fui conseguindo o resultado pretendido, parece que o caminho ficou inverso, e eu pude deixar o acaso nas composições e também atuando sobre ele. Deixar tudo pronto, composto, mas na hora do clique também deixar que o acaso funcione, como produzindo imagens mais borradas, desfocadas, tremidas, enfim, uma imagem menos limpa mas ao mesmo tempo mais visceral, que quer “entrar” mesmo na paisagem, quase como se quisesse entrar nos átomos das coisas. Pra mim tudo o que fotografo são paisagens.

travessia-1Lucila Wroblewsky

Como a senhora interfere no acaso de uma imagem?
Lucila – Manipulando a câmera no que ela me permite, tipo não adiantando o filme completamente, sobrepondo fotogramas em ritmos que imponho e que imagino quais resultados me darão, enfim, procuro ativamente colocar interferências nas imagens. Digo acaso porque atuando dessa maneira não tenho a certeza absoluta do resultado, mas sem dúvida sei que tipo de resultado procuro e quando chego a ele é este que escolho.

A senhora usa câmera digital?
Lucila – Faz anos que fotografo muito com celular. Na verdade minha dupla ultimamente tem sido celular/Lomo. Nessas imagens, feitas com dispositivos móveis, experimento vários aplicativos de pós-produção. Tenho fotografado quase que diariamente dessa maneira.