Entrevistas 1 mês atrás | Flávio A. Priori

V Fórum Latino-Americano: João Kulcsar e a Cultura Visual

Conversamos com fotógrafo durante o "Fórum Escuta", realizado dentro do V Fórum Latino-Americano de Fotografia

por Revista FHOX

A primeira grande atividade do V Fórum Latino-Americano de Fotografia aconteceu nos dias 13 e 14 de junho, o “Fórum escuta”. O objetivo foi discutir a fotografia sob vários espectros, assim como é a ideia do fórum como um todo e da exposição Ainda Há Noite/Nos Queda la Noche.

A dinâmica da reunião foi bastante interessante e diferente. Foram separados três temas principais para serem discutidos: “Fotografia e Cultura Visual” (coordenado por João Kulcsar e Daniel Sosa), “Questões de gênero na fotografia” (coordenado por Andrea Josch) e “Para onde vão os eventos fotográficos?” (coordenado por Guadalupe Lara e Tiago Santana). Todos no mesmo ambiente, mas em três mesas distintas. Todos do público poderiam ir começar em qualquer uma das mesas, da mesma forma que poderiam mudar quando quisessem.

A ideia foi gerar o debate entre os presentes, provocar com questões importantes para o meio da fotografia e ouvir todas as vozes que ali estavam. Ah, vale dizer que as mesas aconteciam ao mesmo tempo. Parece até um tanto caótico, mas na prática as coisas funcionaram muito bem.

Claro que com tanto conteúdo sendo gerado em paralelo, seria difícil compilar tudo que foi discutido ao longo das três horas do fórum. Mas conseguimos conversar com João Kulcsar no final do primeiro dia para saber suas impressões do fórum e alguns dos principais tópicos abordados na sua mesa.

João Kulcsar
João Kulcsar

 

Fhox – Como foi essa experiência do “Fórum escuta”, quais foram suas impressões sobre esse formato de debate?

João Kulcsar – Foi uma experiência nova. Foi algo aberto, com alguns temas, o nosso foi “Fotografia e Cultura Visual”. As pessoas não estão acostumadas a fazer uma dinâmica como essa, mas foi muito rico porque tem que ter uma disciplina, ter um tempo de fala, muito de escuta, de reflexão. Fiquei muito entusiasmado e, pelo resultado geral, fiquei muito confiante.

As conversas iniciais foram um pouco dispersas, com temas diferentes, pois cada um tem suas questões. Mas depois o assunto foi afunilando e chegando em algumas considerações próximas. Eu acho que a gente adensou e minha expectativa é a gente continuar e aprofundar mais o tema, pois são assuntos muito complexos, poderíamos ficar dias aqui pensando.

Mesa “Fotografia e Cultura Visual”

 

Fhox – A sala estava bem cheia, tivemos muitos participantes hoje.

João Kulcsar – Nossa, muita gente! Acho que tinha umas 25 pessoas só em um grupo, em torno de uma mesa. A gente usou um mural para visualizar essa aprendizagem, esse processo foi muito rico.

Fhox – Deu para notar que em todas as mesas, um tópico em comum foi o papel da fotografia e do fotógrafo na sociedade. Como você acha que pode ser a contribuição nesse aspecto?

João Kulcsar – A fotografia é fundamental nos dias de hoje, ela está enraizada na população. A maioria das pessoas tem um celular, produz imagens, uma produção avassaladora. Mas a gente pensa que esse consumo deveria ser mais crítico. Para isso temos que desenvolver uma educação, na parte de alfabetização visual que é leitura crítica e produção, então é importante que as pessoas desenvolvam esse tipo de educação. Todo mundo tem um grau de alfabetização visual, porém é importante que as pessoas sejam conscientes dessa desenvolvimento. Muita gente produz imagens do celular mas o que significa essa imagem? Qual o poder dela? Quais as perguntas que ela pode levantar?

Mesa “Questões de gênero na fotografia”

 

Fhox – Percebemos que outra questão importante é como levar a fotografia para comunidades distantes e pessoas que não têm acesso à fotografia normalmente. Como fazer para os fotógrafos irem além das suas “bolhas sociais”, algo tão comum para todos nós na nossa sociedade?

João Kulcsar – Vivemos nesse algoritmo! Reclamamos do Facebook, do Whatsapp, mas no final a gente quer mesmo é viver na nossa tribo. É natural termos essa tendência de ficar com os nossos pares, mas precisamos perceber que só a diversidade faz com que gente aprenda. Só o diferente nos faz pensar em outras possibilidades, não ficar preso e não ficar com medo da vida.

Acho que na fotografia, por ser algo democrático e pela produção existente hoje nas mídias sociais, você consegue produzir conteúdo em diversas comunidades e grupos, discutir vários temas. Muitas vezes ficamos só no nosso mundo e essa é outra preocupação: como você pode acessar outros grupos? É a grande questão.

Percebemos isso porque muitas vezes as falas são “ah os fotógrafos só estão fazendo o mesmo”. Talvez esses estejam vendo só o grupo deles. Se você não procura alguém de outra classe social,de outro outro gênero, outra região, de outra ideologia, você vai ficar sempre com os mesmos. Não vai perceber e não vai enriquecer o seu conhecimento. Melhorar a sua estética, sua técnica e sua ética.

Mesa “Para onde vão os eventos fotográficos ?”

 

Fhox – O assunto representatividade também foi bem discutido aqui nas mesas.

João Kulcsar – A gente vê isso muito forte. Mesmo aqui, nesse ambiente, houve pouca representação quando comparado com o que é o Brasil. E aí como é que você usa imagem para melhorar isso? Acho que é uma responsabilidade que temos que estar atentos e pensar que é algo muito importante na hora de discutir, de fazer mesas e essas construções.

Fhox – E o que você espera que os participantes levem daqui após todos esses debates?

João Kulcsar – Hoje foi muito positivo, mesmo aqueles mais quietos participaram, fizeram suas considerações. Participaram falando, escrevendo ou refletindo então eu fiquei muito surpreendido, não achava que seria tão bacana. Percebemos que as pessoas querem falar, querem estar juntas, querem discutir assuntos, levar suas preocupações. Aconteceu isso hoje, se pegarmos a primeira meia hora e depois a segunda, terceira, quarta vemos que tudo foi se aprofundando das questões mais simples, do que é uma fotografia boa, foram saindo da pauta.

Fhox – Para finalizar, de tudo que foi falado, algo em especial chamou sua atenção, te marcou de alguma forma?

João Kulcsar – O que mais me impactou foi isso, no começo as pessoas estavam mais voltadas para seus próprios interesses, e depois com o tempo elas foram falando, a partir de suas realidade mas do coletivo. Então, por exemplo, “eu sou fotógrafo e vou falar só de fotografia da estética porque eu manjo de preto e branco” – não foi o caso mas só para demonstrar. Depois no final essas pessoas já estavam falando sobre a fotografia em geral não só sobre o assunto deles. Acho que essa provocação foi muito boa, foi muito muito interessante e percebi que as pessoas foram mudando durante o processo, ouviram, foi muito democrático.