Entrevistas 1 mês atrás | Flávio A. Priori

Projeto #HerWords denuncia violência verbal contra mulheres

Iniciativa tem como objetivo retratar violência verbal sofrida por mulheres no Brasil

por Revista FHOX

O Brasil apresenta números extremamente preocupantes em relação à violência contra mulheres. De acordo com dados obtidos pelo Datafolha em pesquisa publicada em fevereiro, por encomenda da ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em 2018 cerca de 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil. Ao mesmo tempo, 22 milhões de brasileiras, equivalente a 37,1% da nossa população, passaram por algum tipo de assédio.

Em um cenário como esse, todos os trabalhos que sirvam para denunciar essas atitudes e conscientizar as pessoas sobre a seriedade do problema são oportunos. É nesse sentido que o fotógrafo e diretor de fotografia Eduardo Fuica elaborou o projeto #HerWords. A iniciativa tem como missão transmitir experiências de agressões verbais sofridas por mulheres no Brasil e mostrar os tipos de violência aos quais elas estão sujeitas na sociedade.

O #HerWords nasceu de outro projeto o qual Fuica trabalhava, o InsideOut. Neste, a abordagem era trabalhar com pessoas que superaram traumas e outros tipos de adversidade em diferentes formas. “Notamos que 90% de todas as pessoas que retratávamos eram do sexo feminino e foi nesse momento que fico muito claro para mim sobre como a mulher é o ponto de descarga de todos os tipos de abusos em nossa sociedade.” Ao ouvir tantos relatos tristes, se sentiu envergonhando de ser homem, afirma o fotógrafo.

Assim, resolveu começar esse projeto que tem como público alvo os homens. “Nosso principal objetivo é atingir o público masculino e na conscientização de todos os tipos de violência. Principalmente as não “tradicionais” que são parte do nosso inconsciente e consciente coletivo masculino”, conta Eduardo.

“Nesse primeiro projeto com a Isabel Hickmann a ideia inicial era não mudar ou minimizar o que a nossa retratada viveu e como queria falar sobre. É muito comum a apropriação masculina sobre temas que são de direito e vivência feminina. Isso já é uma forma de violência e de violação; então o principal objetivo desse primeiro vídeo foi a não influencia ou direcionamento de como tudo seria contado. Foi de escolha da Isabel expor o que foi exposto e da forma que foi exposta.”

Isabel Hickmann é a a protagonista desse primeiro trabalho, e teve seu desempenho muito elogiado por Eduardo “A Isabel é uma maravilhosa, forte, cheia de vida é uma das muitas representantes do que o mundo tem de melhor, ela é mulher. Ela se abriu e expôs momentos da vida pessoal dela. A experiência do shoot foi emocional, acredito que tenha saído daquele ensaio muito melhor que entrei.” Além da modelo, o vídeo conta com depoimentos de mais quatro mulheres.

Conscientização

Sobre a importância de um projeto como esse na nossa realidade, Eduardo afirma que antes de tudo, é preciso perceber que violência e assédio existem. Ao mesmo tempo ele também explica que essa cultura da violência está enrustida nos “costumes” da sociedade e que isso é muito de responsabilidade dos próprios homens. A igualdade nos espaços e direitos é necessária, e não um favor.

“Gostaria que o projeto tivesse uma forma mais ativa na prevenção de violências e assédios trabalhamos para que isso aconteça. Estamos tentando parcerias com bares na região da Vila Madalena para a aplicação de uma ideia que já foi usada aqui na Europa [Eduardo mora em Londres] e funciona muito bem.

violência

O fotógrafo continua, “em paralelo, todos os conteúdos gerados para o projeto terão um “approach“ para o público masculino. A ideia não é amenizar , é tocar e fazer com que fichas caiam. Se conseguirmos fazer quem um assobio na rua deixe de existir o projeto já teve sucesso.”

Eduardo também tem planos para levar o HerWords para outros países, para denunciar outras formas de violência. O plano é que novas fotos e um novo vídeo sejam publicados a cada quatro meses. Nos seguintes a abordagem deverá ser mais cinematográfica, se aproximando de um curta metragem e documentário.

“Vale apena entender que o projeto será destinado ao público masculino. Temos que entender que comportamentos aprendidos desde que somos crianças, junto com o tipo de conteúdo que temos nas TV, filmes e propagandas são cruciais para a formação de feminicidas e assediadores. Precisamos construir desde de cedo uma nova sociedade que entenda os parâmetros reais de igualdade, igualdades sem condições pré estabelecidas.”