Apoie a FHOX Impressa e garanta recompensas incríveis!


A delicada arte de fotografar mulheres

Mateus Lunardi Dutra palestrou no FHOX Talks 2016 na última Feira Fotografar. Sua palestra surpreendeu a todos com um conteúdo instigante e final impactante. Nessa entrevista exclusiva ele comenta sobre sua evolução no mercado, os desafios que encara e como trabalha nesse segmento ao mesmo tempo desafiador e repleto de oportunidades.

FHOX – Por que começou a fotografar?
Mateus Lunardi Dutra – Não sei o motivo exato que me levou a começar a fotografar. Como qualquer pessoa que admira fotografia, decidi comprar minha DSLR em 2011. Claro que não entendia coisa alguma de fotografia, muito menos teoria. Eu sou bastante intuitivo, e muitas vezes minha intuição me levou a experiências gratificantes. Outras vezes, nem tanto. Nunca fui um entusiasta da teoria. A partir do momento em que me interessava em certo assunto na fotografia, eu estudava, ia atrás. Hoje não há desculpas: na Internet se tem de tudo, só pesquisar.

Então, quando me senti “preparado”, decidi testar meu primeiro ensaio no final de 2013, claro que foi um desastre em termos de horário e locação: verão, no meio da tarde, abaixo de um sol fortíssimo. Mas são coisas que você experimenta, arrisca… e eu não tinha noção alguma de como dirigir, nem de construção de poses. Então passei a observer mais atentamente os retratos, sejam femininos, de família, etc. Até que por Junho de 2014 fui ao meu primeiro workshop que me abriu a mente, literalmente. E foi a partir desse mês, quase dois anos atrás, que decidi seguir com retratos. E a área de retratos femininos sempre foi uma área que me chamava muito a atenção, acho que por ser possível trabalhar e passar conceitos, ideias opostas, que eu adoro fazer e tenho descoberto isso recentemente.

FHOX – Qual equipamento usa e porque decidiu por ele?
MLD – O equipamento que utilizo é o seguinte: Fuji X-T1, X-E1 E x100s, com lentes 35mm 1.4 e 56mm 1.2 para as intercambiáveis. Sendo que na maioria do tempo eu utilizo a 35mm mesmo, me dou melhor com ela, gosto da sutil distorção que ela apresenta e como a mesma leva ao objeto retratado. Eu decidi pelo fato da Fuji apresentar tons de pele incríveis e fidelidade de cores que jamais havia visto e, por ser uma mirrorless, a nitidez em aberturas amplas (1.4, 1.8) é algo de outro mundo. Como eu falo a quem vem me pedir sobre a Fuji: é algo que você tem que experenciar com seus próprios olhos, não adianta.

fotografia-feminina-4 fotografia-feminina-5

FHOX – Como faz para dirigir as retratadas? Ou fotografa sem direção?
MLD – Sou bastante cauteloso na questão de construir poses, ainda mais quando em ambiente interno, que envolve uma delicadeza extrema para não passar nada vulgar. A direção é essencial. A conexão nasce a partir da direção e do jeito com que você o faz. É tudo uma questão de intenção, consequentemente, de posicionar-se. E não somente na questão de pose, mas também na linguagem estética que você passa. A linha entre o delicado e o vulgar é bastante tênue. É uma mudadinha de expressão facial, de posição do dedo/mão e já se tem algo totalmente oposto do que você deseja. Então, para dirigir as modelos – que na sua maioria são pessoas comuns, não trabalham como modelos – inicio com retratos padrões.

Ao mesmo tempo, observo a reação dela quando peço certo movimento de braço, mão, queixo, a fim de construir uma pose. Cada pessoa é diferente da outra. Por isso que não acredito em poses, mas sim em construção de poses, afinal uma pose que fiz com uma modelo provavelmente não se aplicará de modo igual à outra. E acho que as pessoas esquecem disso, pois vejo tantas poses engessadas, com uma expressão corporal e facial que não me passa coisa alguma.

fotografia-feminina-1

FHOX – Como trabalha o tratamento das fotos?
MLD –  Então, esse é um assunto que é um dilema para mim no momento: há fotos que não edito nada, vai direto do jpeg da câmera (fotografo em RAW + Jpeg). E outras que edito me preocupando com equilíbrio de cores, para elas ficarem agradáveis aos olhos. Mas editar é uma questão super subjetiva, e meu jeito de editar é super básico, sem mistério algum. E não tenho a pretensão de passar desse básico, visto que procuro fazer boa parte do retrato na câmera (80 a 85%).

FHOX – Como avalia o segmento de fotos femininas?
MLD – Como qualquer outra área da fotografia, é algo que está crescendo bastante, mas ao mesmo tempo se tem muita coisa parecida. Creio que, para qualquer área de trabalho, se deva ir atrás de fontes corretas para inspirar o seu ofício. E isso não quer dizer necessariamente buscar com fotógrafos somente da área que você fotografa. Já aprendi muito com gente que fotografa casais, família. E, também, ir além da área que você atua, quer dizer, eu busco referências em pinturas, música, videoclipes… cada um tem por onde buscar suas inspirações/referências. Eu tento não ficar preso ao mundo da fotografia somente. Creio que seja super útil sair da sua zona de conforto sempre que possível, isso causa uma evolução no seu olhar. E acho que isso que temos de fazer sempre, nunca nos conformar com o que estamos fazendo, sempre buscar pela excelência, mas de modo sadio, sabe?

FHOX – Acha que é possível fotografar ensaios desse tipo com smartphone?
MLD –  Acho e, inclusive, às vezes, eu tiro fotos com meu celular. Eu criei um projeto que que faço somente com o celular: são 2 fotos e um video. Ele está parado, mas logo volto a atualizar ele com mais ideias. Para quem quiser visualizar, é o perfil no Instagram @seorsum. Acho super prático a fotografia móvel e, se eu pudesse, fotografaria apenas com meus olhos.

fotografia-feminina-3 mateus8

FHOX – Qual seu sonho nessa profissão?
MLD – Meu desejo é ser destination portrait. Ir a lugares, ir às pessoas. Viajar. Essas experiências te enriquecem tanto. Conhecer gente através da fotografia é algo que nunca fiz na vida e que realmente me dá prazer.

FHOX – Como foi a experiência de palestrar no Talks?
MLD – Foi uma experiência ímpar! Ter vinte minutos para falar de algo é um desafio enorme. Tanto que eu não sabia do que exatamente falar. Mas, novamente, segui minha intuição e propus uma dinâmica que considerei mais adequada à proposta do Talks, que é esse tempo de 20 minutos para você provocar um brainstorming nas pessoas. Fazê-las questionar, refletir, enfim… pensar sobre o que estão fazendo, essa coisa de conhecer a si antes de tudo. Como falei no Talks, somos seres em constante evolução e mudança, então tenho aplicado conceitos que antes não aplicava em meus retratos, e tenho me achado muito nesse caminho.

fotografia-feminina-6

FHOX – Viver da fotografia é desafiador?
MLD – Com certeza é, ainda mais que basicamente todo mundo fotografa – seja com um smartphone, câmera compacta, DSLR, mirrorless… tanto faz. É algo que eu gosto, pois temos a chance de ver diferentes pontos de vistas, mas ao mesmo tempo é algo que me faz pensar em sempre sair do quadrado, em buscar coisas novas, não permanecer no mesmo lugar.

FHOX – Que dica daria para quem quer entrar na área?
MLD –  Não sou do tipo de pessoa que dá conselhos. Mas antes de tudo, certifique-se de que é isso mesmo que você quer fazer. Não entre com ideia errada, pois é uma área extremamente delicada de lidar, ainda mais com tantos casos de assédio que aparecem por aí. Homens: não sejam essas pessoas. É muito difícil você conquistar a confiança para retratar, ainda mais sendo homem. – e muito mais na área de retrato boudoir. Então, sejam claros desde o início, pois a intenção diz tudo. Ela pode te levar para caminhos legais ou simplesmente te arruinar.

FHOX – Algum outro comentário ou consideração?
MLD –  Um retrato tem que causar mais perguntas do que respostas. Não existe uma interpretação única e absoluta para um retrato. E ele tem que fazer seu coração e mente sentirem.