Entrevistas 2 anos atrás | Leo Saldanha

A vingança dos analógicos

O jornalista canadense David Sax falou sobre seu novo livro e o retorno de um comportamento analógico nas novas gerações

por Revista FHOX

 

unnamed (2)

A conversa ocorreu essa semana via Skype. Enquanto aqui em São Paulo a temperatura era 25 graus, lá em Toronto abaixo de zero e nevando. Sax fala português. Aprendeu o idioma depois de passar seis meses no Rio de Janeiro. Jornalista experiente com colaborações frequentes para renomadas publicações como a Bloomberg, The New Yorker, Vanity Fair, New York Magazine, New York Times e NPR. Seu quarto livro aborda a retomada do consumo analógico em várias frentes: papel, vinil, filme fotográfico e outros.

unnamed
David SAx em foto de Christopher Farber em retrato com filme Impossible Project

O próprio jornalista diz: “não é uma questão de nostalgia ou de modinha hipster. É uma mudança mais complexa. O analógico remete a imperfeições ligadas a nossa realidade, onde tudo pode pode ser tocado e sentido. A experiência analógica nos dá um prazer e é gratificante de um jeito que só é possível no mundo real. O digital não faz isso” diz ele. Aliás, para ele esse mundo digital deixou tudo muito preto no branco. “No ambiente virtual, temos que fazer escolhas binárias. Temos qe escolher entre 1 e 0. Entre Apple ou Samsung. Curtir ou não curtir. A vida não é assim”.

NYT2

Meu primeiro contato sobre o livro foi no começo desse ano em um artigo do New York Times que destacava o retorno da onda analógica. O texto indicava que só as vendas de vinil subiram 416 milhões de dólares em 2015. O maior pico desde 1988. Aliás, tanto no caso dos LPs quanto no das câmeras instantâneas, os dois grupos com forte influência e que estão puxam a retomada são jovens e celebridades (sobretudo músicos). O fato é que lançar discos de vinil tem um apelo da exclusividade (e o valor de algo grande tangível) com som melhor e que pede para você parar, estar presente e escutar. Enquanto no caso da fotografia instantânea envolve questões de privacidade, de diversão e de gerar uma foto única. Uma nova forma de comunicação.

unnamed (1)
David Sax em foto de Christopher Farber, feita com filme Fujifilm

A decisão de escrever o livro veio com a percepção na transformação do comportamento das pessoas. Um dia, Sax estava em um jantar com amigos e todos estavam em seus smartphones e não conversavam entre si. “As normas sociais mudaram com a tecnologia” diz ele.

SWS-video_4
Moleskine. A empresa não vai contra, na verdade estimula a sinergia com os smartphones. Papel e tela convivem bem

O livro é fascinante e mostra as diferentes faces do analógico. Da venda de jogos de tabuleiros até os clássicos cadernos Moleskine. A fotografia faz parte do conteúdo com cases como o da Ferrania (fábrica de filmes que voltou a ativa na Itália), The Impossible Project e Fujifilm Instax.

maxresdefault

Embora mostre a força do que pode ser tocado, o texto pondera sobre os desafios e bloqueios de cada um dos segmentos abordados.Isso quer dizer: claro que o digital e os smartphones dominaram as relações. Embora esteja claro que as possibilidades e oportunidades não param de surgir. Sax comprova isso mostrando com diversos exemplos e fatos  esse avanço. De novo, talvez o mais contundente dos cases seja sobre o público-alvo que mais consome o analógico: os jovens. Essa uma indicação clara de mais do que uma tendência. Só é difícil saber o que virá pela frente.

use-Instax-for-your-Guest-Book-690x460

Sax contou o que a sobrinha de 8 anos pediu um presente de aniversário. Uma câmera Instax. Não por conta do apelo do vintage ou porque é modinha, mas sim pela novidade e o encantamento de ver e tocar uma foto que sai na hora. “Essas crianças que nasceram em 2009, 2010 já nasceram com o iPhone e o iPad e o Facebook como algo normal. A novidade agora é o que é diferente” diz ele.

star-wars-1147501_960_720

Existem muitas lições para nosso ramo, mesmo de fora da fotografia. Como a parte do livro que fala sobre a forte conversão na indústria fonográfica . Com o digital, as pessoas podiam escutar e baixar quantas músicas quisessem. “Um amigo colocou tudo em digital em 2007 e perdeu o interesse pessoal e a paixão pela música. A curiosidade desapareceu”. Talvez essa seja a explicação da retomada dos discos de vinil. Com novas fábricas no Estados Unidos, Europa e aqui no Brasil. Com fábricas que triplicaram o número de funcionários e que não estão dando conta da produção.

after

O livro de Sax diz que consumo hoje representa só 10% das vendas mundiais na indústria fonográfica, mas muito mais lucrativo do que a venda de centavos dos arquivos digitais. E com tendência de crescimento. Nesse ponto, lembrei da venda de álbuns e produtos fotógrafos impressos. A relação de valor é similar. Com rentabilidade muito maior e justificativa de preço e valores para quem vende álbuns e outros produtos impressos. Quem ficar só na venda de fotos digitais vai quebrar a cara.

Girl Hipster Analog Camera Photography Camera
Girl Hipster Analog Camera Photography Camera

Perguntei para Sax se ele acha que a onda analógica vai chegar em algum momento por aqui. “A venda de filme é lenta no Brasil agora. Até por causa da crise. Mas vai ser um diferencial para o fotógrafo profissional. Algo selecionado. Creio que vai crescer aí também. O fotógrafo com filme está presente e valoriza cada momento. Isso aparece nas fotos”. Ele citou como um amigo fotógrafo que atua em NY para a revista The New Yorker e prefere fotografar com filme.

A vingança dos analógicos será lançado mês que vem no Brasil, pelo selo de ideias e debates da Rocco, o Anfiteatro. (Tradução de Alexandre Matias, 304 pgs, Preço: R$ 44,50). http://www.rocco.com.br/selo/anfiteatro/