Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: https://www.amandaleite.com.br Contato: amandaleite@uft.edu.br

Um banheiro peculiar: a fotonarrativa de Duane Michals

Se pretendíamos seguir uma narrativa lógica e sequencial, na passagem de um quadro a outro somos surpreendidos pelo novo, pela fissura no espaço atemporal

por Revista FHOX Publicado há 2 anos atrás | por Amanda M. P. Leite

Você conhece Duane Michals? É um fotógrafo norte-americano conhecido por criar fotonarrativas com cenas e objetos do cotidiano. Seu jeito de narrar histórias é completamente diferente. A inovação está no desafio que lança ao olhar do espectador. Cada fotosequencia parece exibir e, ao mesmo tempo ocultar, os sentimentos e as inquietações do fotógrafo. Como um contador de histórias Michals apresenta breves narrativas instigando o olhar do observador a desvendar os mistérios contidos em sua captura. Para isso deixa pistas, seduz o olhar, joga com reflexos, sombras, sobreposições, cria um roteiro sequencial e materializa seus contos visuais. Ele criou um novo modo de se fotografar e de se olhar a fotografia. A fotografia de Michals é um convite aberto que brinca com a imaginação. Seus registros surpreendem.

foto

A série fotográfica que apresento é uma das clássicas fotonarrativas de Duane Michals, Things are queer, de 1973. Nela o fotógrafo brinca com o espaço e provoca a repetição, o retorno, o efeito de zoom. Na medida em que avançamos de um quadro para o outro percebemos e agregamos novos elementos e sensações às imagens. Um movimento que se repete sempre que uma janela se abre.

DM3Série bastante peculiar porque sem perceber caímos no jogo que Michals nos convoca a jogar. Não basta simplesmente acompanhar as passagens de um quadro a outro. Em alguns momentos temos a sensação de investigar o detalhe a procura da origem. Que diferença faz saber se a composição começa com o primeiro ou o último quadro? A sobreposição de imagens metamorfoseia as categorias de espaço e de tempo. Quanto mais olhamos a série, mais adentramos ao labirinto que ora ofusca e ora revela a profundidade da superfície fotográfica de Michals.

É inegável que o jogo de forças nos incita a examinar esta série fotográfica mais de uma vez. Será que “as coisas são estranhas” por que tocam a subjetividade? Ou são excêntricas por que não vemos a precisão da realidade? A fantasia nos aprisiona e ao mesmo tempo em que nos liberta da/na imagem. Michals compõe com a fotonarrativa e o intervalo entre um quadro e outro é o que nos faz pensar.

Não se trata de buscar “o sentido” da arte e, sobretudo, da fotografia. Quanto mais este movimento acontece, mais sem sentido ele se torna. Esta busca por si só é questionável – sempre haverá conflitos e tensões postos pelos registros fotográficos. Na obra de Michals a força está em desafiar o olhar do espectador sobre a intimidade, o temor, a dúvida, o prazer que é ex-posto em narrativas do cotidiano. São retratos simbólicos que questionam a própria a fotografia e sua capacidade de documentar. A fotografia conceitual de Michals engana, inventa, inova, provoca dobras, produz ficção.

Não apenas em Things are queer (1973), mas também em The fallen angel (1968), The Human Condition (1969), Magritte With Hat (1965), Grandpa Goes to Heaven (1989), entre outras séries fotográficas, Michals cria dobras, fissuras, fragmentos de tempo e espaço que se amplia, se desdobra, se retorce, se distorce. Quando captura seu autorretrato o fotógrafo cria o seu duplo, borra as fronteiras passando de um lado a outro por superfícies.

Michals pensa a fotografia por narrativas como no cinema. São pensamentos que se desprendem de enquadres como acontece na série Chance Meeting (1970), em que nos perguntamos se a sequência realmente existiu. Michals estabelece o conflito, o campo de tensão e a partir dele compõe a narrativa. Um quadro está conectado a outro quadro em um movimento que nem sempre é circular, mas, sequencial. Um elemento novo sugere que alguma coisa aconteça.

Se voltarmos a série Things are queer, veremos que a ruptura com o espaço e o tempo se dá no segundo quadro, isto é, quando a perna gigante e desproporcional entra em cena. Afinal, de quem é aquela perna? Por que agora o banheiro parece tão pequeno? Estaria o grande homem em um quarto de hotel, distante de sua casa e de seu espaço íntimo? Avançamos de um quadro a outro sem respostas. Apenas jogamos – como deseja Michals. Nossa tentativa é relacionar a narrativa com a leitura que temos do cotidiano.

Se pretendíamos seguir uma narrativa lógica e sequencial, na passagem de um quadro a outro somos surpreendidos pelo novo, pela fissura no espaço atemporal. O movimento do terceiro para o quarto quadro vai mais além; mostra um homem que é personagem de um texto e, está em outro contexto. Ora! Há mais histórias dentro da história!