Por Leo Saldanha
É publisher da FHOX e também responsável pela Escola de Negócios FHOX leo@fhox.com.br

Todo mundo quer o topo…

A foto de um alpinista nepalês é a alegoria perfeita para muitos mercados. Inclusive o nosso...

por Revista FHOX Publicado há 5 meses atrás | por Leo Saldanha
A foto de Niraj Purja. Horas de espera no topo do mundo

Na última semana a foto de um fotojornalista correu o mundo. No ponto mais alto da Terra uma fila com 200 alpinistas. O topo do mundo está lotado. A fotografia do alpinista nepalês Nirmal Purja apareceu em alguns dos principais sites de notícia do Brasil e de fora. Foi parar na tevê inclusive. Não demorou para virar textão em posts no Facebook como analogia para muitas coisas. Por exemplo, poderia ser uma alegoria da busca pelo sucesso em um mercado saturado. Olhando para a imagem impressionante não dá para não concordar. A fila não deixa você avançar porque só passa um por vez. A mesma corda que leva ao cume é a que serve ao retorno. Resultado: horas de espera para alguns porque tinha gente em excesso querendo seu lugar lá no pico. Chegar lá não é fácil.

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The sheer number of people trying to ascend one or two parallel fixed lines -all in a short weather windows- on the Lhotse face is for me the 2nd most dangerous part of the climb both for the Nepali normal route on Everest and the normal route on Lhotse. This picture which was published in many newspapers/magazines around the world (like @lemondefr or @outsidemagazin etc.) I took in 2012 when there was only one real weather window – which was deadly for some climbers as they run short of oxygen. They had to wait too long in the bottle necks of the ascend route towards the summit. And unfortunately the weather wasn‘t as good as predicted. Try to avoid such massively crowded days, be patient and wait for a second or third weather window. In this series of photos about the Nepali and Tibetan 8,000 m peaks, I want to share a few hints on how to make climbing these big peaks a bit more safe. . My Sponsors, who allow me to live my dreams: @Schoeffel_official #Schöffel #ichbinraus @Lowa.outdoor #loveLowa @Komperdell_official #weareKomperdell . My material- and equipment Sponsors: @FischerSport_nordic @FischerSki @Beal.official #WeAreBeal @Deuter @Valandregear #Valandre @SlingFin . #️⃣: #NichtNurRaufRunterHeim #escalandomontanhas #mountainphotography #mountaineering #verticalpassion @verticalpassion #climbing_is_my_passion #expedition @discovery.hd @alpineclubcan #bergsteigen #liveclimbrepeat #nepal8thwonder #jai_nepal @insta.nepal #expeditions @awesome_nepal #nepal @mounteverestofficial #thenepalnow #himalaya #8000er #ochomilismo #Everest2019 #himalayas #DKTM #highaltitudeclimbing #visitnepal2020 @travelling.nepal #Lhotse @graysonschaffer @thamserku #discovernepal @explorenepal.official

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Eu resolvi abordar essa foto que já virou icônica na última turma da Escola de Negócios Fhox. Usei como metáfora para abordar a realidade do mercado. Mostrei aos participantes essa fotografia e o que ela representa. Na crise estendida não é fácil para ninguém em nenhuma área. Imagine então na fotografia? Sobretudo quando o ato de fotografar nas vidas das pessoas se tornou ato tão corriqueiro, banal. Tudo que é banalizado vale pouco. Um item supérfluo que se complicou mais ainda quando temos em média por ano 1.2 trilhões de cliques gerados por todo tipo de equipamento. Logo, aquela foto criada por você é como um floco de neve no Everest. As analogias não pararam de aparecer na minha cabeça. Oxigênio que falta nesse local onde estão ao alpinistas bem que poderia ser dinheiro. A montanha se tornaria o mercado. A fila é a concorrência. Muito tempo de espera porque ninguém quer arredar o pé e todos querem fazer a selfie de que chegou no lugar mais alto do mercado. Tem a ver com conquista e com vaidade e com ego.

Três toneladas de lixo foram retiradas recentemente por voluntários. O perfil frequente de muitos dos alpinistas que tentam chegar no topo é de milionários que só conseguem a façanha por contar com a ajuda de um “forte time de suporte” que custou muito dinheiro

Voltando a realidade. Os próprios sites de notícia destacaram que foi culpa é das “autoridades” nepalesas que liberaram acessos em quantidade acima do saudável e aconselhável para que alpinistas não morram no processo. Nepal é um dos países mais pobres do mundo. Então, nessas condições eles aproveitaram para fazer do topo do mundo um negócio rentável. Aliás, o topo do mundo custa caro (o pico do mercado também). Para escalar o Evereste sai 11 mil dólares só a autorização. Em média custa 30 mil contando tudo. Antes custava 50 mil dólares. Mas com as restrições menos apertadas eles conseguiram baixar o preço.

Conquistar algo importante assim não seria barato. As matérias que encontrei e tratam do assunto trazem muitas outras questões delicadas. Da quantidade de lixo gerada pelos alpinistas em excesso e da indústria que virou tudo aquilo. Pior de tudo é que morre muita gente. Historicamente sempre morreu. Um de cada três que tenta subir fica por lá. Quase sempre congelado como uma estátua para relembrar aos que sobem que essa conquista pode ser mortal. Aqui cabe um ponto mais irônico que também remete ao mercado. O perigo, segundo muitos alpinistas experientes que já subiram (e desceram), não é a subida que importa. Nem o cume. O problema e boa parte dos acidentes ocorre na descida. Porque depois de conquistar o auge, a pessoa relaxa e não presta mais tanta atenção. É justamente aí que ocorrem acidentes.

A foto de Purja foi parar no NYT. Gente morrendo na fila com 200 pessoas

A fabulosa foto do congestionamento de Purja é icônica. Ele notou a fila. Viu que não tinha o que fazer. Tirou as luvas e fez o clique. Purja está na luta para bater um recorde e escalar as maiores montanhas do mundo no menor tempo possível. No dia em que ele clicou aquela foto tão perto do topo vários morreram. Já é uma das temporadas mais mortais da história. Pujar tentou organizar a fila e ajudar as pessoas. 200 pessoas em uma fila presa por uma corda única. Isso a quase 9 mil metros de altitude no lugar mais alto do planeta. Na zona da morte, altitude onde você vai morrendo aos poucos. Falta ar, o frio é intenso e as condições mais inóspitas possíveis. No mercado quem lidera ou sai na frente sempre sofre. Seja por abrir trilhas ou pelo stress do líder. E custa muito. Energia, dinheiro e um esforço que muitos nem imaginam. É no fim a alegoria perfeita para qualquer negócio. Todos os empreendimentos costumam ter condições competitivas desafiadoras. Como as 200 pessoas presas em uma fila tentando chegar no mesmo objetivo. Pior é que nem dá para retornar. E a volta é tão perigosa quanto a subida.

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Digno de nota é que roubaram a fotografia de Purjar e usaram sem dar o crédito. Outros alpinistas clicaram cenas parecidas em situações distintas (algumas delas estão nesse post como essa acima). A fila não ocorre só no topo, mas já vinha lá bem de antes. Como no exemplo dessa imagem de abril passado de outro ponto do Everest.

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Nessa história toda fascinante gerada pela foto de Pruja não tenho como não lembrar do mito de Ícaro. Filho de Dédalo. Ambos presos no labirinto, criaram asas artificiais para poderem fugir voando. “não voe perto do Sol para não derreter suas asas e se espatifar” avisou o paí. Ícaro não quis saber e foi lá perto do Sol com aquele desejo de voar mais alto. As asas derretaram e ele caiu no mar e morreu. Cuidado com o desejo e a vontade de chegar mais alto. Claro que o sonho da conquista é legítimo. Um feito para celebrar e mostrar. Uma selfie mais do que especial para quem chegou lá (e conseguiu descer, claro). Pois assim como qualquer situação na vida (e no mercado)  uma hora você está no auge e outra você tem que descer. E se quiser pode tentar subir de novo. E se vale a comparação, preparo é tudo. Seja para conquistar qualquer mercado. Em ambos os casos envolve muito investimento, treinamento, estudo e vontade. Mas sobretudo ciente da realidade: de que o topo pode estar lotado e que pode ser bem traiçoeiro.