Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

Ruth Orkin e a enigmática fotografia American Girl in Italy

por Revista FHOX Publicado há 3 meses atrás | por Amanda M. P. Leite

Amanda M. P. Leite

American Girl in Italy – Garota americana na Itália – de Ruth Orkin

American Girl in Italy – Garota americana na Itália – de Ruth Orkin² (Florença, 1951) é uma fotografia ícone do século XX. Uma fotografia com quase 70 anos. É curioso observar como as imagens ganham muitas narrativas ao circularem por contextos diversos. Faça o agora o seguinte exercício, interrompa a leitura por um instante e observe a imagem. O que ela revela?

Na fotografia de Orkin, a mulher que caminha entre os homens é Jinx Allen, conhecida como Ninalle, atriz, 1.82 metros, na ocasião com 23 anos de idade. Uma jovem altiva, atraente, de passos firmes. Orkin a descreve como: “luminescente, e ao contrário de mim, muito alta” (Harazim, 2016, p. 135). Para onde a garota americana se desloca? Neste enquadre quinze homens a observam. A garota caminha a passos largos. O estilo arrojado da protagonista exibe uma saia longa, um xale mexicano laranja, jogado sobre os ombros e, uma sandália baixa, bastante moderna para a época. No que a garota américa estaria pensando? Para alguns a fotografia explora a feminilidade de uma época, para outros o desrespeito ao corpo feminino. Mas, se todo mundo tem algo a dizer sobre esta imagem, no que acreditar?

O livro de Dorrit Harazim, O instante certo (2016), cita campanhas que circularam na Internet inspiradas pela fotografia de Orkin e que rapidamente tornaram-se virais. Harazim (2016, p. 133) aponta que o vídeo 10 Hours of Walking in New York as a Woman, de 2014, por exemplo, ganhou grande projeção, “com apenas 118 segundos de duração, ele obteve 10 milhões de cliques em menos de 24 horas e hoje, ultrapassa os 40 milhões de visitantes […] com mais de 140 mil comentários”. O vídeo protagonizado pela atriz Shoshana B. Roberts procura explorar o assédio sexual que as mulheres sofrem diariamente nas ruas (não apenas em Nova Iorque, mas em todo o mundo). Outras campanhas caminharam nesta mesma direção, mas, a fotógrafa teria desejado produzir este tipo de narrativa?

O encontro entre Ruth Orkin e Ninalle foi casual, ambas estavam hospedadas no hotel Barchielli, à beira do rio Arno e se conheceram no dia anterior da captura. “Logo no primeiro dia trocaram impressões e combinaram sair juntas por Florença para Orkin fotografar Ninalle passeando, pedindo informações, admirando estatuas, negociando com comerciantes, flertando em cafés” (Harazim, 2016, p. 136).

O estilo aventureiro de Orkin e a animada interpretação de Ninalle fizeram com que o ensaio fotográfico surgisse como uma gostosa brincadeira. Algo leve e tranquilo diferente da associação feita atualmente ao tema do assédio sexual. Não se tratava de um ensaio com o roteiro definido, era a experiência e o olhar atento de Orkin que observava nuances potentes para produzir boas fotografias. A ideia original era abordar imagens de mulheres destemidas, que viajam sozinhas pelo mundo. Outras fotografias foram produzidas naquele dia, mas a que se destacou foi American Girl in Italy.

Neste caso específico, ao perceber que os homens não paravam de olhar Ninalle atravessar a praça da cidade, Orkin pediu que a modelo então repetisse a caminhada. Na segunda vez, sugeriu que o homem com a lambreta orientasse os demais para não encarar a câmera. Orkin bateu duas chapas com sua Contax e conseguiu fotografar uma das imagens mais emblemáticas do século XX. Depois disto Ninalle declarou: “me cobri bem com meu xale. Era minha proteção, meu escudo. Eu estava caminhando por um mar de homens. Eu estava desfrutando de cada minuto. Eles eram italianos e os italianos me encantam”.

O ensaio fotográfico de Orkin foi publicado na revista feminina Cosmopolitan, em 1952. O reconhecimento de American Girl in Italy, veio duas décadas depois e, ainda hoje é um dos pôsteres mais vendidos em todo o mundo. Para Harazim (2016, p. 136) a fotografia se consolidou junto ao “feminismo militante que brotou com a revolução sexual dos anos 1970”. Assim, “o que fora conhecido como celebração de uma independência feminina despreocupada, atrevida e bem-humorada passou a ser interpretado como prova de impotência da mulher num mundo dominado por machos e machistas”.

Seria este efeito decorrente do “politicamente correto” que vivemos nos dias atuais? Talvez, falte-nos mais humor. Rir de situações cotidianas. Desfilar, brincar nas ruas, ficcionalizar à vida, para lembrar Rancière (2012). Estas são questões muito particulares. Uma vez que as leituras são uma espécie de convite aberto, podem ser divergentes e instigar outros debates. Podemos tomar imagens como símbolos de luta, mas, não podemos trata-las tão-só como um suplemento destes movimentos e processos.

Ninalle, hoje com 87 anos, lamenta a leitura equivocada deste episódio. A atriz sempre reafirma em entrevistas: “em momento algum me senti assediada ou infeliz. Ao contrário. Imaginei ser a nobre e admirada Beatrice da Divina comédia de Dante”. E acrescenta: “muitos querem usar American Girl in Italy como símbolo de assédio sexual a mulheres, coisa que a imagem não é. Trata-se da imagem de uma mulher de bem com a vida” (HARAZIM, 2016, p. 136-137). Se American Girl in Italy teve o reconhecimento como uma das fotografias mais impactantes do século XX foi pela qualidade do trabalho de Orkin e, por aquilo que a própria imagem é. Uma imagem que quando contextualizada não se anuncia como verdade de um trabalho feminista ou político como muitos gostariam que fosse. Mas, como os tempos atuais parece haver um tipo de exigência que pede que todos se manifestem diante daquilo que vê, deixo a pergunta em aberto: você, o que vê?

Conheça outras fotografias de Ruth Orkin

¹ – Amanda Leite é fotógrafa. Doutora e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisadora e professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade e no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite E-mail: amandaleite@mail.uft.edu.br

² – Fotógrafa americana, com formação em Fotojornalismo e Cinema. Seus trabalhos estavam ligados majoritariamente à cidade de Nova York e Hollywood. Veja mais em: https://www.orkinphoto.com/