Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

Robert Doisneau e Alfred Eisentaedt: entre fotografias e beijos

por Revista FHOX Publicado há 2 semanas atrás | por Amanda M. P. Leite

Por Amanda M. P. Leite[1]

Você já deve ter visto esta imagem antes. Talvez tenha até postado nas redes sociais em comemoração ao “Dia dos namorados”. Sim, o tema é o amor. Uma cena que poderíamos encontrar em qualquer ponto da cidade. Homens e mulheres se deslocando em diferentes direções, pessoas tomando o café da manhã, movimento na rua, um casal apaixonado. Seria o retrato de um dia feliz? O beijo do Hotel Ville, foi publicado na revista Life, junho de 1950, para uma matéria sobre o romantismo francês na época da primavera parisiense. Na ocasião Robert Doisneau[1] era quase desconhecido. O desafio do fotógrafo era capturar o tema amor de modo espontâneo. Por se tratar de um tema comum e bastante explorado, seria possível evitar o clichê? Doisneau provoca em nós a surpresa em torno do amor romântico. Miramos a imagem, relembramos de literaturas, filmes, letras de música, cartas (não) escritas, revivemos o “final feliz” que se apresenta nos contos de fadas cotidianos. Somos surpreendidos por uma fotografia instantânea ou um instante encenado? Pode ser que a ausência de amor que caracteriza nossa rotina atual nos leve a desejar descobrir sobre quem são as personagens protagonistas desta imagem, em um movimento contrário ao de pensar sobre o amor.

Embora a fotografia mostre a espontaneidade entre o casal que se beija, os rumores que giraram em torno desta imagem fizeram com que os curiosos vasculhassem diferentes narrativas sobre a foto. Sabemos que Doisneau pagou os atores Françoise Delbart e Jacques Carteaud para posar para captura. “A fotografia é tão famosa que, em 1993, Doisneau foi processado por três pessoas que afirmaram não terem sido pagas para posarem para ele em 1950. Após um julgamento longo e que teve grande repercussão na imprensa, a Justiça inocentou Doisneau em 1994, ano de sua morte” (HACKING, 2012, p. 324).

Não interessa aqui pensar sobre a questão dos direitos autorais em capturas realizadas em espaços públicos, mas perceber aspectos que permitiram à imagem se sustentar como símbolo efervescente do amor durante anos. E ainda notar como a fotografia marca o modo como apreendemos o mundo ao nosso redor. Aqui apontarei alguns aspectos que fazem desta fotografia um acontecimento no panorama fotográfico. Cabe citar Deleuze (2013, p. 133) que afasta a origem da verdade para inventar conceitos e promover acontecimentos. O acontecimento gera singularidades, vai além. O acontecimento mexe com o evento, com a ordem do evento, pois o acontecimento não se trata daquilo que estou pensando, ele está sempre em devir.

Existe a possibilidade de a fotografia ser meio, rizoma, travessia, conversações. Não há ordem de leituras, tampouco existe uma palavra última, da ordem da verdade. Há um jogo entre fotografia, escrita e leituras. Esta combinação possibilita estranhar o cotidiano e criar ficções. A fotografia é uma espécie de citação do mundo, um recorte, um enquadramento duplicado, descontextualizado. Enquanto citação, a fotografia abre passagens para certezas menos estáveis que, desestabilizadas, transformam o regime representativo em outra coisa.

O primeiro destaque em O beijo do Hotel Ville, é o próprio hotel, um dos cartões postais de Paris. Turistas e moradores franceses contemplam este cenário diariamente. Em meio ao agito da rua e o deslocamento de pessoas, o beijo do casal é capturado “do ponto de vista de um freguês de um café de calçada. O espectador é convidado a participar daquilo que é ao mesmo tempo uma cena cotidiana e um símbolo universal perfeito do amor da juventude”. Um beijo apaixonado que nos remete ao segundo destaque, o casal. A roupa casual reforça o estilo de vida despojado que eles aparentam ter. O beijo surge como um “gesto espontâneo e autoconfiante, cheio de estilo: seus corpos em foco oferece um momento de calma e ousadia em meio ao alvoroço indistinto da vida moderna que os cerca”. O terceiro ponto é o beijo. No contexto de 1950, é a captura de Doisneau que faz com que os franceses conquistem o mundo com a alusão de um povo romântico. O quarto destaque é a triangulação das mãos do casal. Enquanto a mão direita do homem segura firme e envolve a mulher, a mão esquerda prende um cigarro entre os dedos e reforça uma ideia de masculinidade e proteção. Já a postura relaxada da mulher mostra fragilidade e uma ideia de feminilidade relativa à época. O último detalhe é a escolha dos tons em preto e branco que dão à fotografia um “ar” saudoso e melancólico, além de lembrar fotos publicadas em jornais sugerindo ao público que a cena era real (HACKING, 2012, p. 325).

Rancière (2012, p. 42), nos ajuda a pensar sobre a tensão entre uma fotografia que expõe aparentemente algo real e que ao mesmo tempo inexiste. A fotografia e seu regime estético provoca pausas, vazios, caos. No jogo da captura ora estamos diante da arte e da não arte. É a indeterminação que nos possibilita usar a fotografia enquanto uma experiência conceitual, menos documental, ainda que a ideia de evidência ou representação nunca abandone a captura. Precisamos então olhar a superfície, a profundidade da superfície, as dobras da própria superfície. Aquilo que vemos como centro, pode ser descentralizado; aquilo que apontamos como o lado de fora pode ser o lado de dentro ou o inverso. Um jogo de forças em que Deleuze (2009, p. 12), aponta:

[…] é sempre contornando a superfície, a fronteira, que passamos do outro lado, pela virtude de um anel. A continuidade do avesso e do direito substitui todos os níveis de profundidade; e os efeitos e superfície em um só e mesmo acontecimento, que vale para todos os acontecimentos, fazem elevar-se ao nível da linguagem todo o devir e seus paradoxos […]

Para pensar a superfície da imagem fotográfica é preciso rever o avesso, o inverso, o paradoxo da própria fotografia ou a pós-verdade que brota de narrativas e discursos. Deste modo, trago outra fotografia para ser analisada, The Kiss – O beijo entre o marinheiro e a enfermeira – de Alfred Eisentaedt, publicada na revista Life, em 1945. Revista que publicou Doisneau cinco anos depois. Foto que pode ter influenciado a composição do fotógrafo sobre o amor.

Em The Kiss, estamos na Times Square, 4 de agosto de 1945, contexto do final da Segunda Guerra Mundial. Pessoas ocupam as ruas, se abraçam, desfilam sorridentes, festejam a vitória dos Estados Unidos. A fotografia de Alfred é um ícone deste momento histórico. Vemos em destaque o marinheiro e a enfermeira. Uma cena tipicamente romântica, um reencontro. O marinheiro sabe que não terá que embarcar novamente para o Pacífico, por isso, vibra, comemora nos braços de sua amada. Uma imagem que arranca suspiros!

Calma! Observe as fotografias com mais atenção. Demore-se nos detalhes. Há uma possível (des)harmonia entre o casal? A enfermeira parece reagir ao beijo no terceiro quadro da imagem. Não estamos rodeados pela atmosfera do amor? A reação da enfermeira gerou suspeitas e fez com que as pessoas buscassem outras narrativas sobre a imagem. Espero que você leitor não se desaponte com a história, mas, não foi amor à primeira vista! Ao contrário, o marinheiro segurou a enfermeira em um abraço tão forte que não deu a ela qualquer chance de não beijá-lo. A enfermeira, Greta Zimer Friedman, foi beijada pelo marinheiro, George Mendonsa, no calor das comemorações. Era a primeira vez que Greta estivera com George. O terceiro quadro mostra Greta tentando se liberar do abraço de George. A noiva do marinheiro aparece ao fundo de uma das capturas.

Assim como na foto de Ruth Orkin (American Girl in Italy, 1951)[1], a fotografia de Eisenstaedt, hoje, parece ganhar leituras que a aproxime de questões sobre o assédio sexual e o desrespeito ao corpo feminino, um modo descontextualizado de olhar a imagem. A enfermeira garantiu em declarações posteriores à publicação da foto que não se tratava de assédio, mas de um instante feliz para a sociedade americana. Por outro lado, você pode se surpreender com o beijo e extrapolar a leitura sobre o amor e um beijo ardente, daqueles que faltam o ar. The Kiss é a captura de um momento tão singular que chegou a tornar-se livro, The Kissing Sailor, publicado em 2012, por George Galdorisi e Lawrence Verria.

[1] Faço esta reflexão no texto: Fotos Incríveis: anedotas que ganharam o mundo. Disponível em: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/observatorio/article/view/4593

[1] Fotógrafo francês apaixonado por fotografias de rua. Teve alguns de seus trabalhos publicados em revistas, como é o caso da fotografia “O Beijo do Hotel de Ville” (Paris, 1950). https://www.robert-doisneau.com/en/portfolios/

Amanda Leite é doutora e mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisadora e professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade e no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite E-mail: amandaleite@mail.uft.edu.br

Referências

 DELEUZE, G. A Lógica do sentido. Tradução: Luiz Roberto Salinas. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 2009.

DELEUZE, G. Conversações. Tradução de Peter Paul Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 2013.

LEITE, A. FOTOS INCRÍVEIS: anedotas que ganharam o mundo. Revista Observatório, v. 4, n. 1, p. 200-219, 1 jan. 2018.

HACKING, Juliet. Tudo sobre Fotografia. Tradução Fabio Morais, Fernanda Abreu e Ivo Korytowski; Rio de Janeiro: Sextante, 2012.

HARAZIM, Dorrit. O instante certo. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. Tradução Ivone C. Benedetti. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.