Quando uma foto morre?

Saber quando uma foto vai morrer pode nos ajudar a pensar no propósito e na forma como ela pode ser feita ou preservada?

por Revista FHOX Publicado há 1 ano atrás | por Flávio A. Priori

Em 2006 eu morava em Pinheiros, em São Paulo, e surgiram as notícias de que o metrô chegaria no bairro. Pensando nas transformações pelas quais a região passaria, determinei um perímetro geográfico no entorno da futura estação e sai fotografando e registrando tudo. Naquela época já existiam câmeras digitais, mas eu usava minha Pentax K1000 e alguns rolos de filme. Cada foto era pensada, contada, e muitas vezes regressava para casa antecipadamente por não haver mais poses no filme.

Depois mandava revelar o material e ficava ansioso para ver as imagens e catalogá-las. Era um exercício de memória lembrar onde cada foto havia sido feita no mapa. O tempo foi passando e comecei a juntar além das fotos, matérias de jornais e revistas, folhetos de lançamentos imobiliários e panfletos de lojas da região.

Juntei tudo isso em um grande arquivo por mais de dez anos. No meio do caminho encostei minha máquina analógica e entrei no mundo digital. Voltava para casa somente quando acabava a bateria. Achei que ia economizar não precisando mais comprar filmes, mas foi um ledo engano. Passei a tirar mais fotos e com isso imprimia mais e gastava mais.

O arquivo de fotos e documentos de Pinheiros está guardado, sempre penso no que devo fazer com ele, mas não tomei nenhuma decisão ainda. Continuo saindo para caminhar e fotografar e numa dessas andanças me surgiu a pergunta que dá o título a esse texto: quando morre uma foto?

Photo by Julia Giacomini on Unsplash

 

Será que minhas fotos de Pinheiros estão mortas? Para começar a responder essa pergunta, me vem a questão de quando nasce uma foto? Seria quando clicamos o botão da máquina ou quando encostamos o dedo na tela do celular? Seria quando surge a ideia de fazer um registro de imagem? Seria quando imprimimos ou revelamos a foto em algum substrato físico? Ou quando a postamos em uma rede social?

Fotografias nascem com propósitos, e talvez seja isso que determine sua data de morte? Quando batemos várias fotos seguidas para depois escolher a melhor, ali mesmo, muitas delas já morreram. Quando selecionamos algumas dentre várias para imprimir, colocar no álbum ou fazer um fotolivro, muitas fotos não selecionadas morrem. Mas e as que foram escolhidas, aquelas de que gostamos e imprimimos, quando morrem?

Será que aquelas fotos que estão dentro de uma caixa de sapato no fundo de um armário estão mortas? E aquelas jogadas no fundo de uma gaveta na escrivaninha? E uma foto emoldurada e desbotada, ou aquelas primeiras que estão no feed de uma rede social com milhares de publicações e que para vê-las é preciso descer páginas e páginas até cansar o dedo?

Saber quando uma foto vai morrer pode nos ajudar a pensar no propósito e na forma como ela pode ser feita ou preservada? Sem dúvida fotos impressas demoram mais para morrer, mas se não forem bem-cuidadas e preservadas, seu tempo de vida pode ser curto e levar com elas memórias e registros de um passado que não volta.