Por Nicolau Piratininga
É formado em Comunicação Social pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e entusiasta da fotografia. Realizou diversos cursos de especialização em artes e em fotografia, além de atuar em projetos paralelos de registros fotográficos da cidade de São Paulo. Foi gerente da divisão Conservart da empresa Molducenter, especializado em montagens de materiais Fine Art. Possui expertise em acondicionamento, conservação e restauro de acervos em papel. Em 2014 tornou-se o primeiro latino americano a obter o certificado Guild Commended Framer pela Fine Art Trade Guild na Inglaterra de emolduramento de obras de artes.  peixeseco@gmail.com

Quando uma foto morre?

Saber quando uma foto vai morrer pode nos ajudar a pensar no propósito e na forma como ela pode ser feita ou preservada?

por Revista FHOX Publicado há 4 semanas atrás | por Nicolau Piratininga

Em 2006 eu morava em Pinheiros, em São Paulo, e surgiram as notícias de que o metrô chegaria no bairro. Pensando nas transformações pelas quais a região passaria, determinei um perímetro geográfico no entorno da futura estação e sai fotografando e registrando tudo. Naquela época já existiam câmeras digitais, mas eu usava minha Pentax K1000 e alguns rolos de filme. Cada foto era pensada, contada, e muitas vezes regressava para casa antecipadamente por não haver mais poses no filme.

Depois mandava revelar o material e ficava ansioso para ver as imagens e catalogá-las. Era um exercício de memória lembrar onde cada foto havia sido feita no mapa. O tempo foi passando e comecei a juntar além das fotos, matérias de jornais e revistas, folhetos de lançamentos imobiliários e panfletos de lojas da região.

Juntei tudo isso em um grande arquivo por mais de dez anos. No meio do caminho encostei minha máquina analógica e entrei no mundo digital. Voltava para casa somente quando acabava a bateria. Achei que ia economizar não precisando mais comprar filmes, mas foi um ledo engano. Passei a tirar mais fotos e com isso imprimia mais e gastava mais.

O arquivo de fotos e documentos de Pinheiros está guardado, sempre penso no que devo fazer com ele, mas não tomei nenhuma decisão ainda. Continuo saindo para caminhar e fotografar e numa dessas andanças me surgiu a pergunta que dá o título a esse texto: quando morre uma foto?

Photo by Julia Giacomini on Unsplash

 

Será que minhas fotos de Pinheiros estão mortas? Para começar a responder essa pergunta, me vem a questão de quando nasce uma foto? Seria quando clicamos o botão da máquina ou quando encostamos o dedo na tela do celular? Seria quando surge a ideia de fazer um registro de imagem? Seria quando imprimimos ou revelamos a foto em algum substrato físico? Ou quando a postamos em uma rede social?

Fotografias nascem com propósitos, e talvez seja isso que determine sua data de morte? Quando batemos várias fotos seguidas para depois escolher a melhor, ali mesmo, muitas delas já morreram. Quando selecionamos algumas dentre várias para imprimir, colocar no álbum ou fazer um fotolivro, muitas fotos não selecionadas morrem. Mas e as que foram escolhidas, aquelas de que gostamos e imprimimos, quando morrem?

Será que aquelas fotos que estão dentro de uma caixa de sapato no fundo de um armário estão mortas? E aquelas jogadas no fundo de uma gaveta na escrivaninha? E uma foto emoldurada e desbotada, ou aquelas primeiras que estão no feed de uma rede social com milhares de publicações e que para vê-las é preciso descer páginas e páginas até cansar o dedo?

Saber quando uma foto vai morrer pode nos ajudar a pensar no propósito e na forma como ela pode ser feita ou preservada? Sem dúvida fotos impressas demoram mais para morrer, mas se não forem bem-cuidadas e preservadas, seu tempo de vida pode ser curto e levar com elas memórias e registros de um passado que não volta.