Sobre fotografia e cinema: quais histórias você anda contando por aí?

Raphael Bittencourt é fotógrafo e cineasta brasileiro atuando em Los Angeles. 

por Revista FHOX Publicado há 2 meses atrás | por Raphael Bittencourt

Você é daquelas pessoas que têm paixão por artes, especialmente as visuais? Tipo design, fotografia, cinema, ilustração, pintura? Sim! Seis vezes SIM? Pois é, eu também. Eu sou o Raphael Bittencourt, aquele cara do Sul, lá de Curitiba; daquela cidade fria, onde chove mais do que em Seattle, que mora em Los Angeles e um dia resolveu misturar isso tudo e mais um pouco.

Como essas coisas se relacionam? Quando uma técnica vira outra e a outra vira a primeira? Quem acha que isso é tudo “história”, acertou! Eu achava, muito convencido, que eu era o ponto em comum entre tudo isso, mas me dei conta que não.

O ponto em comum é a história. Todo design, toda fotografia, todo filme, toda imagem conta uma história, fictícia ou não. Por trás dessas histórias, nos bastidores, por trás das câmeras, dos pincéis e telas existem também outras histórias reais.

Minha proposta aqui na FHOX é falar justamente dessas histórias; aquelas que as imagens contam e também as histórias por trás das histórias. O objeto e os bastidores das minhas e das histórias de outros criadores. Para conhecer o Instagram do Raphael, clique aqui.

A começar por onde? Algumas semanas atrás, numa entrevista para o FHOXCAST, o podcast da FHOX, fui indagado sobre a importância da fotografia still na minha atividade principal hoje: o cinema. Minha resposta? Total! A importância da fotografia para o meu cinema, e para o cinema de qualquer cineasta é absoluta! Este não existe sem aquela.

Então, faltando pouco mais de duas semanas para a festa da Academy of Motion Pictures Arts and Sciences, o Oscar, que tal começarmos por aí? Vamos nos aprofundar um pouco mais naquela questão da fotografia e o cinema.

Em tempo, vocês vão notar que muitas vezes, para não dizer praticamente sempre, nós, os cineastas ou filmmakers, como preferirem, nos referimos à cinematografia ou à direção de fotografia simplesmente como fotografia. Com o tempo isso acaba se justificando.

Retomando o fio da meada, todos os anos centenas de filmes são submetidos ao crivo da Academy. Só na categoria de “Melhor filme”, para a edição de 2020 foram 344. Na categoria de “Filme Estrangeiro” foram mais de 90. Ao longo do processo várias eliminatórias são realizadas em todas as categorias. Dentro da escolha dos filmes estrangeiros, na qual conheço algumas das pessoas envolvidas no processo, sei que a lista diminui para 20 títulos; depois 9, para então chegar na seleção final com os 5 indicados.

Um processo semelhante acontece em cada uma das categorias (departamentos) no qual os filmes são avaliados pelos respectivos membros. Diretores votam decidindo os indicados à direção, produtores votam definindo os indicados a “Melhor filme” e assim por diante. Depois de definidos os indicados, todos os membros da Academy podem votar em todas as categorias. Na cinematografia os indicados da vez são:

Era uma vez em Hollywood. Fotografado por Robert Richardson.

– 1917 – fotografado por Roger Deakins
– Once Upon a Time in Hollywood – fotografado por Robert Richardson
– The Irishman – fotografado por Rodrigo Prieto
– Joker – fotografado por Lawrence Sher
– The Lighthouse – fotografado por Jarin Blasche

Diretor de fotografia Lawrence Sher do filme Joker.

Ter o nome numa lista dessas já é um feito e tanto. Ganhar então, algo que muitos almejam ao redor do planeta e pouquíssimos alcançam. Entretanto, além do óbvio do que uma lista dessa representa, há muito mais informação ali.

Cruzando os dados dos indicados a “Melhor fotografia” com os dos indicados a “Melhor filme” e “Melhor direção”, fatos interessantes vêm à tona.

Quatro dos indicados à “Melhor fotografia” também estão entre os cinco indicados à “Melhor direção” e os mesmos quatro também estão entre os nove indicados a “Melhor filme”. Coincidência? Em 2019, três dos cinco indicados à fotografia estavam entre os cinco indicados à melhor direção; dois estavam concorrendo também a melhor filme e dois a melhor filme estrangeiro.

Roma, de Alfonso Cuarón, que por sinal dirigiu e fotografou o filme, levou as estatuetas de Direção, Fotografia e Filme estrangeiro. Em 2018, três dos indicados à fotografia figuravam também nas categorias de melhor direção ou melhor filme ou mesmo nas duas. Deakins levou a fotografia por Blade Runner 2049. Em 2017, novamente quatro entre os cinco da fotografia estavam lá entre os indicados nas categorias de “Melhor filme” e “Melhor direção”. La La Land levou “Melhor fotografia” e “Melhor direção”.

Deu pra perceber a relação entre um trabalho primoroso de fotografia e o desempenho de um filme em outros departamentos? Lembram quando falei sobre fotografias ou cinematografias sempre estarem inevitavelmente destinadas a contar histórias? O que mais dá pra tirar de informação das listas dos indicados nessa pequena amostra retrospectiva?

Roger Deakins é um mestre! Ganhou em 2018 e acho que deve levar novamente em 2020, mesmo apesar de eu gostar muito do trabalho feito em “Once Upon a Time in Hollywood” e achar a fotografia de “Joker” sensacional.

Moonlight levou “Melhor filme” em 2017, e estava concorrendo em fotografia. E daí? Bem, há quem diga que para concorrer nessas categorias, nesse nível, só com produções multimilionárias. Nada mais incorreto.

Moonlight teve um orçamento original de produção de U$1,5 milhões (depois foi pra U$4 milhões por conta da publicidade e distribuição). Uma pechincha classificada como micro-orçamento nesse mercado. Fotografia em preto e branco não está com nada? Bem, nesse ano tem um filme em P/B concorrendo: The Lighthouse. Ano passado houve dois: Roma e Cold War. E vocês já sabem quem levou a fotografia.

Tem ainda mais uma coisa. Talvez a mais importante que eu queria tirar dessa pequena amostra. Eles nunca ganharam um Oscar juntos, mas trabalharam juntos em mais de uma ocasião. Rodrigo Prieto e Martin Scorsese.

Rodrigo Prieto e Martin Scorsese.

Prieto também é o diretor de fotografia preferido de Alejandro González Iñárritu e colaborou com Oliver Stone em mais de uma oportunidade também. São todas colaborações com diretores importantíssimos e, acima de tudo, donos de estilos muito bem definidos.

Novamente batemos naquela tecla: a fotografia contando histórias. Esses “casamentos” entre diretores e diretores de fotografia não são raros. Quando um diretor encontra um cinematógrafo com “aquela” assinatura visual alinhada às suas próprias narrativas, do jeito que ele quer contá-las, geralmente a parceria se repete e os frutos aparecem na forma de grandes filmes.

De onde vem essa tal assinatura visual? Em poucas palavras: do repertório de cada diretor de fotografia. Alongando a resposta: dos estudos de composição, proporção, cor, luz, forma, movimento e narrativa. Mas assim não é na fotografia still?

A questão do movimento e do tempo é um pouco diferente, mas ainda assim está nas duas. Os princípios são os mesmos. Hoje em dia, em certas situações, até os equipamentos são os mesmos. Basta ver o mercado de câmeras DSLR e mirrorless que fotografam e gravam. Outra coincidência?

Como diretor de fotografia, ando com minha DSLR para cima e para baixo. Desenvolvo projetos, faço testes, experimento e crio o tempo todo. Isso me mantém ativo e criativo quando não estou gravando ou produzindo (cinema).

É uma forma de exercitar o olhar e testar ideias e conceitos que depois podem fatalmente terminar em algum filme. Não acredite apenas em mim. Dê uma olhada nos perfis do Rodrigo Prieto, do Dan Lausten (The Shape of Water, John Wick), do Greig Fraser (Vice, Lion, Rogue One: A Star Wars Story) ou da Rachel Morrison (Black Panther, Mudbound). A sensibilidade, o olhar e as referências deles estão lá, na forma de fotografias, muitas delas bem longe do set de cinema. Claro, se quiserem dar uma passada no meu Instagram e fuçarem o que tem por lá, estão super convidados.

Fechando essa primeira provocação (sim, quem me conhece sabe que eu vivo cutucando tudo e todos), gostaria de deixar a seguinte ideia: se você fotografa (still), você conta histórias, queira ou não. Você está mais próximo do Deakins, do Prieto e do Kubrick do que você imagina. A pergunta é: quais histórias você anda contando?